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Estado de Minas Sri Lanka

Pressionado por protestos, presidente vai renunciar

Uma multidão invadiu ontem a residência oficial em ato contra a crise no país e exigindo a saída de Gotabaya Rajapaksa


10/07/2022 04:00 - atualizado 09/07/2022 22:19

População revoltada tomou a residência oficial na capital, Colombo
População revoltada com aumento de preços e desabastecimento de comida e remédios tomou a residência oficial na capital, Colombo, ontem (foto: Fotos: Photo/AFP )

Uma multidão atacou e invadiu ontem a residência oficial do presidente do Sri Lanka, Gotabaya Rajapaksa, que foi forçado a fugir e renunciará, anunciou o presidente do Parlamento, Mahinda Abeywardana. “Para garantir uma transição pacífica, o presidente disse que apresentaria sua renúncia em 13 de julho”, disse o parlamentar em declaração transmitida pela televisão. Rajapaksa fugiu de sua residência oficial em Colombo minutos antes de o local ser invadido por milhares de manifestantes revoltados, que o acusam de ser o responsável pela profunda crise econômica do país e querem expulsá-lo do poder.

Canais de televisão exibiram imagens de centenas de pessoas escalando os portões do palácio presidencial, um edifício do período colonial, próximo do beira-mar e símbolo de poder no Sri Lanka. Alguns manifestantes transmitiram ao vivo nas redes sociais vídeos que mostravam a multidão dentro do palácio. “O presidente foi escoltado para um local seguro”, disse uma fonte do Ministério da Defesa à AFP. “Ele permanece como presidente, está protegido por uma unidade militar”, acrescentou a fonte, segundo a qual os soldados que protegiam a residência oficial atiraram para o alto para impedir a aproximação dos manifestantes até a retirada de Rajapaksa.

O primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe, que é o próximo na linha de sucessão em caso de renúncia de Rajapaksa, afirmou que está disposto a renunciar para que o país tenha um governo de unidade nacional. Wickremesinghe havia convocado uma reunião de emergência do governo para debater uma "solução rápida" para a crise. Em comunicado, ele convidou os líderes dos partidos políticos a participarem do encontro e também pediu a convocação do Parlamento. Após a reunião, o gabinete do primeiro-ministro afirmou que “para garantir a segurança de todos os cidadãos do Sri Lanka é favorável à recomendação dos partidos da oposição”.

Funcionários do governo afirmaram que ignoram as intenções do presidente Rajapaksa depois da fuga. “Estamos esperando instruções”, declarou uma fonte. “Ainda não sabemos onde está, mas sabemos que está com a Marinha do Sri Lanka e que está a salvo.”

Dezenas de milhares de pessoas participaram horas antes de um protesto para exigir a renúncia de Rajapaksa, considerado responsável pela crise sem precedentes que afeta o país e provocou uma inflação galopante, com uma grave escassez de combustíveis, energia elétrica, alimentos e medicamentos. Manifestantes enfrentaram a polícia, que tentou conter a manifestação, sem sucesso. A ONU calcula, entre outras coisas, que quase 80% da população pula as refeições para enfrentar a falta de alimentos e a alta dos preços. A crise é provocada pelo esvaziamento do turismo no país com redução da entrada de dólares. Sem dólares, o país não consegue comprar alimentos.

O principal hospital de Colombo informou que 14 pessoas receberam tratamento depois que foram afetadas por gás lacrimogêneo durante a manifestação. De acordo com o governo, 20 mil soldados e policiais foram enviados a Colombo para proteger o presidente. Na sexta-feira, as forças de segurança determinaram um toque de recolher para tentar dissuadir os manifestantes de saírem às ruas. A medida foi suspensa depois que partidos de oposição, ativistas de direitos humanos e a Ordem dos Advogados do país ameaçaram processar o chefe de polícia. De qualquer maneira, o toque de recolher foi amplamente ignorado pelos manifestantes. Alguns obrigaram as autoridades ferroviárias a transportá-los nesse sábado até Colombo para participarem da manifestação.

Manifestantes aproveitaram piscina da sede do governo
Após ocupar a residência, manifestantes aproveitaram piscina da sede do governo

Crise sem precedentes 

A ONU pediu calma às autoridades e ao governo do Sri Lanka. Em maio, nove pessoas morreram e centenas ficaram feridas durante os distúrbios no país. Em abril, o Sri Lanka declarou a moratória da dívida externa de US$ 51 bilhões e iniciou negociações para um plano de ajuda do Fundo Monetário Internacional. A crise, com uma dimensão sem precedentes desde a independência do país, em 1948, é atribuída à pandemia de COVID-19, que privou a ilha da Ásia meridional das divisas do setor turístico, e foi agravada por uma série de péssimas decisões políticas, segundo os economistas.

Confronto com forças de segurança
Nas ruas houve confronto com forças de segurança


Vitória festejada no palácio

Os manifestantes que invadiram a residência oficial do presidente do Sri Lanka ontem não desperdiçaram a oportunidade de desfrutar de um luxuoso palácio, inclusive de sua piscina. Dezenas de cingaleses postaram imagens nas redes nas quais são vistos vagando pelos quartos de Gotabaya Rajapaksa, deitados em sua cama e apreciando os jardins da residência em Colombo, capital do país. “Estamos no quarto de Gotabaya, aqui está a cueca que ele abandonou”, diz um jovem mostrando uma cueca preta em um vídeo que viralizou. “Ele também deixou os sapatos”, acrescenta. O presidente conseguiu fugir por um fio, graças aos soldados de sua guarda atirando no ar para abrir caminho. Pouco depois, os manifestantes tomaram os escritórios presidenciais no distrito administrativo e incendiaram a residência privada do primeiro-ministro.

As explosões do dia foram o culminar de meses de protestos contra um governo acusado de ter mergulhado esta ilha do Sul da Ásia na pior crise desde a independência, em 1948. “Estou surpreso ao ver que há um ar-condicionado funcionando no banheiro, quando temos cortes de energia o tempo todo”, disse por telefone à AFP um homem que estava na residência oficial de Rajapaksa.

O clima festivo contrastou com a situação tensa vivida pouco antes entre as centenas de milhares de manifestantes que se reuniram em frente ao palácio presidencial e às forças de segurança. A polícia usou gás lacrimogêneo e canhões de água para dispersá-los, mas alguns manifestantes tomaram um caminhão da polícia e forçaram as barreiras e cercas que protegiam o local.

Tradicionalmente, o palácio presidencial, um edifício da época colonial britânica, era reservado para a recepção de líderes estrangeiros. Mas Rajapaksa fixou sua residência oficial lá em abril, depois que milhares de manifestantes tentaram invadir sua casa particular. Após a invasão de ontem, a maioria dos policiais e militares desapareceram. Apenas uma força policial de elite ficou de vigia, que parecia resignada com a presença dos invasores.

De pé em cima do muro, um estudante pediu à multidão que não roubasse ou degradasse a residência, que abriga uma coleção de objetos valiosos. “Chamamos Gota de ladrão, mas, por favor, não levem nada do palácio”, ele resmungou. “Não devemos nos transformar em ladrões como eles.” Manifestações pedem há meses a renúncia do presidente e de vários membros de sua família em cargos de poder. Eles o acusam da disparada dos preços e da escassez de alimentos, combustíveis e medicamentos que assolam este país de 22 milhões de habitantes.


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