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Estado de Minas MUDANÇAS NA ILHA

Raúl Castro se vai, mas Cuba continuará na mesma linha

Presidente Miguel Díaz-Canel, de 60 anos, assumirá nesta segunda-feira como primeiro secretário do PCC, cargo máximo do país, mas legado dos Castro permanece


19/04/2021 09:13 - atualizado 19/04/2021 11:39

Raúl Castro em encontro com parlamentares cubanos, em 2019(foto: YAMIL LAGE / AFP)
Raúl Castro em encontro com parlamentares cubanos, em 2019 (foto: YAMIL LAGE / AFP)


Em seu último dia à frente do Partido Comunista de Cuba, Raúl Castro, de 89 anos, entrega o poder a uma nova geração de dirigentes, em um momento histórico após 62 anos dos irmãos Castro no comando do país, mas sem nenhuma mudança na linha política.

"Entregamos a liderança do país a um grupo de dirigentes preparados, endurecidos por décadas de experiência" na organização e "comprometidos com a ética e os princípios da revolução e do socialismo", disse Castro na sexta-feira, durante a abertura do VIII Congresso do Partido Comunista de Cuba (PCC).


O presidente, Miguel Díaz-Canel, de 60 anos, assumirá nesta segunda-feira como primeiro secretário do PCC, cargo máximo de Cuba, uma das cinco nações comunistas do mundo, ao lado de China, Vietnã, Laos e Coreia do Norte.

A transferência ocorre em meio a uma profunda crise econômica no país devido à pandemia do coronavírus e ao fortalecimento do embargo que os Estados Unidos mantêm ao país há 60 anos.

Embora seja uma transição simbólica, em um país onde a maioria só conheceu Fidel e Raúl Castro à frente do poder, não significa necessariamente uma mudança na linha política cubana.

"Desde que nasci, conheci apenas um partido e até agora vivemos com ele, e ninguém passa fome", diz Miguel Gainza, um artesão de 58 anos que trabalha na Havana Velha e apoia esse sistema político.

"É uma pena que Fidel tenha morrido. porque ele resolvia tudo", lamenta.


- "Administrar um país" -


Um total de 300 delegados de toda a ilha, representando 700.000 militantes, votaram direta e secretamente no domingo para eleger o Comitê Central, composto de 114 membros.

O novo comitê vai anunciar nesta segunda-feira a formação do Birô Político, atualmente com 17 membros, e a direção do partido.

Para John Kavulich, presidente do Conselho Econômico e Comercial Cuba-Estados Unidos, é necessária uma mudança geracional. "Atualmente, a idade combinada dos três líderes atuais do Partido Comunista está se aproximando dos 300 anos", diz.

A saída de Castro pode ser acompanhada pela aposentadoria de outros militantes que alcançaram o triunfo da revolução em 1959, incluindo o segundo secretário, José Ramón Machado Ventura, de 90 anos, e Ramiro Valdés, 88.

O partido está envelhecendo. De seus integrantes, 42,6% têm mais de 55 anos, o que frustra as aspirações dos jovens.

Kavulich considera que há no partido uma "falta de vontade de aceitar que já não é preciso lutar por uma revolução, mas sim gerir um país não de meados do século XX, mas da segunda década do século XXI".

Entre muitos cubanos há um cansaço devido à escassez e às longas filas para se abastecer. O país importa 80% do que consome.

O governo, atormentado nos últimos quatro anos pelo endurecimento das sanções de Washington, continua tendo o combate ideológico entre suas prioridades.

"A existência de um único partido em Cuba foi e sempre estará no foco das campanhas do inimigo", disse Castro em seu discurso.

"Esta unidade deve ser protegida com zelo e nunca aceitar a divisão entre revolucionários sob falsos pretextos de maior democracia", acrescentou.

- "Contrarrevolução interna" -


Na pizzaria onde trabalha, Luis Enrique Oramas, de 30 anos, diz que "se deixassem as pessoas falarem o que pensam, seria como em outros lugares, (haveria) dois ou até três partidos".

"A maioria das pessoas preferiria isso do que como o país anda agora, tendo um partido em que todos pensem o mesmo", acrescenta.

A nova liderança chega em meio a uma expansão das demandas sociais nas redes, graças ao advento da internet móvel em 2018.

Ativistas, artistas e intelectuais mantêm uma intensa atividade nas redes sociais, em um país onde as manifestações são quase inexistentes.

Antes de partir, Castro rejeitou que "as mentiras, a manipulação e a divulgação de notícias falsas não tenham mais limites" em referência às críticas nas redes.

É "a contrarrevolução interna, que carece de base social, liderança e capacidade de mobilização", acrescentou.

Durante o congresso, o partido adotou uma resolução para enfrentar a "subversão" política e ideológica, enquanto vários ativistas, jornalistas independentes e artistas denunciaram no Twitter que a polícia os impedia de sair de casa, recurso utilizado para impedir que se encontrassem.

