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Estado de Minas FACT-CHECKING

Checamos: Ações como jejuar e tomar banho frio não fortalecem o sistema imunológico 'em alguns dias'

Texto com esse tipo de recomendações tem sido compartilhado em redes sociais mas várias são falsas ou imprecisas


30/06/2020 21:04 - atualizado 16/07/2020 07:52

Um texto com diversas recomendações para, supostamente, fortalecer o sistema imunológico e se proteger do novo coronavírus foi compartilhado mais de 5 mil vezes em redes sociais desde o último dia 3 de junho.

Entre outras coisas, a mensagem diz que o sistema imunológico pode ser fortalecido em poucos dias realizando jejum e tomando banhos de água fria, o que reduziria o número de casos graves de COVID-19.

No entanto, algumas das afirmações da lista são falsas ou imprecisas, e outras não possuem embasamento científico suficiente, de acordo com especialistas.

“Em que momento, foi explicado à população que todos têm a capacidade de fortalecer naturalmente o seu sistema imunológico em alguns dias (os jovens) ou em algumas semanas?”, questiona uma publicação no Facebook.

A mensagem, que circula no Facebook (1, 2, 3) e Instagram, assim como em espanhol, lista os supostos riscos para o sistema imunológico de utilizar álcool em gel e consumir comidas industrializadas.

Em algumas postagens, os conselhos são atribuídos a um “naturopata francês” que não é identificado.

A maior parte das publicações é ilustrada com uma imagem do corpo humano, no qual são destacados alguns componentes do sistema imunológico. A ilustração foi publicada em 9 de março de 2013 na plataforma de venda de imagens CanStock Photo. 

 

 

Abaixo, verificamos as afirmações do texto viralizado.

A pele e o sistema imunológico


A mensagem assegura que o álcool em gel, cujo uso é recomendado para prevenir o contágio do novo coronavírus, “elimina a primeira barreira imune natural do nosso corpo” e torna a pele mais sensível aos vírus.

No entanto, o álcool em gel não elimina por completo as bactérias “boas” da pele e seu uso não aumenta o risco de contágio, explicaram à equipe de checagem da AFP a dermatologista Laura Ramos e o infectologista Oscar Tamez, ambos especialistas do TecSalud, sistema de saúde da universidade mexicana Instituto Tecnológico de Monterrey.

O uso do álcool em gel destrói patógenos, como o novo coronavírus, impedindo-os de entrar no organismo quando tocamos no rosto, mas não representa “uma mudança significativa para dizer que estamos enfraquecendo o sistema imunológico”, assegura o infectologista.

A camada mais superficial da pele é o estrato córneo, que contém bactérias benéficas e lípidos ou gorduras, que “sofrem certa modificação” com o álcool em gel, mas que se regeneram novamente, explicou a dermatologista.

Além disso, Tamez sinalizou que essas bactérias também habitam nos estratos mais profundos da pele e que voltam a colonizar o estrato córneo quando, mediante sinais moleculares, detectam que as bactérias da superfície foram eliminadas.

Os únicos efeitos adversos que podem ser provocados pela frequente higiene das mãos, afirmou Ramos, são o ressecamento ou irritação da pele, que podem ser atenuados utilizando água morna, e não quente, ao lavar as mãos e, no caso do álcool em gel, evitando aqueles que possuem fragrâncias ou corantes. 

 
Captura de tela feita em 3 de julho de 2020 mostra texto publicado no Facebook
Captura de tela feita em 3 de julho de 2020 mostra texto publicado no Facebook

 

Fortalecimento do sistema imunológico


O texto viralizado afirma, ainda, que todas as pessoas “têm a capacidade de fortalecer naturalmente o seu sistema imunológico em alguns dias”, especialmente os jovens, ou “em algumas semanas”.

“Não existe estudo que fale sobre fortalecimento ou enfraquecimento do sistema imunológico, em poucos dias ou em muitos dias”, disse à AFP Alejandro Garza Alpírez, médico especializado em imunologia clínica do Hospital Zambrano Hellion, no México.

Além disso, as publicações mencionam a eficácia dos “óleos essenciais antivirais, além de vit C em altas doses e minerais traça como zinco e selênio [sic], mas o doutor José Antonio Ortega, professor de imunologia da Universidade Autônoma do Estado de Hidalgo, sinalizou que estes “levam meses” para atingir resultados.

Estimular o sistema imunológico, acrescenta o texto, “fortaleceria as nossas defesas contra ele [o novo coronavírus] e, portanto, reduziria a proporção de casos graves”.

Fazer exercícios e manter uma dieta adequada pode melhorar a saúde do sistema imunológico e, ao mesmo tempo, “ajudar a diminuir doenças como a diabetes, ou a hipertensão, ou a obesidade”, sinalizou Ortega.  Estas doenças têm sido associadas a uma maior probabilidade de desenvolvimento de quadros graves de COVID-19.

Estudos limitados


A publicação também ressalta os supostos benefícios para o sistema imunológico de tomar banhos de água fria, fazer jejum e consumir plantas. Embora existam estudos científicos que abordem estes temas, eles são limitados e inconclusivos.

