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Estado de Minas Colômbia

Transição e desafios em um país dividido

Petro convenceu com promessas de mudança. Mas agora o primeiro presidente de esquerda terá de vencer a resistência de militares e empresários


21/06/2022 04:00

Ex-guerrilheiro, Gustavo Petro fala em 'unir duas Colômbias' e construir consensos, mas terá de conquistar maioria no Congresso
(foto: Daniel Munoz/AFP)

 

A Colômbia começa a transição para seu primeiro governo de esquerda nas mãos do senador e ex-guerrilheiro Gustavo Petro, que prometeu um “grande acordo nacional” para levar adiante reformas ambiciosas em um país dividido. Petro, de 62 anos, venceu com 50,4% dos votos o milionário independente Rodolfo Hernández, de 77, que obteve 47,3% dos votos, segundo a apuração oficial. Petro se elegeu com uma vantagem de 716.201 votos. Petro sucederá ao conservador Iván Duque a partir de 7 de agosto para um mandato de quatro anos. A ambientalista Francia Márquez, de 40, também fará história como a primeira vice-presidente negra da Colômbia.

 

A vitória foi celebrada pela esquerda latino-americana, enquanto os Estados Unidos anunciaram sua disposição em trabalhar com o futuro presidente. A União Europeia destacou o “resultado inquestionável” da eleição. O governo em final de mandato de Iván Duque garantiu uma transição “pacífica, harmônica e transparente”. “A primeira coisa a reconhecer, para defender a democracia, é quando há um pronunciamento popular”, afirmou Duque, acrescentando que “claramente, ontem, os colombianos elegeram um novo presidente”, em uma conversa virtual com o escritor hispano-peruano Mario Vargas Llosa.

 

Em seu discurso de vitória, Petro deixou de lado os ideais radicais e convidou as “duas Colômbias” que se manifestaram nas urnas a um “grande acordo nacional para construir consensos” em torno das ambiciosas reformas que propôs em sua campanha. “A mudança consiste precisamente em deixar o ódio para trás; em deixar os sectarismos para trás. As eleições mais ou menos mostraram duas Colômbias, próximas em termos de votos. Nós queremos que a Colômbia, em meio à sua diversidade, seja uma Colômbia”, destacou.

 

Também afirmou que em seu governo “não haverá perseguição política” por mais “ferrenha” que seja a oposição. Por ser feriado no país, a bolsa e o mercado de câmbio reagirão hoje ao triunfo da esquerda na quarta maior economia da América Latina. Ontem, a vice-presidente eleita reforçou a mensagem de Petro. “O passo da reconciliação é com 50 milhões de colombianos; é com todos que vamos avançar na reconciliação, na paz, no fim das lacunas da desigualdade”, disse Márquez à rádio W. A líder ambientalista anunciou que se ocupará desses temas em um futuro Ministério da Igualdade.

 

oposição No Congresso, Petro contará com uma bancada importante, mas sem garantir maiorias. O senador Roy Barreras, muito próximo ao presidente eleito, disse ontem que a coalizão que apoia Petro fará pontes com outras forças. “O que vem agora é a formação de maiorias parlamentares que permitam concretizar essas reformas”, indicou à rádio Caracol. Também afirmou que o próximo governo enviará “sinais claros” de sua seriedade e responsabilidade, em alusão à nomeação do gabinete ministerial.

 

“Agora, o problema é a governabilidade no Congresso. Petro deve tentar propor o que chamou de grande acordo nacional (...) porque claramente o país está bem fragmentado em dois setores”, disse Alejo Vargas, professor do direito da Universidade Nacional. “Ele vai enfrentar uma oposição muito forte, porque a direita neste país é a principal ideologia. Apesar de estar espalhada por muitos partidos é fácil estabelecer uma associação e desafiar o governo de Petro”, afirma Felipe Botero, professor de ciências políticas da Universidad de Los Andes.

 

Em campanha, Petro anunciou que nomearia ministros de outras tendências, diante da expectativa para as pastas de Economia e Defesa. Petro será o primeiro ex-guerrilheiro a dirigir uma força armada de cerca de 400 mil militares e policiais, a segunda maior da região depois do Brasil, em meio ao conflito com grupos armados financiados pelo tráfico de drogas e mineração ilegal.

