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Estado de Minas HOSPITAL EM BUENOS AIRES

O duro despertar após mais de um mês em coma pela COVID-19

Dois Raul, Almirón e Gutierrez, viveram o drama da internação em UTIs, provocada pelo coronavírus na Argentina


03/05/2021 10:04 - atualizado 03/05/2021 11:40

Raul Almiron posa para foto na casa dele, em Florencio Varela, na Argentina(foto: RONALDO SCHEMIDT / AFP)
Raul Almiron posa para foto na casa dele, em Florencio Varela, na Argentina (foto: RONALDO SCHEMIDT / AFP)


Dois homens fecharam os olhos em um hospital da província de Buenos Aires sem saber que juntos passariam mais de 60 dias na UTI, escapando da morte por COVID-19. Eles sobreviveram, mas há meses se recuperam das sequelas.

A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital de alta complexidade 'El Cruce Néstor Kirchner' está lotada há um ano, quando a pandemia do coronavírus chegou à Argentina. A maioria dos internados com problemas respiratórios passa vários meses na UTI.

Raul Almirón, de 45 anos, foi um deles. Ele ainda não acredita que está vivo depois de passar 170 dias na UTI, a maioria em coma induzido.

- "Eu não queria deixar meus filhos" -


"Eu vi muitos morrerem, vi crianças se despedindo de seus pais através de um vidro; eu não queria que meus filhos passassem por isso".

No final de julho, esse jardineiro trabalhava no canteiro de um salão de festas quando começou a se sentir mal.

Naquela época, não lhe ocorreu que pudesse estar infectado com o coronavírus. "Até que me senti muito pior".

Imagem de Raul Gutierrez ainda no hospital El Cruce, em Buenos Aires(foto: LAURA ZABALA / AFP)
Imagem de Raul Gutierrez ainda no hospital El Cruce, em Buenos Aires (foto: LAURA ZABALA / AFP)
Em 1º de agosto, foi transferido para El Cruce. "Naquele dia eu entrei em coma". Tinha algumas das complicações associadas à gravidade da covid-19: era hipertenso e obeso. Pesava 115 kg quando foi internado no hospital. Ele saiu com 51 kg a menos.

Minutos depois que os médicos lhe disseram que iria dormir, Almirón fechou os olhos e pediu a Deus "mais uma chance".

Poucos meses antes de pegar o coronavírus, ele se separou da esposa e ficou com os sete filhos, entre 5 e 23 anos.

"Eu pensava o tempo todo em meus filhos, como iriam viver".

Quando acordou, no final de setembro, "tinha fios por todos os lados. Não conseguia acreditar em como estava".

As coisas haviam mudado muito: a média diária de casos na Argentina era de 14 mil, com cerca de 400 mortes a cada 24 horas e os hospitais trabalhavam no limite.

O país acumula quase três milhões de infecções e 64 mil mortes, em uma população de 45 milhões de pessoas.

Almirón sofreu muitas alucinações e quase todas as complicações causadas pelo coronavírus. Em vários momentos os médicos pensaram que ele morreria.

Então veio a "depressão, o pânico".

"Demorei muito para sair do respirador; um dia uma enfermeira me disse: Olha, tem sete crianças esperando por você". Então ele se animou.

Reaprendeu a andar, mas ainda tem um longo caminho para se recuperar. Ele está com um ombro imobilizado e pouca força. "Meus filhos têm que me dar banho, me trocar", diz em sua casa precária.


- "Não saber se vai acordar" -


Sem nunca se conhecerem, Almirón passou vários dias na UTI com Raúl Gutiérrez, de 37 anos.

Mas o caso deste último é bem diferente.

Dono de uma academia na província de Buenos Aires, Gutiérrez treinava intensamente para participar de uma competição de musculação em dezembro de 2020. Mas no final de junho, depois de um encontro familiar com as duas filhas, começou a ter febre.

Poucos dias depois, um médico disse a ele na UTI que iriam colocá-lo para dormir para que um tubo fosse inserido em sua traqueia, para conectar seus pulmões a um respirador artificial.

"Eu estava com muito medo porque não sabia se ia acordar. Escrevi para meu pai, minhas filhas e minha namorada. Nunca tinha ido ao médico antes".

Quarenta dias depois, ele abriu os olhos.

"Achei que eles tivessem me abandonado, à minha volta enfermeiras nervosas e médicos iam e vinham. Não conseguia mexer os braços nem as pernas, não conseguia falar por causa da traqueostomia".

Naquele momento, passou muito mal. "Sonhava que já estava morto, que estavam me velando".

Em 5 de setembro, ele foi transferido para a ala de cuidados intermediários e poucos dias depois teve alta. O processo de recuperação levou meses.

"Agora valorizo outras coisas: gosto do simples, do básico".

Ficaram algumas sequelas: falta de força nos pés, flexibilidade nos joelhos e um forte impacto psicológico.

"Tenho medo de que aconteça novamente".

Ele não para de treinar, embora agora sem anabolizantes. Sozinho ou com a namorada. Sua academia parece quase abandonada pelas restrições sanitárias. "Eu me supero a cada dia; não podemos esquecer que a força de espírito é muito valiosa".


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