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Estado de Minas OLOGÁ

'Aqui todos somos ignorantes': a vida sem ler ou escrever em um povoado na Venezuela


05/10/2021 17:09

As carteiras do que no passado foi uma escola em Ologá, um povoado de pescadores isolado na Venezuela, estão amontoadas há quatro anos em uma sala escura e empoeirada. O quadro negro não tem nada escrito e a tinta descola das paredes por causa da umidade.

A escola funcionava em uma modesta construção com janelas enferrujadas em uma ilhota deste empobrecido assentamento de palafitas no Lago de Maracaibo (Zulia, oeste). Estava fechada havia três anos quando o governo do presidente Nicolás Maduro suspendeu as aulas presenciais em março de 2020 por causa da pandemia de covid-19.

E agora que o governo prevê reabrir as salas de aula em 25 de outubro, aqui não será possível.

Esta é uma das tantas calamidades de Ologá, onde vivem umas 40 famílias sem água encanada, nem eletricidade, praticamente isoladas pela falta crônica de gasolina, assim como muitos casarios nesta região que viu nascer a indústria petroleira venezuelana.

Paradoxalmente, a única professora que viajava para este remoto povoado para dar aulas começou a se ausentar devido à falta de combustível. Ela dependia de caronas dadas pelos pescadores e barqueiros que levavam turistas para a região (famosa pelo fenômeno conhecido como Relâmpago do Catatumbo) até que um dia não voltou mais.

Isso sem contar com os salários baixos, que não chegam aos 5 dólares por mês, uma realidade que se repete em todo o país.

"Não aprendi a ler (...) e nada de vogais", conta com voz anasalada e palavras entrecortadas Andrea, uma menina de 12 anos, que lembra dos colegas no recreio, quando brincavam em um balanço confeccionado com tábua e cordas, pendurado entre os galhos das árvores frutíferas que outros escalavam.

A taxa de alfabetização na Venezuela é superior a 97%, segundo a Unesco, mas neste casario salpicado por manguezais, o fechamento da escola só piorou o analfabetismo dominante.

"Dos meus oito filhos (já adultos), só uma sabe ler e escrever. Os demais somos todos ignorantes", comenta à AFP Ángel Villasmil, de 58 anos, que se prepara para lançar sua velha rede para pescar a alguns metros de uma praia onde passou toda a sua vida.

Enquanto desenrola a rede de pesca, vê seus 20 netos brincando com tábuas e tambores de plástico que flutuam em uma margem repleta de dejetos arrastados pela correnteza, a maioria cobertos de petróleo.

Nenhum deles sabe ler ou escrever.

- "Nossos pulmões doem!" -

Maria Villasmil, filha de Ángel, lembra de seus anos de colégio com alegria. "A professora me aprendeu (ensinou) muitas coisas, ler, escrever", diz esta mãe de 21 anos.

"Quero que a minha filha também aprenda. Aqui tem muitas crianças que querem estudar e não podem fazê-lo porque não tem escola", assegura, referindo-se à sua pequena Sheira, de três anos.

Mas em Ologá, a falta de educação está longe de ser o problema principal. Ángel, que não estudou, embora a escola funcionasse em sua época, entra todos os dias no lago tentando pescar alguma coisa para vender e alimentar sua família.

Francisco Romero, nascido há 67 anos neste povoado flutuante, garante que "nestes tempos a vida tem sido dura".

"Não temos eletricidade, água bebemos quando chove, de resto temos que buscar água no rio", comenta em sua palafita feita de paredes de latas desmontadas, onde mora com outros nove familiares.

A fumaça da lenha usada para cozinhar impregna o ar. Há anos não têm acesso ao gás doméstico. "Nossos pulmões doem!", exclama.

O pouco combustível que chega é levado pelos compradores de peixe, que costumam pagar por escambo com gasolina ou "um pouco de comida", em especial arroz ou farinha de milho.

Muitos foram "para terra pôr os jovens no colégio", diz Francisco, mas a crise os obriga a voltar.

"Vão embora e voltam outra vez para cá, a vida em terra não é igual à daqui, a gente tira o peixe e come, mas em terra se você não tem um 'bolivita' (moeda), não come", explica.


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