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Estado de Minas INTERNACIONAL

'Cobrança por remuneração é incoerente', diz cientista


23/04/2021 13:00

Ao comentar o discurso do Presidente Jair Bolsonaro na Cúpula do Clima, o cientista Carlos Nobre disse ao Estadão que o Brasil tem de apresentar resultados no combate ao desmatamento antes de pedir dinheiro. Confira abaixo a entrevista.

Um tema do discurso de Bolsonaro foi a remuneração ao Brasil pela conservação do meio ambiente. Como é vista a demanda?

É uma coisa concreta. Dentro da própria cúpula foi lançada uma iniciativa de US$ 1 bilhão custeada por empresas e governos de países como EUA, Reino Unido e Noruega, a ser destinada a países tropicais para reduzirem o desmatamento de seus biomas. Mas não adianta, por exemplo, dizer que o Amapá acabou com o desmatamento ilegal e no Amazonas está aumentando muito. Os países que conseguirem reduzir o desmatamento, proteger as populações tradicionais e começar a mostrar um novo modelo de desenvolvimento, vão conseguir mais recursos.

E o que se pode dizer sobre a cobrança do presidente?

Tem uma incoerência. O que vem primeiro? Você me dá o dinheiro e eu reduzo o desmatamento? Ou eu reduzo o desmatamento e eu te dou o dinheiro? Essa pergunta não foi respondida. E o discurso vai contra toda a política ambiental do Ministério do Meio Ambiente nos últimos dois anos e quatro meses. Acima de 90% do desmatamento na Amazônia nesse período foi ilegal, e nenhum discurso político ouvido nesse período desestimula o crime ambiental. O mundo só vai acreditar que o Brasil mudou quando atacar a ilegalidade com seriedade.

O que se pode destacar de positivo na fala do presidente?

Eu acho que o fato mais inovador foi tirar o Brasil de 2060 e mandar para 2050 a meta de zerar as emissões de carbono. Hipoteticamente, vamos supor que a gente pudesse zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030. Aí reduziríamos nossas emissões em 50%, porque o desmatamento representa entre 40% e 50%.

É viável imaginar esse cenário?

Não. Quando a gente olha para as políticas lá atrás, de 2004 a 2012, que fizeram o desmatamento cair de 27 mil km² para 4.600 km², não é uma política que acontece de um ano para outro. Muito da efetividade daquela política foi o trabalho de inteligência da Polícia Federal atrás dos financiadores do crime. Será possível fazer isso com o enfraquecimento do Ibama e do ICMBio? Será possível depois de dois anos que o Exército infelizmente não mostrou um trabalho muito eficiente? Essa é a grande pergunta. Ir lá na Amazônia e pegar quem está desmatando, você pode ir, porque o satélite mostra as áreas desmatadas.

Biden apresentou metas ambiciosas, são viáveis?

Esse é o último momento que temos para fazer as metas irem para frente. Se não conseguirmos fazer as emissões reduzirem 50%, globalmente falando, até 2030, e depois chegarmos a 0% em 2050, o desequilíbrio climático pode ficar completamente fora de controle.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


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