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Estado de Minas CARACAS

Devoção sem aglomerações na beatificação do 'médico dos pobres' na Venezuela


29/04/2021 09:44

José Gregorio Hernández, o "médico dos pobres" e venerado como santo na Venezuela, será beatificado na sexta-feira (30) em uma cerimônia reduzida em Caracas devido à pandemia de covid-19.

A sua beatificação neste momento adquire uma aura singular, visto que este médico (1864-1919) teve que lutar contra a gripe espanhola no seu país há pouco mais de um século.

"Sua beatificação ocorre em um momento dramático", disse à AFP o núncio apostólico Aldo Giordano. "Como cientista que lutou contra os vírus, está escrito nas estrelas que ele tinha que ser beatificado quando a humanidade precisa de esperança, precisa encontrar um caminho" e "ele pode nos ajudar".

Giordano presidirá a cerimônia na ausência do cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, que cancelou a viagem devido à pandemia.

Na Venezuela, José Gregorio Hernández é objeto de verdadeira devoção. Ele se distinguiu por prestar ajuda gratuita aos mais humildes durante a epidemia de gripe espanhola no início do século XX, que matou milhões de pessoas em todo o mundo.

Ele morreu em 1919, aos 54 anos, atropelado por um carro em Caracas.

- "Vai ficar tudo bem!" -

Nos últimos dias, murais com seu rosto foram pintados por todo o país, enquanto os detalhes da cerimônia são refinados em homenagem a este símbolo nacional que transcende todas as divisões políticas e sociais.

Não é incomum que um venezuelano tenha em casa um pintura do venerável, ou uma estatueta com velas ou um copo d'água (uma das tradições ao fazer pedidos a ele).

O decreto de beatificação foi assinado pelo papa Francisco em junho de 2020, após a aprovação de um milagre em 2017.

Yaxury Solorzano, de 10 anos, sobreviveu após sofrer um ferimento grave à bala. Sua mãe rezou a José Gregorio Hernández para salvar sua filha.

Sentiu, segundo relata a Conferência Episcopal Venezuelana (CEV), uma mão em seu ombro e uma voz: "Fique calma, vai ficar tudo bem!"

A beatificação é a última etapa antes da canonização.

Yaxury e sua família, junto com parentes do Dr. Hernández, estão entre as 150 pessoas que participarão da cerimônia na pequena e moderna igreja do Colegio La Salle em Caracas.

"Esta cerimônia será muito austera, muito sóbria, muito simples, mas carregada de muita espiritualidade", disse Albe Pérez-Perazzo, coordenadora da comissão de beatificação.

"É difícil não poder convocar reuniões em espaços públicos quando estamos justamente celebrando a beatificação do médico daqueles que mais precisam de ajuda", acrescentou a responsável, destacando que a causa para a beatificação está "aberta há mais de 70 anos".

- "Casas em templos" -

A Venezuela, com 30 milhões de habitantes, enfrenta desde março uma forte segunda onda do coronavírus, ultrapassando 2.000 mortes e mais de 200.000 infecções confirmadas.

Os números oficiais têm sido questionados pela oposição e por ONGs, em razão da elevada subnotificação evidenciada pelos hospitais lotados e múltiplos pedidos de ajuda financeira nas redes sociais para custear tratamentos da doença.

A escolha da capela desta escola particular, com acesso fechado e localizada próximo ao morro El Ávila da capital, faz parte de uma estratégia para evitar as multidões que seriam geradas se fosse no centro histórico da capital, explicaram os organizadores.

Pérez-Perazzo exortou os fiéis a "transformar todas as nossas casas (...) em pequenos templos", lembrando que a cerimônia será transmitida pela televisão.

Além da beatificação, relíquias do "JGH" - como o chamam - serão entregues a cada uma das dioceses do país.

Entre os milhões de venezuelanos que acompanharão a cerimônia pela televisão, destaca-se a família Cañizalez, que afirma que o nascimento de seus gêmeos foi um "milagre", não reconhecido pela Igreja.

"Quando minha mãe estava grávida, quase nos perdeu", explicou Ana Cañizalez, de 19 anos, estudante de arquitetura.

"Rezou muito a José Gregorio e ao Senhor para que tivéssemos saúde. Foi a Isnotú", local de nascimento e centro de peregrinação do médico nos Andes venezuelanos (oeste), "e aqui estamos".

"Temos uma escultura em casa", contou. "Eu sempre agradeço a ele, por mim e minha família. Ele merece a beatificação".


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