 

- Líder pragmático deixou a sombra de Fidel - 

 

Esteve por décadas na sombra de seu irmão Fidel. Agora, Raúl Castro está se aposentando, aos 89 anos, como um líder pragmático que lançou reformas econômicas sem precedentes em Cuba, mas sai sem concluí-las e sem ceder ao princípio do partido único.

Quando seu carismático irmão adoeceu em 2006 e lhe cedeu o poder, Raúl, acostumado a estar nos bastidores, se tornou alvo dos holofotes.

"Ele nunca tentou imitar a personalidade de seu irmão, construiu sua própria liderança, mais racional e pragmática", comentou à AFP Michael Shifter, presidente do grupo de estudos Diálogo Interamericano, com sede em Washington.

O país avançou quando ele assumiu oficialmente a Presidência, em 2008. Suspendeu as restrições a viagens ao exterior e libertou os opositores da prisão.

Também empreendeu reformas econômicas, permitindo a venda de casas, enquanto muitos passaram a trabalhar no setor privado com a proliferação de pequenos negócios.

E em 2014, surpreendeu o mundo ao anunciar o restabelecimento das relações diplomáticas com os Estados Unidos, levando a um degelo que durou apenas até 2016.

O homem reservado se aposenta deixando Miguel Díaz-Canel, de 60 anos, à frente do Partido Comunista de Cuba (PCC), o cargo mais alto do país.

Em uniforme militar, Raúl confirmou, na sexta-feira, sua aposentadoria durante o oitavo congresso do PCC.

"Enquanto eu viver estarei pronto, com o pé no estribo, para defender a pátria, a revolução e o socialismo", disse.

- Guerra, presídio e exílio -


A vida dos irmãos Castro foi marcada pelo triunfo da revolução de 1959.

"Depois da guerra (...) prisão, exílio, qualquer uma das três coisas, são as que mais unem os homens, e a maioria de nós passou por todas as três", declarou no documentário "La Guerra Necesaria" (1980).

A origem dos Castros está em Birán, província de Holguín (leste), onde Raúl conviveu com os filhos dos trabalhadores da fazenda de seu pai, nadando em rios e em longas cavalgadas.

Com 22 anos e sem experiência militar, ele se juntou a seu irmão Fidel no ataque ao quartel de Moncada em 26 de julho de 1953. Ele ganhou fama ao arrebatar a arma de um sargento.

Depois de quase dois anos de prisão, foram para o exílio no México em 1955 para voltar a bordo do iate Granma e iniciar a guerra de Sierra Maestra, que os levou à vitória dois anos depois.

Apesar do rosto jovem e sem pelos, ao contrário de outros revolucionários "barbudos", Raúl tomou decisões difíceis. São atribuídas a ele ordens de execução de agentes da ditadura após a fuga de Fulgencio Batista.

"Não podia se apresentar ao inimigo como uma alma caridosa", diria em 1993 em entrevista ao Diario de México.

No entanto, foi um líder comprometido com seus homens. Conhecia suas tropas e não era um ministro de visitas relâmpago a uma base militar.

"Ele gostava de conversar, fazer piadas e beber com seus oficiais (...) tem aquela coisa que os soldados apreciam", disse à AFP Hal Klepak, professor emérito de história e estratégia do Royal Military College do Canada.

- "Organizar e dirigir" -


Sua outra qualidade é que "sempre foi um bom e "mostrou grande talento e capacidade de organizar e liderar" as Forças Armadas Revolucionárias (FAR), um dos pilares da Cuba atual, ressalta Shifter.

Também cuidou da estruturação do PCC, outro alicerce do sistema político e social cubano.

Como ministro da Defesa durante 50 anos, enviou centenas de milhares de militares para lutar pela independência de Angola e de outros países africanos, nas décadas de 1970 e 1980, no "maior destacamento de Forças Armadas de um país latino-americano fora da região", diz Klepak.

Nesse período, esteve por trás do julgamento que culminou na execução do general Arnaldo Ochoa por vínculo com o tráfico de drogas em 1989.

Apesar de Raúl Castro ter sido um reformista, Shifter considera que seu projeto econômico ficou inacabado e que não "abriu canais para" o pluralismo político e "manteve um Estado autoritário e repressivo".

- Homem de família -


No final da revolução, casou-se com sua companheira de armas Vilma Espín, falecida em 2007. Eles tiveram três filhas e um filho, e nenhum está na linha de sucessão ao poder.

O coronel Alejandro Castro Espín, filho do casal, desapareceu da cena pública após participar das negociações secretas de degelo com os Estados Unidos.

No coração da montanha, em uma cidade de Santiago de Cuba, estão as cinzas de Vilma e de outros 271 revolucionários.

É o mesmo local onde Raúl estabeleceu em 1956 a Segunda Frente do Exército Rebelde e onde existe uma cripta com o seu nome gravado. 


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