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A princesa japonesa que largou realeza para se casar com namorado humilde

Sobrinha do atual imperador do Japão, Mako se casou com Kei Komuro, que conheceu durante faculdade, após longa espera; ela descartou ritos habituais do casamento e recusou dote de R$ 7,2 milhões.


26/10/2021 22:31 - atualizado 26/10/2021 22:30

Kei Komuro e princesa Mako
Casal ficou noivo em 2017, mas só pôde se casar agora (foto: Getty Images)
Após longa espera, a princesa Mako do Japão, sobrinha do atual imperador do país, se casou com seu namorado da faculdade, Kei Komuro, perdendo assim seu status real.

 

Segundo a lei japonesa, membros do sexo feminino da família imperial têm que renunciar à realeza ao se casarem com um "plebeu", embora o mesmo não aconteça com os homens.

 

Além disso, apenas herdeiros masculinos são candidatos ao trono.

O Japão é conhecido por um país patriarcal e extremamente conservador.

O atual imperador, Naruhito, por exemplo, se casou com Masako, uma ex-diplomata. Seu pai, que abdicou a seu favor em 2019, foi o primeiro membro da realeza japonesa a se casar com uma plebeia, Michiko.

 

Naruhito e Masako tiveram uma única filha, Aiko, que, portanto, não ascenderá ao Trono do Crisântemo (nome pelo qual o trono imperial do Japão é conhecido). O irmão de Naruhito, Fumihito, pai de Mako, passa a ser, assim, o primeiro na linha de sucessão.

 

A princesa Mako também descartou os ritos habituais de um casamento real e recusou um pagamento de 152,5 milhões de ienes (cerca de 7,2 milhões de reais) oferecido às mulheres da realeza após a renúncia de seu status real.

Ela é a primeira mulher da monarquia japonesa a fazer isso.


Princesa Mako
Princesa Mako deixou residência real na manhã desta terça-feira (foto: Getty Images)

'Harry e Meghan do Japão'

Mako e Komuro devem se mudar para os Estados Unidos — onde ele trabalha como advogado — após o casamento. A mudança atraiu comparações inevitáveis %u200B%u200Bcom Meghan Markle e o Príncipe Harry, do Reino Unido, e, por isso, os recém-casados receberam %u200B%u200Bo apelido de "Harry e Meghan do Japão".

 

Como Markle, Komuro está sob intenso escrutínio desde que seu relacionamento com a princesa Mako foi anunciado. Ele foi recentemente criticado por usar rabo de cavalo quando voltou ao Japão.

 

Alguns tabloides e usuários de redes sociais disseram que seu penteado — visto como não convencional no Japão — era impróprio para alguém que iria se casar com uma princesa.

 

Também houve um protesto nesta terça-feira (26/10) contra o casamento de Mako e Komuro.


Casal em entrevista coletiva a jornalistas
Casal falou à imprensa após se casar (foto: Getty Images)

'(Ele) é insubstituível'

Em uma entrevista a jornalistas, Mako disse que se desculpou por qualquer problema causado por seu casamento.

 

"Lamento o transtorno causado e sou grata por aqueles (...) que continuaram a me apoiar", disse ela, segundo a emissora japonesa NHK. "Para mim, Kei é insubstituível — o casamento foi uma escolha necessária para nós."

 

Komuro acrescentou que amava Mako e queria passar a vida com ela.

 

"Eu amo Mako. Só temos uma vida e quero que a passemos com quem amamos", disse Komuro, segundo a agência de notícias AFP. "Estou muito triste que Mako esteja em péssimas condições, mental e fisicamente, por causa das falsas acusações."

 

A princesa Mako deixou sua residência em Tóquio por volta das 10h (21h de segunda-feira, 25/10, em Brasília) para registrar seu casamento, fazendo várias reverências a seus pais, o príncipe herdeiro Fumihito e a princesa Kiko. Ela também abraçou sua irmã mais nova antes de sair, informou a agência de notícias Kyodo.


Mako abraçou sua irmã mais nova antes de deixar residência real
Mako abraçou sua irmã mais nova antes de deixar residência real (foto: Getty Images)

O casal vem recebendo ampla cobertura da imprensa ao longo dos anos, o fez com que a princesa desenvolvesse transtorno de estresse pós-traumático.

Seu relacionamento gerou polêmica no país.

 

Nesta terça-feira, pessoas foram fotografadas protestando contra o casamento em um parque japonês.

 

Muitos slogans pareciam trazer à tona questões financeiras em torno da família de Komuro — especificamente sua mãe.

 

A agora ex-princesa ficou noiva de Komuro em 2017 e os dois deveriam se casar no ano seguinte. Mas o casamento foi adiado devido a alegações de que a mãe de Komuro tinha problemas financeiros — ela teria feito um empréstimo com seu ex-noivo e não devolveu o dinheiro.


Pessoas participando de protesto contra casamento entre princesa Mako, do Japão, e Kei Komuro, em Tóquio em 26 de outubro de 2021
Houve protesto contra casamento (foto: Getty Images)

O palácio negou que o atraso no casamento de Mako e Komuro estivesse relacionado a esse episódio, embora o príncipe herdeiro Fumihito tenha dito que era importante que as questões financeiras fossem resolvidas antes do casamento.

 

De acordo com o correspondente da BBC em Tóquio, Rupert Wingfield-Hayes, a animosidade em relação a Komuro vem de alguns japoneses conservadores que acreditam que ele não é um parceiro digno para a sobrinha do imperador.

 

Komuro — que recebeu uma oferta de emprego de um importante escritório de advocacia de Nova York — é de origem humilde, e os tabloides locais passaram anos tentando descobrir algo de podre sobre sua família, incluindo as acusações contra sua mãe.

Análise: Hideharu Tamura, BBC News, Tóquio

A reação ao relacionamento da princesa Mako e Kei Komuro por parte de alguns meios de comunicação e pessoas no Japão trouxe à tona a pressão que as mulheres enfrentam na família imperial japonesa.

 

A Imperial Household Agency, órgão do governo japonês responsável por divulgar informações sobre a família real, disse que a princesa Mako passou a sofrer de estresse pós-traumático por causa das duras críticas da imprensa e das redes sociais sobre seu noivado desde seu anúncio, há quase quatro anos.

 

Ela não é a primeira mulher na família real japonesa a ser afetada dessa forma.

Sua avó, a imperatriz emérita Michiko, de origem plebeia, foi silenciada há quase 20 anos, quando recebeu críticas pela imprensa como sendo "inadequada" para ser a mulher do imperador. Sua tia, a imperatriz Masako, sofreu depressão após ser acusada de não ter gerado um herdeiro homem.

 

As mulheres reais foram forçadas a aderir estritamente a certas expectativas — elas devem apoiar seus maridos, produzir um herdeiro e ser uma guardiã das tradições japonesas. Se elas fracassam, são violentamente criticadas.

 

Isso também é verdade para a princesa Mako, que desistiu de seu status real. E mesmo isso não foi suficiente para impedir os ataques contra ela, seu marido e seu casamento.

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