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Estado de Minas PARIS

Comissão independente revela dimensão dos abusos sexuais na Igreja Católica francesa


05/10/2021 11:53 - atualizado 05/10/2021 11:55

Mais de 216.000 menores de idade foram vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica da França desde 1950 - revela um aguardado relatório divulgado nesta terça-feira (5) por uma comissão independente, que mostra a dimensão do problema que já atingiu países como Estados Unidos e Austrália.

Padres e religiosos abusaram de 216.000 menores na França entre 1950 e 2020, mas o número alcança 330.000 quando levados em consideração os laicos que trabalharam nas instituições católicas, afirmou a Comissão Independente sobre os Abusos Sexuais na Igreja (Ciase).

Até o início dos anos 2000, a Igreja Católica francesa mostrou uma "cruel indiferença" com as vítimas dos abusos, que tiveram um "caráter sistêmico", destacou, durante a apresentação do relatório, o presidente da Ciase, Jean-Marc Sauvé, que já foi vice-presidente do Conselho de Estado.

Este católico praticante de 72 anos apresentou o relatório de mais de 2.000 páginas, que considerou "uma carga pesada tanto no sentido literal como figurado", à Conferência Episcopal (CEF) e à Conferência de Religiosos e Religiosas da França (Corref). Esta investigação foi solicitada por ambas as instituições.

A resposta do episcopado francês não demorou.

"Meu desejo no dia de hoje é pedir perdão", declarou o presidente da CEF, monsenhor Éric de Moulins-Beaufort, que expressou "vergonha" e "determinação de atuar" com as vítimas.

O papa Francisco também falou sobre o tema. "O pontífice pensa antes de mais nada nas vítimas, com imensa dor por suas feridas e com gratidão por sua coragem para denunciar", afirmou o porta-voz da Santa Sé, Matteo Bruni.

Na mensagem, o papa deseja que "a Igreja da França, consciente da terrível realidade, unida ao sofrimento do Senhor por seus filhos mais vulneráveis, empreenda um caminho de redenção".

Francisco também espera que as vítimas obtenham "consolo e justiça" para alcançar "o milagre da cura".

Mas França não é um caso isolado.

Ao menos 3.677 crianças foram vítimas de abusos de religiosos na Alemanha entre 1946 e 2014, segundo um relatório de 2018. E, de acordo com advogados independentes, mais de 11.000 denúncias foram apresentadas nos Estados Unidos.

Outros escândalos explodiram no Chile, no Canadá e na Austrália. Em abril, especialistas com mandato da ONU, mas que não falavam em nome da organização, pediram uma ação ao papa Francisco e expressaram "grande preocupação" com as muitas acusações.

O pontífice argentino transformou a luta contra as agressões sexuais em uma de suas prioridades e publicou, em 2020, um manual para a gestão das denúncias na Igreja Católica.

- "Retornam do inferno" -

Os 22 membros da Ciase iniciaram os trabalhos em fevereiro de 2019, após uma série de escândalos. Entre eles, está o do padre Bernard Preynat, condenado em 2020 a cinco anos de prisão por abusos cometidos nos anos 1970 e 1980. Este caso inspirou o premiado filme "Graças a Deus", de François Ozon.

"Vocês, membros da comissão, retornam do inferno", afirmou, durante a apresentação, François Devaux, fundador da associação de vítimas La Parole Libérée.

Em 2016, esta organização denunciou o caso de Preynat e a inação do cardeal Philippe Barbarin.

Os primeiros números revelados já demonstram um quadro de horror. Dos 115.000 padres ou religiosos homens registrados nos últimos 70 anos na França, havia "entre 2.900 e 3.200 pedófilos", disse Sauvé no domingo (3) à AFP, ao destacar que esta é uma "estimativa mínima".

Os meninos com idades entre 10 e 13anos representam 80% das vítimas. Outra conclusão do relatório e que a Igreja Católica, fora da família e dos amigos, é o ambiente onde a prevalência das agressões sexuais é maior.

Além de avaliar o alcance dos fatos, os especialistas (advogados, teólogos, psicólogos, historiadores, entre outros profissionais) avaliaram a resposta da Igreja e apresentaram 45 propostas para se reconhecer a dor das vítimas, evitar outros casos e reformar o direito canônico.

Seis associações de vítimas afirmaram em um comunicado que esperam "respostas claras e concretas". "É histórico. Não poderão mais dizer que estamos manchando a Igreja, que devemos virar a página", disse à AFP Véronique Garnier, uma vítima.

A Ciase pede à Igreja que reconheça sua responsabilidade "sistêmica", que inicie cerimônias públicas para homenagear as vítimas e que deixe claro que o sigilo da confissão não cobre estes crimes, os quais devem ser denunciados à Justiça.

Outra recomendação é indenizar as vítimas pelos "danos sofridos", mas com o patrimônio dos agressores, ou da Igreja, e não com as contribuições dos fiéis.

"Vocês devem pagar por todos estes crimes", disse François Devaux.

A maioria dos fatos já prescreveu e muitos autores faleceram, o que torna improvável um recurso à Justiça. Para 2022, o episcopado francês prometeu indenizações financeiras, algo que não gera unanimidade entre as vítimas.


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