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Estado de Minas NOVA YORK

A venda direta de conteúdo, um modelo de imprensa escrita em ascensão


28/04/2021 11:53

E-mail, boletim informativo, mensagens de texto por telefone... Cada vez mais jornalistas da mídia impressa estão se desviando dos meios tradicionais e vendendo com sucesso seu conteúdo diretamente aos leitores, uma tendência que atraiu o interesse do Twitter e do Facebook.

Anna Codrea-Rado deu o passo em maio de 2019. "Naquela época me parecia uma loucura fazer as pessoas pagarem por um boletim informativo", lembra esta jornalista que tinha 2.500 leitores para seu boletim gratuito LANCE, especializado em jornalismo freelance.

Sua publicação semanal passou a ser paga por meio da plataforma especializada Substack. O número de assinantes caiu para 130 e depois aumentou progressivamente para 330. "Era uma boa fonte de renda", lembra, embora, como resultado da pandemia, tenha decidido suspender sua fórmula paga e torná-la gratuita.

Assim como essa britânica de 30 anos, que também tem seu podcast, cada vez mais jornalistas estão se tornando empresários e procurando diretamente leitores pagantes.

O boletim informativo, também chamado de newsletter, existia antes da internet, gratuito ou pago. Esta nova onda está ligada ao aparecimento de ferramentas digitais, mas sobretudo a novas práticas.

"Há 10 anos, a ideia de uma assinatura não era muito difundida", lembra Jeremy Caplan, diretor do programa de empreendedorismo da escola de jornalismo da CUNY, a Universidade da Cidade de Nova York.

Netflix e Spotify passaram por isso. Hoje, "as pessoas assinam muitas coisas" e estão abertas a "micro-assinaturas" de baixo custo para apoiar financeiramente um podcast ou ler um boletim informativo, observa Caplan.

Alguns chegam a propor informar seus leitores por meio de mensagens de texto, função oferecida pela plataforma Subtext.

A crise da imprensa escrita, que envolveu fusões, fechamentos e demissões, também levou os jornalistas a explorar modelos alternativos.

"A falta de salários decentes e cobertura médica proposta pelos grupos de imprensa está fazendo com que mais e mais pessoas procurem o Substack ou outros sites", observa Jon Schleuss, presidente do NewsGuild, o principal sindicato da imprensa americana.

- "Não é para todos" -

A primeira vantagem para os redatores autônomos é o pagamento direto, após a retirada de uma comissão de 10% para a Substack. "Como jornalistas freelance, somos pagos pontualmente, o que muda muito as coisas financeiramente", explica Codrea-Rado.

A Substack tem mais de 500.000 assinantes que pagam, com uma taxa mensal entre 5 e 10 dólares para a maioria dos boletins informativos mais lidos. As 10 publicações mais populares geraram mais de US$ 15 milhões em receita no ano passado, disse a plataforma à AFP.

Os tópicos mais lidos são política e cultura pop. Os autores costumam propor parte do conteúdo gratuitamente, ou até mesmo associá-lo a um podcast, para ampliar seu público, gerar receita publicitária e criar um portal para assinaturas.

"A melhor coisa sobre tudo isso para mim é que não estou associado a nenhuma marca, nenhuma instituição", explica Isaac Saul, criador do boletim informativo de política americana Tangle, com cerca de 3.000 assinantes pagos. "No mundo político, isso é uma grande vantagem".

Para David Sirota, fundador do The Daily Poster, projeto para o qual trabalham vários jornalistas, o contato direto estabelece uma relação mais saudável com os leitores do que muitos dos grandes meios de comunicação que se pretendem objetivos.

"Não damos a nossos leitores uma falsa impressão, não os infantilizamos fingindo que não temos um ponto de vista", diz Sirota, que ainda é colunista do jornal britânico The Guardian.

O Daily Poster se apoia "em nossos assinantes pelo feedback, pelas suas contribuições e pelas suas ideias de temas. Não são apenas o nosso público, fazem parte da nossa equipe", enfatiza.

Todos descrevem uma relação mais tranquila com o público, longe das redes sociais.

"Não é para todos", alerta Caplan, que na CUNY propõe um programa de acompanhamento, porque essa forma de independência também significa precariedade, incerteza e investimento total.

"Ampliar a cobertura, aumentar a audiência, isso leva tempo", avisa Sirota. "Não há atalho possível".

O apetite por este formato está crescendo e a competição está aumentando. Substack já teve que enfrentar o Ghost, uma plataforma com taxas atraentes, mas também o campeão da economia da arte participativa, Patreon, além de TinyLetter ou ButtonDown.

Em janeiro, o Twitter comprou Revue, um pequeno ator do mercado, e em meados de março o Facebook revelou um projeto inspirado diretamente nas plataformas existentes.

Ciente do perigo, Substack propõe contratos para figuras importantes, às vezes pagando várias centenas de milhares de dólares, o que gerou protestos de vários pessoas insatisfeitas com a falta de transparência da plataforma.

A mídia tradicional não deve temer essa nova forma de jornalismo, mais complementar do que concorrente, avalia Isaac Saul. Globalmente, "é uma coisa boa para a indústria", disse ele.


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