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Estado de Minas ADIS ABEBA

Rebeldes entram na capital regional do Tigré e Etiópia declara cessar-fogo


28/06/2021 21:56 - atualizado 28/06/2021 22:02

Forças leais às autoridades anteriores do Tigré, que enfrentam o governo federal, recuperaram nesta segunda-feira (28) Mekele, capital desta região do norte da Etiópia, onde o governo evacuou seus representantes e decretou um cessar-fogo após quase oito meses de combates.

O governo federal decretou um "cessar-fogo unilateral" a fim, sobretudo, de permitir o bom desenvolvimento dos cultivos e a distribuição de ajuda humanitária, segundo um comunicado divulgado pela imprensa estatal no início da noite.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, considerou estes eventos como "extremamente preocupantes".

"Eles demonstram, mais uma vez, que não há solução militar para a crise", declarou, afirmando ter "esperanças de que ocorra um cessar efetivo das hostilidades".

Estados Unidos, Irlanda e Reino Unido pediram nesta segunda-feira uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU sobre Tigré, informaram fontes diplomáticas, destacando que o encontro poderá ocorrer na sexta-feira.

Mekele havia sido tomada pelo exército federal em 28 de novembro de 2020, três semanas depois de o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, dar início a uma ofensiva para expulsar as autoridades locais dissidentes, compostas por membros da Frente de Libertação do Povo do Tigré (TPLF), que por muito tempo dominou a vida política da Etiópia.

Esta operação de "manutenção da ordem" tinha sido decidida depois que as forças pró-TPLF atacaram bases militares, justificou Abiy Ahmed, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2019 pela reconciliação com a Eritreia.

Apesar da vitória proclamada após a queda de Mekele, os combates nunca pararam entre as forças pró-TPLF - que se autodenominam "Forças de Defesa do Tigré" (TDF) - e o exército federal etíope, apoiado por tropas de autoridades regionais vizinhas de Amhara e do exército da Eritreia, país fronteiriço com o Tigré.

As TDF lançaram uma ofensiva na semana passada, enquanto eram celebradas em grande parte do restante do país eleições nacionais muito aguardadas, cujos resultados ainda não foram anunciados.

- Música e fogos de artifício -

Nesta segunda, estes rebeldes "tomaram o controle da cidade, eu mesmo os vi, eles entraram", declarou à AFP um membro do governo interino regional, instituído por Adis Abeba após a destituição das autoridades da TPLF.

Um jornalista da AFP confirmou que estas tropas chegaram em caminhões e carros.

Sua entrada provocou cenas de alegria, com soldados atirando para o alto em comemoração e moradores saindo às ruas levando nas mãos bandeiras do Tigré.

"A cidade está em festa, todo mundo está dançando no exterior", confirmou o membro da administração interina.

"Todo mundo está entusiasmado, há música nas ruas. Todos expuseram suas bandeiras e ouve-se música. Eu não sei como conseguiram, mas todos têm fogos de artifício", detalhou um morador à AFP.

Em face do avanço rebelde, os funcionários da administração interina regional deixaram a cidade na segunda-feira, segundo um funcionário.

Testemunhas contaram que soldados e policiais federais também fugiram de Mekele, alguns pilharam bancos e requisitaram veículos de particulares.

- Abusos e fome -

Um funcionário da ONU declarou à AFP que soldados haviam desmontado os equipamentos de transmissão via satélite de várias agências da organização em Mekele, tentando visivelmente reduzir ao máximo as comunicações.

"Este ato viola os privilégios e a imunidade da ONU, bem como as regras do direito internacional humanitário sobre o respeito aos bens da ajuda humanitária. Eu condeno esta ação nos termos mais fortes", tuitou Henrietta Fore, diretora-executiva do Unicef.

O Tigré, a região mais setentrional da Etiópia, fronteiriça com a Eritreia, sofre há oito meses com um conflito devastador.

Anunciada como breve, a operação militar lançada por Abiy se transformou em um conflito de longa duração, marcado por vários relatos de abusos contra os civis (massacres, estupros, deslocamentos da população, etc) que provocaram a indignação da comunidade internacional.

Um ataque aéreo do exército etíope acertou em 22 de junho um mercado concorrido de Togoga, a cerca de 30 km de Mekele, deixando ao menos 64 mortos e 180 feridos.

O exército etíope afirmou que teve como alvo nesta "operação" as forças pró-TPLF à paisana, julgando "inaceitável" afirmar que civis foram vítimas.

Os cerca de oito meses de combates deixaram pelo menos 350 mil pessoas em situação de fome na região, segundo a ONU, o que o governo etíope contesta.


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