Defendida pelo governante Partido Socialista de Pedro Sánchez e pelos nacionalistas bascos do PNV, a iniciativa foi apoiada por uma grande maioria de 286 votos na Câmara baixa de 350 cadeiras.
Ao contrário de outros países como Estados Unidos, França, Alemanha, Irlanda ou Austrália, nenhuma investigação aprofundada havia sido aberta na Espanha ainda sobre denúncias de violência sexual contra menores dentro da Igreja.
De acordo com o texto submetido à votação dos deputados, o defensor público presidirá esta nova comissão que incluirá especialistas, representantes do governo, das vítimas e da própria Igreja.
Seus membros se concentrarão em "investigar as execráveis condutas pessoais cometidas contra meninos e meninas indefesos", com o objetivo de "trazer à luz e conhecer tanto as pessoas que cometeram os abusos quanto aqueles que os esconderam, ou protegeram", diz o texto da proposta.
Seu relatório final será, então, enviado para o Parlamento e para o Executivo "para a adoção das medidas pertinentes", acrescenta.
Esta investigação será "o início do fim de uma situação ignominiosa", disse ao jornal El País a deputada socialista Carmen Calvo, ex-vice-presidente do governo de Pedro Sánchez.
- Tradição católica -
Além dos socialistas e do PNV, a grande maioria a favor incluiu a esquerda radical do Podemos, sócio minoritário no governo de coalizão, e dois partidos nacionalistas de esquerda. Estes últimos promoveram uma outra investigação, sem sucesso, dentro do próprio Parlamento. Essa fórmula foi bloqueada por seus sócios, que preferiram seguir o modelo de Austrália, França e Holanda.
A oposição conservadora do Partido Popular (PP) também deu seu apoio, após ser frontalmente contra em um primeiro momento. A sigla deu uma guinada, em um sinal de mudança depois que uma guerra interna isolou o líder anterior, Pablo Casado. Ele deve ser substituído, em abril, pelo moderado Alberto Núñez Feijóo.
Apenas a extrema direita do Vox, a terceira força no Parlamento, votou contra.
Na ausência de dados oficiais, o jornal El País lançou sua própria investigação em 2018, com a qual contabilizou 1.246 vítimas desde a década de 1930. A Igreja reconhece apenas 220 casos desde 2001.
Neste país de enraizada tradição católica, a Igreja desempenhou um papel central na educação durante a ditadura de Francisco Franco (1939-1975), da qual foi um pilar fundamental.
Hoje, mais de 1,5 milhão de crianças ainda estudam nas quase 2.500 escolas católicas do país, conforme dados de 2020 da Conferência Episcopal Espanhola (CEE).
- Investigação da Igreja -
Acusada de opacidade durante anos, a Igreja espanhola deu um primeiro passo de abertura, no final de fevereiro passado, quando encomendou uma auditoria independente sobre pedofilia a um escritório de advocacia e garantiu que irá "até o fim".
"Parece que temos de dar mais um passo nessa ajuda e nesse apoio às vítimas", alegou, à época, o presidente da CEE, cardeal Juan José Omella.
Responsável pela auditoria, o escritório Cremades & Calvo Sotelo afirmou que seu trabalho, com duração inicial de um ano, vai-se basear na investigação já feita pelas dioceses espanholas e que também reproduzirá "a experiência positiva" do modelo francês e da "metodologia alemã", como explica seu presidente, Javier Cremades.
Em outubro passado, na França, uma comissão independente estimou que mais de 216.000 menores foram vítimas de abuso sexual dentro da Igreja Católica, no país, desde 1950.
Na Alemanha, um relatório de um escritório de advocacia divulgado em janeiro deste ano revelou que pelo menos 497 pessoas, a maioria crianças e adolescentes, sofreram abusos cometidos por parte de membros da arquidiocese de Munique-Freising, entre 1945 e 2019.
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