
Brasília – Morador de Kiev, Yevhen Mahda, de 47 anos, responde de pronto ao ser questionado pelo Correio Braziliense/Estado de Minas sobre as condições para o fim da guerra. "(Vladimir) Putin tem que morrer", afirma, ao citar o presidente da Rússia. Em 25 de fevereiro, um dia depois de as forças russas invadirem a Ucrânia, ele colocou a mulher, Olena, e as filhas – de 15 meses, de 6 e de 8 anos – dentro do carro e dirigiu por cerca de 500 quilômetros até a região oeste do país. Seis dias depois, retornou à capital. Yevhen não acredita no sucesso das negociações diplomáticas para deter o conflito. "Putin demonstrou, claramente, que deseja destruir o meu país. Nós devemos sobreviver. Não vejo espaço para a diplomacia aqui", desabafa.
Ontem, representantes de Moscou e de Kiev encerraram mais um encontro sem qualquer avanço e prometeram continuar as conversas hoje. "Uma pausa técnica foi dada nas negociações até amanhã (hoje). Para trabalho adicional nos subgrupos de trabalho e esclarecimentos de definições individuais. As negociações continuam", escreveu, no Twitter, Mykhailo Podoliak, enviado ucraniano.
Em meio ao entrave diplomático, a Rússia aperta o cerco a Kiev e mantém os bombardeios a várias regiões da Ucrânia. Ontem pela manhã, um "disparo de artilharia" atingiu um prédio residencial em Obolon, distrito situado a 7 quilômetros do centro da capital. Pelo menos um civil morreu e 12 ficaram feridos. Lidia Tikhovska, de 83 anos, observava a cratera aberta pelo míssil e imaginava os restos carbonizados do filho, de 58, surpreendido pelo ataque quando chegava à casa da mãe com comida e outros itens básicos. "Ele está estirado ao lado do carro, mas não me deixam passar", sussurrava a idosa, em entrevista à agência France-Presse. "Agora ficarei sozinha no meu apartamento. Pra que ele me servirá? Desejo à Rússia a mesma dor que sinto agora."
Um segundo ataque deixou uma pessoa morta em outro bairro residencial. Mais a oeste, na cidade de Antopil, uma ofensiva russa contra uma torre de televisão deixou nove mortos e o mesmo número de feridos. Mais de 2,8 milhões de refugiados já deixaram a Ucrânia – 1,7 milhão buscaram abrigo na Polônia. Na região de Donetsk (leste), controlada por separatistas russos, o Ministério da Defesa da Rússia acusou as forças da Ucrânia de matarem 20 civis em um disparo de míssil.
Kiev atribui o ataque aos invasores. Nos arredores da capital, o britânico Benjamin Hall, correspondente da emissora Fox News, foi ferido e hospitalizado. Em publicação no Facebook, Irina Venediktova, a procuradora-geral da Ucrânia, disse que um jornalista britânico havia sofrido ferimentos de estilhaços nas duas pernas. No domingo, o jornalista norte-americano Bred Renaud, de 50, foi morto a tiros em Irpin, e um colega ficou ferido.
RISCO NUCLEAR
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, criticou Putin por elevar o nível de alerta das forças nucleares russas. O diplomata português classificou o desdobramento como "de arrepiar os ossos". "A perspectiva de uma guerra nuclear, antes impensável, agora está de volta ao reino das possibilidades. A segurança e a proteção das instalações nucleares também devem ser preservadas", defendeu. "É tempo de parar o horror desencadeado sobre o povo da Ucrânia e entrar no caminho da paz e da diplomacia." Guterres advertiu que "a Ucrânia está sendo dizimada aos olhos do mundo".
Também morador de Kiev, o empresário Oleksandr Voloshyn, de 27, admitiu ao Correio Braziliense/Estado de Minas que muitos ucranianos estão preocupados com o fato de o Exército russo ter capturado usinas nucleares. "Depois do lançamento de bombas de fósforo branco por parte dos russos, na região de Luhansk (leste), os civis estão cada vez mais amedrontados sobre o risco de ataques químicos em nossas cidades", afirma. Ele também mostra ceticismo em relação às tratativas entre negociadores russos e ucranianos. "A diplomacia é algo bom, mas o Exército ucraniano é que nos faz sentirmos calmos – seu comportamento, seu ponto de vista sobre a guerra e sua crença na vitória."

Novas ações de resistência
Brasília – Um dia depois de visitar soldados feridos em um hospital de Kiev, capital da Ucrânia, e de posar para selfies com alguns deles, o presidente Volodymyr Zelensky manteve conversas com o presidente da Polônia, Andrzej Duda, e com o primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett. "Trocamos informações sobre passos conjuntos no contexto da agressão russa. Concordamos com mais ações", escreveu em sua página no Twitter.
Em telefonema com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, ele considerou importante o reforço de sanções contra o Kremlin, agradeceu à União Europeia pela ajuda financeira e destacou que a Ucrânia avança na adesão ao bloco.
Amanhã, Zelensky fará um pronunciamento virtual histórico ao Congresso dos Estados Unidos a partir das 10h (hora de Brasília). O ucraniano falará durante sessão conjunta de senadores e representantes (deputados) democratas e republicanos. "Esperamos ter o privilégio de dar as boas-vindas ao discurso do presidente Zelensky na Câmara de Representantes e no Senado e transmitir nosso apoio ao povo da Ucrânia enquanto defende corajosamente a democracia", afirmaram a presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, e o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, em carta conjunta aos congressistas.
VOZES DE KIEV
"Às vezes, escutamos sirenes. Às vezes, bombardeios. Todos os dias temos mísseis. Algumas vezes ouvimos o som de baterias antiaéreas. Não acredito em progresso na diplomacia. Eles (russos) exigem nossa rendição. Putin quer agarrar parte da Ucrânia. Os russos chegam a bombardear os refugiados. As pessoas que desejavam abandonar Kiev o fizeram duas semanas atrás. Estamos prontos para qualquer coisa."
- Les Yakymchuk, 29 anos, diretor de cinema
"Há um sentimento de ansiedade entre as pessoas, especialmente depois dos bombardeios de hoje (ontem). O barulho de explosões pode ser ouvido com frequência, um sinal de que a defesa antiaérea funciona. Os ucranianos precisam fechar o céu, algo que os países da Otan ainda não fizeram. Por isso, os mísseis dos invasores estão matando civis, inclusive crianças."
- Oleksandr Voloshyn, 27 anos, empresário
"Kiev está sob controle das forças militares ucranianas. Bombas explodem perto da capital. Os russos têm atingido infraestrutura civil e prédios residenciais. Tenho realizado concertos pela paz em Kiev e em Odessa, nos quais pedimos por uma zona de exclusão aérea. Queremos estendê-la para outras cidades, inclusive Mariupol, onde a situação é muito difícil. Sinto medo pela segurança de minha família. A guerra é um grande perigo."
- Herman Makarenko, 60 anos, maestro da Orquestra Clássica de Kiev
"Putin mostrou claramente que deseja arruinar a Ucrânia o tanto quanto possível. Mas esses planos são somente o produto de sua imaginação doentia. Nós venceremos. Negociações diplomáticas efetivas somente serão possíveis com o apoio de um mediador poderoso e com garantias internacionais."
- Yevhen Mahda, 47 anos, pós-doutor em ciência política