Sobre tomar banhos gelados, a mensagem garante que “em poucos dias aumenta o nível de certos linfócitos T”. Um estudo de 1995 mostrou uma tendência de aumento dos linfócitos T, uma célula do sistema imunológico, em indivíduos que se submeteram a imersões em água gelada durante seis semanas, contou Garza, mas “se você tomar banho agora com água fria, não é como se o seu sistema imunológico já vá ficar mais preparado para te defender, não é assim”, precisou.

Um estudo mais recente, realizado em 2015 com 3.018 voluntários, mostrou que aqueles que seguiram uma rotina de banhos com água fria durante ao menos 30 dias se ausentaram menos do trabalho por doenças do que os que não seguiram a rotina. No entanto, entre aqueles que ficaram doentes, não foi detectada uma redução no número de dias com a doença, em comparação com o grupo de controle.

Ortega, especialista em imunologia, acrescentou que “foi descoberto que as mudanças de temperatura podem, sim, afetar a forma com a qual respondemos às infecções em geral, mas, em especial nas infecções por vírus respiratórios como este [o novo coronavírus], as temperaturas baixas nas mucosas respiratórias favorecem mais a disseminação do vírus”

 

 

“O jejum fortalece o sistema imunitário em apenas 3 dias”, continua a publicação viralizada. Os especialistas consultados concordaram ao afirmar que o jejum não fortalece o sistema imunológico, mas o modula, provocando uma “desinflamação generalizada do corpo”, um efeito benéfico para a saúde em geral, explicou Garza, especializado em imunologia clínica.

Além disso, o jejum intermitente favorece a autofagia, que é a reciclagem dos componentes internos da célula, o que pode fazer com que sejam eliminados organismos invasores, como os vírus, acrescentou Ortega.

Diversos estudos demonstraram que períodos de jejum intermitente reduzem a quantidade de células imunológicas que causam inflamação, como este realizado em 2009 com a participação de 50 voluntários muçulmanos que jejuaram durante o mês do Ramadã.

A mensagem menciona, ainda, que “plantas como a equinácea, o astraga, o sabugueiro, o encaramujo, nas suas formas concentradas, aumentam as defesas imunes em algumas semanas [sic].

Sobre este tema Garza afirma que, sim, existem ervas consideradas como “imuno favorecedoras”, e que as que foram estudadas com maior profundidade são a equinácea e o astrágalo. No entanto, detalhou: “não há resultados assertivos, conclusivos” sobre qual parte da planta deve ser consumida e que, no melhor dos casos, “podem preparar o sistema imunológico para atuar da melhor forma, mas não vão prevenir doenças”.

Sobre o sabugueiro e cinórrodo (escaramujo, em espanhol, provável tradução da palavra “encaramujo” presente na mensagem), afirmou que “não sabemos de forma adequada como funcionam, por quais meios e quais efeitos têm no corpo”.

Dieta e sistema imunológico


A mensagem compartilhada nas redes sociais continua: “Por que não dizer às pessoas que comer lixo, como produtos industriais, processados e refinados é a primeira coisa que destrói nossas defesas imunes?”.

Comer produtos industrializados e refinados não destrói as defesas diretamente, mas seu consumo excessivo “pode provocar alterações metabólicas (...) que afetam o funcionamento de muitas de nossas células”, incluindo as imunológicas, afirmou Ortega, especialista em imunologia.

De acordo com este informe publicado em 2019 pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) “foi demonstrado que um elevado consumo de produtos ultraprocessados (formulações industriais) é associado à obesidade em todos os grupos de idade”. A diabetes é uma das alterações metabólicas associadas à obesidade que afeta o sistema imunológico.

O texto viralizado também afirma que “legumes e frutas vivas, cruas, locais e temporada são a melhor maneira de fortalecer rapidamente nossas reservas minerais, necessárias para a imunidade”.

“Em geral sim”, disse Ortega, mas o efeito “não é tão rápido que o veremos em dias ou semanas, mas talvez em meses ou anos”, acrescentou.

“Por que não falar sobre a eficácia dos óleos essenciais antivirais? Além de vit C em altas doses e minerais traça como zinco e selênio? [sic], pergunta a mensagem.

A AFP já verificou afirmações semelhantes, consultando especialistas que concordaram sobre o efeito nulo da vitamina C para prevenir doenças como a COVID-19, embora eles tenham sinalizado que ela reforça, sim, o sistema imunológico.

“O medo é imunossupressor”, também afirmam as postagens. Os especialistas consultados pela AFP afirmaram que o estresse crônico afeta o sistema imunológico e, inclusive, pode provocar doenças autoimunes. Por outro lado, o medo agudo ou de curta duração provoca um aumento de cortisol, glicose e pressão arterial, disse Garza.

Para estimular o sistema imunológico o melhor é manter uma alimentação equilibrada, cuidar do peso e realizar atividades físicas de acordo com sua idade, afirmaram os especialistas consultados.

Em resumo, não é verdade que o álcool em gel torne a pele mais sensível aos vírus e não há evidências suficientes para afirmar que o jejum, os banhos de água fria e o consumo de plantas fortaleçam o sistema imunológico, embora sejam condutas benéficas para a saúde em geral.


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