
Antes de baterem no saco, meninos e meninas formaram uma roda e sentaram-se ao chão. Na ocasião, a estudante Leila Rebolças, filha do idealizador na Malhação do Judas na Vila Planalto, contou aos pequenos sobre a tradição e sobre a importância de não se incitar a violência.
“Bater em um boneco não muda uma realidade e também já aprendemos que não é a política ou a religião que mudam, mas sim a educação”, argumentou Leila. Ela reclama do fato da Vila Planalto estar sem escolar pública para as crianças.
O quatro filhos da dona de casa Elisângela Guimarães, 38 anos, assistiram à malhação do "saco de maldades". Ela conta que, desde pequena, acompanha a tradição. “Achei interessante a mudança. Antes, as crianças achavam que podiam bater nas pessoas, agora têm a oportunidade de aprender que isso não é bacana”, justificou.
Tradição
A malhação do Judas mais tradicional de Brasília teve inicio em 1960, na Vila Planalto. O pioneiro Francisco Félix Rebouças, um cearense, que veio para a capital federal em 1958 decidiu trazer a tradição nordestina para o DF. Sr. Francisco malhou os Judas todos os anos, até morrer em 2011. Porém, sua família continua a tradição, para atender ao seu ultimo pedido que foi: "continuem a malhação do Judas para alegrar as crianças da Vila Planalto".
Malhação de Judas ou Queima de Judas é uma tradição vigente em diversas comunidades católicas e ortodoxas que foi introduzida na América Latina pelos espanhóis e portugueses. É também realizada em diversos outros países, sempre no Sábado de Aleluia, simbolizando a morte de Judas Iscariotes.
Consiste em surrar um boneco do tamanho de um homem, forrado de serragem, trapos ou jornal, pelas ruas de um bairro e atear fogo a ele, normalmente ao meio-dia. O Judas da Vila Planalto, entretanto, não era queimado para evitar acidentes.
Em Fortaleza, bonecos de Dilma e Lula são malhados como Judas
Bonecos da presidente Dilma e do ex-presidente Lula são os que têm mais saída entre os vendedores ambulantes de Fortaleza, neste sábado de aleluia que, pela tradição católica, é dia de malhar Judas Iscariotes, aquele que vendeu Jesus para ser crucificado. A ambulante Maria das Candeias vendeu neste sábado quatro bonecos representado a presidente Dilma e o último - de um estoque que fez de dez - do ex presidente Lula. "Só resta uma Dilma e não tenho mais nenhum Lula. São os que estão saindo mais. Ontem vendi dez Dilma e cinco Lula", disse Maria.
A ambulante disse que até o começo da tarde deste sábado estava com um estoque de dez bonecos, sendo a maioria de não políticos, como o cangaceiro Lampião. "Eles não estão tendo tanta saída como os políticos, mas espero vender pelo menos a metade até o final do dia", estimou.
Maria disse que não fez boneco do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, por ele não ser conhecido em Fortaleza. "Fiz da Dilma e do Lula porque são conhecidos e todos compram para malhar", afirmou. O boneco de Eduardo Cunha foi malhado e queimado ainda na quinta-feira, durante a representação da via crucis do trabalhador, promovida pelo Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde no Ceará (Sindsaúde).
Cada boneco custa R$ 100,00. A movimentação de compradores na esquina das avenidas Washington Soares com Oliveira Paiva onde Maria expõe os bonecos era grande, por ali ser o caminho das praias de Fortaleza e Aquiraz, onde fica o Beach Park.
Quem não investiu nos bonecos de políticos não realizou bom negócio. Foi o caso de José Renato. Ele revendia bonecos do fabricante Ze do Judas, na esquina das avenidas Borges de Melo com Raul Barbosa, no caminho do aeroporto Pinto Martins. "Não fizemos Judas de político e só vendi um boneco", afirmou José Renato, que ainda tinha um estoque ao meio-dia desde sábado de mais de 15 bonecos ao preço de R$ 100,00. Segundo ele, as vendas foram ruins porque o fabricante não confeccionou bonecos de políticos.
Jean Carlos Alves, o Zé do Judas, já havia comercializado quase todos nos dias anteriores ao sábado de aleluia. Dos 200 bonecos que ele fabricou este ano, 90% faziam referência a políticos envolvidos na Operação Lava Jato.
A tradição de malhar o Judas é forte em Fortaleza. A Secretaria de Cultura do Estado, de acordo com edital "Ceará da Paixão 2015", disponibilizou R$ 887 mil para 78 entidades e pessoas físicas que programaram festejos para queima e malhação de Judas. A maioria de Fortaleza.