 

Em seu primeiro discurso como presidente eleito, Petro enviou uma mensagem tranquilizadora ao empresariado, que durante a campanha o acusou de promover um socialismo fracassado. “Foi uma campanha de mentiras e medo, de que iríamos expropriar os colombianos, destruir a propriedade privada (...) Nós vamos desenvolver o capitalismo na Colômbia. Não porque o adoramos, mas porque primeiro temos que superar a pré-modernidade”, disse à multidão que celebrava sua vitória. Para Botero, essa foi uma “mensagem muito clara à direita, dizendo 'eu sou de esquerda, mas isso não quer dizer que vou transformar radicalmente o modelo econômico'”.

 

O economista Jorge Restrepo, no entanto, alerta que o ex-guerrilheiro e senador ainda precisa construir “confiança” com o setor produtivo. O empresário Mario Hernández, ativo opositor de Petro durante a campanha, se mostrou aberto ao diálogo. “Chegou a oportunidade para Gustavo Petro demonstrar a 50% dos colombianos e a mim que estávamos equivocados”, escreveu no Twitter o magnata do setor de vestuário.

 

Após a posse, os militares terão que jurar lealdade a um ex-membro das guerrilhas esquerdistas que combateram durante seis décadas de conflito. “A desconfiança entre o presidente e os militares é significativa", afirma Sergio Guzmán, da consultoria Colombia Risk Analysis, antes de acrescentar que o esquerdista “terá que escolher um ministro da Defesa que tenha o respeito e a confiança dos membros das forças militares”. Caso contrário, destaca, a transição será um “desastre”.

 

Última guerrilha, ELN fala em negociar paz

 

O Exército da Libertação Nacional (ELN), a última guerrilha reconhecida na Colômbia, anunciou ontem sua “total disposição” para reiniciar negociações de paz com o presidente eleito, o esquerdista Gustavo Petro, após a ruptura dos diálogos pelo governo em final de mandato. O ELN “mantém seu sistema de luta e resistência política e militar, mas também sua plena disposição de avançar em um processo de paz que dê continuidade à Mesa de Conversas iniciada em Quito, em fevereiro de 2017”, indicou o comando central da organização em decla- ração. “Ontem, Gustavo Petro foi eleito presidente, este governo deve enfrentar as mudanças para uma Colômbia em paz”, acrescentou a guerrilha guevarista.

 

Os diálogos foram interrompidos pelo presidente conservador Iván Duque (2018-2022) depois que os rebeldes atacaram uma escola de polícia com um carro-bomba, em janeiro de 2019. O ataque deixou 22 vítimas, além do agressor. Seu antecessor, o ganhador do Prêmio Nobel da Paz Juan Manuel Santos (2010-2018), manteve conversações com o ELN no Equador e em Cuba, após assinar o acordo que dissolveu a guerrilha das Farc.

 

Duque, crítico ferrenho do pacto, desistiu de dialogar com os que mantiveram as armas diante de sua negativa de parar os ataques contra a população e a força pública. Também pediu a Cuba para prender e entregar o negociador do ELN, o que Havana se opôs apelando aos protocolos assinados pelas partes para garantir o retorno dos rebeldes ao seu país se o processo de paz fracassasse.

 

Apesar dos duros golpes já enfrentados, o ELN está em expansão e hoje conta com 2.500 membros, segundo números oficiais. No momento das negociações, contava com cerca de 1.800 rebeldes. Financiada principalmente pelo tráfico de drogas e extorsões, a guerrilha exerce forte influência na região do Pacífico e na fronteira com a Venezuela, além de alimentar uma extensa rede de apoio em pontos urbanos. Formado em 1964, ao calor da Revolução Cubana, o ELN também manteve fracassadas negociações com os governos de César Gaviria (1990-1994), Ernesto Samper (1994-1998), Andrés Pastrana (1998-2002) e Álvaro Uribe (2002-2010). 


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