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Estado de Minas LONDRES

Boris Johnson, o escapista político que ficou sem truques

Cercado de escândalos, nos últimos meses ele não parou de perder apoio dentro do partido. Nas últimas 36 horas, quase 60 membros de seu governo pediram demissão


07/07/2022 09:22 - atualizado 07/07/2022 11:49

Boris Johnson discursa em frente à casa oficial do premiê, na Downing Street, 10
Boris Johnson discursa em frente à residência oficial do premiê, na Downing Street, 10 (foto: JUSTIN TALLIS / AFP)


Muito carismático e ainda mais controverso, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson era conhecido por seu talento para escapar de crises políticas, mas, encurralado pelo Partido Conservador para que renunciasse como líder da formação, ficou sem truques.

"Concordei com (...) o presidente do nosso grupo parlamentar que o processo de eleição de um novo líder deve começar agora", afirmou Johnson ao anunciar sua renúncia como líder do partido, embora permaneça no cargo de primeiro-ministro até a escolha do sucessor.

Cercado de escândalos, nos últimos meses ele não parou de perder apoio dentro do partido. Nas últimas 36 horas, quase 60 membros de seu governo pediram demissão e alguns de seus aliados mais próximos fizeram apelos para que ele deixasse o poder, ao qual chegou de maneira triunfante em 2019, graças à promessa de concretizar um Brexit que parecia impossível após anos de impasse.

O político de cabelo bagunçado, um ex-jornalista de 58 anos, conseguiu na época, contra todas as previsões, o melhor resultado dos conservadores em 40 anos.

Com a grande maioria, da qual perdeu o apoio nas últimas semanas, ele cumpriu assim seu sonho de vida: ser primeiro-ministro britânico, depois de desejar durante a infância virar o "rei do mundo", de acordo com sua irmã Rachel.

- Só acredita em si mesmo -

Alexander Boris de Pfeffel Johnson nasceu em 1964 em Nova York, no seio de uma família de políticos, jornalistas e celebridades midiáticas.

Um de seu bisavôs era turco e foi ministro do Império Otomano. Algo que sempre recorda quando é acusado de islamofobia, como quando comparou as mulheres que usam burca com caixas de correio, em declarações que geraram também acusações de misoginia.

"O único em que Boris Johnson acredita é Boris Johnson", declarou à AFP Pascal Lamy, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), que conhece sua família desde que Boris era garoto e estudava na Escola Europeia de Bruxelas, onde seu pai foi eurodeputado.

Isso, segundo alguns, é demonstrado pelo inusitado exercício que realizou para decidir sua posição sobre o Brexit: enquanto era colunista do jornal conservador The Daily Telegraph, escreveu um artigo anunciando apoio à permanência na União Europeia e outro defendendo o contrário.

Assim, alimentou a impressão de que este grande admirador de Winston Churchill - sobre quem escreveu uma biografia - baseou sua decisão em um cálculo político.

 



- Mentiras e "integridade" -

Seguindo o roteiro clássico das elites britânicas, estudou nos prestigiosos Eton College e Universidade de Oxford.

Em 1987, começou uma carreira de jornalista no The Times, que o demitiu um ano depois por inventar declarações. Entre 1989 e 1994, foi correspondente do Telegraph em Bruxelas, onde escreveu artigos que ridicularizavam as regulamentações europeias.

"Não inventava as histórias, mas sempre caía no exagero", lembra Christian Spillmann, jornalista da AFP em Bruxelas naquela época.

Eleito para o Parlamento do Reino Unido em 2001, perdeu um posto na cúpula conservadora três anos depois por mentir sobre um caso extraconjugal. Um dos vários escândalos pessoais de um político que não diz quantos filhos tem, além dos sete reconhecidos.

Divorciado duas vezes, ele agora vive em Downing Street com sua terceira esposa, Carrie, de 34 anos, e os filhos do casal, Wilfred, de dois anos, e Romy, de seis meses.

Adquiriu status de estrela após ser eleito prefeito de Londres em 2008 e, embora atribuam a ele alguns projetos desastrosos, se destacou com os exitosos Jogos Olímpicos de 2012.

Foi nomeado ministro de Relações Exteriores por Theresa May em julho de 2016 e é acusado de ter cometido graves erros diplomáticos.

Ele pediu demissão por sua divergência com May sobre como concretizar o Brexit e chegou ao poder em agosto de 2019, depois que a primeira-ministra renunciou, sob pressão de seu partido. Depois, nas eleições gerais convocadas para dezembro, obteve sua grande vitória nas urnas.

Pouco depois do Brexit, a pandemia chegou e Johnson foi criticado por sua gestão errática, mas conseguiu superar a crise apoiado em uma campanha de vacinação bem-sucedida.

Porém, a partir de dezembro de 2021 se tornou objeto de uma série de escândalos, a começar pelas festas ilegais organizadas em Downing Street durante os confinamentos determinados durante a pandemia, e perdeu o apoio da maioria no Partido Conservador, sendo acusado de "falta de integridade".


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