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Estado de Minas JOANESBURGO

Ebrahim, um combatente à sombra contra o apartheid


06/12/2021 11:18

Um combatente exemplar na luta contra o regime do apartheid na África do Sul, Ebrahim Ismail Ebrahim, que lutou à sombra de outros e foi preso duas vezes na penitenciária de Robben Island, morreu nesta segunda-feira (6) aos 84 anos.

Sob o regime racista do apartheid, o militante de origem indiana passou da oposição não violenta à luta armada.

Em 1963, ele foi preso por "sabotagem" e encarcerado junto com Nelson Mandela, um ícone com quem estudou.

Ele também dividiu cela com outro futuro presidente sul-africano, Jacob Zuma.

"Éramos próximos, dormíamos um ao lado do outro", disse Ebrahim à AFP em 2021. Como outros, ele acabou por se decepcionar com seu ex-companheiro, acusado de corrupção durante seus anos de governo.

"Na prisão, éramos agredidos, passávamos fome e ficávamos expostos a muito frio", escreveu em suas memórias. "Éramos insultados e humilhados da maneira mais degradante. Quebrávamos pedras e comíamos miseravelmente. Durante anos, fomos regularmente forçados a ficar nus em um pátio coberto, às vezes no auge do inverno. Um de meus amigos morreu de frio", relatou.

Ebrahim refugiou-se nos estudos e obteve dois diplomas universitários.

Nascido em 1º de julho de 1937, "Ebbie", como era chamado, criou uma consciência política desde muito jovem. Em Durban, onde cresceu, praias, restaurantes, parques de diversões e até alguns bancos públicos eram reservados aos brancos.

Quando criança, também assistiu duas vezes à prisão de seu pai por violar leis que impediam os indianos - uma categoria racial oficial - de circular livremente na África do Sul.

- Sequestrado, torturado, condenado -

Aos 13 anos, começou a frequentar comícios políticos com seu irmão e distribuiu folhetos.

Desejava participar mais ativamente das manifestações contra a dominação branca, mas os movimentos de luta o afastavam por causa de sua pouca idade.

Inspirado pelas campanhas de resistência pacífica de Mahatma Gandhi na Índia, assistiu aos discursos de Albert Luthuli, que na época era o líder do histórico partido ANC (Congresso Nacional Africano) e o primeiro africano a receber o Prêmio Nobel da Paz.

Como indiano, não podia fazer parte do ANC no início. Ele então se juntou ao Natal Indian Congress.

No Congresso do Povo de 1955, que deu origem à Carta da Liberdade, considerada o documento fundador da democracia sul-africana e de que Nelson Mandela se orgulhava, Ebrahim Ismail Ebrahim fez parte das delegações.

Em 1960, o massacre de Sharpeville, no qual a polícia abriu fogo contra milhares de manifestantes e deixou 69 mortos, o levou a ingressar na luta armada.

Libertado da primeira estadia na prisão, Ebrahim foi colocado em prisão domiciliar, mas se juntou ao ANC no exílio. Desta forma, multiplicou suas missões na clandestinidade, entre a África do Sul e vários países vizinhos.

Em 1986, foi sequestrado por agentes do regime do apartheid na Suazilândia, país vizinho. Foi torturado, condenado por "traição" e devolvido à prisão de Robben Island.

Definitivamente livre em 1991, ele foi eleito deputado nas primeiras eleições livres em 1994.

Recentemente, Ebrahim expressou profunda preocupação com a desigualdade no país, longe do sonho democrático da jovem nação arco-íris. Mas mostrou sua confiança no presidente Cyril Ramaphosa.

"Continua tomando medidas para erradicar a má gestão e a corrupção. Vamos nos recuperar", disse ele à AFP.


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