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Estado de Minas TUNES

Tensão entre Argélia e Marrocos ameaça fornecimento de gás para a Espanha


30/09/2021 16:43

Há cerca de 25 anos, a Argélia envia bilhões de metros cúbicos de gás natural para a Espanha através de um gasoduto que atravessa o Marrocos, um contrato que se vê agora ameaçado pela escalada de tensões entre os dois vizinhos árabes do norte da África.

O governo argelino afirmou no fim de agosto que pretende fechar as torneiras do gasoduto quando o contrato expirar em 31 de outubro, o que, segundo os especialistas, poderia colocar em risco o fornecimento de gás para a Espanha.

O ministro de Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, disse nesta quinta-feira (30), durante uma visita a Argel, a capital argelina, que o governo do país africano havia lhe "assegurado a continuidade do fornecimento" de gás, mas sem oferecer detalhes sobre os canais que seriam utilizados para isso.

Apesar das crises recorrentes entre Argélia e Marrocos, o Gasoduto Magrebe-Europa (GME), inaugurado em 1996 e que liga as reservas da Argélia, o maior exportador de gás da África, com a Península Ibérica, transporta cerca de 10 bilhões de metros cúbicos por ano.

"É pouco provável que haja um acordo para prorrogar o contrato do GME [...] É difícil imaginar que ocorram negociações devido à falta de canais diplomáticos entre Rabat e Argel", disse à AFP Geoff Porter, especialista em geopolítica da região do Magrebe.

No fim de agosto, a Argélia rompeu relações diplomáticas com o Marrocos sob a alegação de que a monarquia árabe estava cometendo "ações hostis".

- 'Os principais perdedores' -

A crise atual começou pouco depois da normalização das relações diplomáticas entre Marrocos e Israel, em troca do reconhecimento, por parte dos Estados Unidos, da soberania marroquina sobre o Saara Ocidental.

Argel, que apoia os independentistas saarauí da Frente Polisário, é também um firme defensor da "causa palestina".

Para os especialistas, no entanto, o trânsito de gás pelo GME é vantajoso para os dois países.

Argel se beneficia de uma rota de baixo custo para cerca de metade de suas exportações para Espanha e Portugal.

Em troca, o Marrocos recebe quase um bilhão de metros cúbicos de gás natural por ano, o que representa 97% de suas necessidades, segundo Porter. Metade desse gás é pago ao preço de mercado, enquanto a outra metade tem um custo mais vantajoso, de acordo com os analistas.

Assim, Argel decidiu atingir o Marrocos diretamente no bolso.

Mas o país "tem obrigações [com Espanha e Portugal] e não pode abrir mão das receitas internacionais desses contratos", disse à AFP Roger Carvalho, analista da empresa SPTEC.

Se os argelinos prescindirem do oleoduto, "eles seriam os maiores perdedores", garantiu um especialista em energia do Marrocos, que falou em condição de anonimato. Segundo ele, a Argélia "corre risco de perder bilhões de dólares".

Sem o gasoduto, a Argélia teria duas opções, cada uma com seus inconvenientes.

O gasoduto submarino Medgaz, que transporta gás argelino para a Espanha desde 2011, seria uma delas, mas o mesmo já opera em sua capacidade máxima, de 8 bilhões de metros cúbicos por ano, o que corresponde à metade das exportações anuais da Argélia para Espanha e Portugal.

O grupo estatal argelino Sonatrach e seu sócio espanhol Naturgy pretendem aumentar sua capacidade para 10 bilhões de metros cúbicos anuais, mas isso não seria suficiente.

A outra opção seria enviar mais gás natural liquefeito por via marítima. Mas, segundo Porter, essa é uma alternativa que "não tem sentido do ponto de vista econômico".

- 'Arma econômica' -

"Ao privar o Marrocos de sua principal fonte de gás, a Argélia perderá potencialmente parte de suas receitas de exportação de gás", opinou Porter.

Por sua vez, o Marrocos, que utiliza o gás para alimentar suas centrais termoelétricas, que proporcionam cerca de 10% da energia elétrica no país, terá que compensar a falta do hidrocarboneto aumentando suas importações de carvão.

"No longo prazo, utilizar o gás como arma econômica não favorece a Argélia", segundo Carvalho, já que a Espanha poderia buscar outras fontes para reduzir sua dependência do gás argelino.


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