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Estado de Minas BUDAPESTE

Do Holocausto à covid, o incansável decano dos médicos húngaros


24/03/2021 11:03

Poucas foram as vezes em que não esteve em seu consultório: Istvan Kormendi, decano dos médicos húngaros, nasceu e foi criado ali, voltou depois de sobreviver ao Holocausto e continua a tratar doentes, embora já tenha quase cem anos.

Aposentou-se oficialmente em 1989, mas aos 97 ainda cuida de seus pacientes, sempre alerta após 70 anos de trabalho.

"Meu pai era médico e abriu este consultório em 1920", contou ele à AFP no apartamento da família em Budapeste, que tem sido usado como clínica desde então.

Três anos depois, nasceu Istvan Kormendi, que passou sua infância neste universo médico.

Em prateleiras empoeiradas, frascos antigos se misturam com velhos kits cirúrgicos. Nas paredes está pendurado um retrato dele quando criança, com rosto de querubim, enquanto o pai aparece uniformizado, da época de seu serviço militar durante a Primeira Guerra Mundial.

"É assim que eu me via, e é isso que me tornei", sorri o senhor grisalho, com um olhar vivo emoldurado nos óculos, mostrando o quadro.

- Trabalhos forçados -

Seguindo os passos do pai, o jovem Kormendi decidiu cursar medicina. Banido da universidade durante a Segunda Guerra Mundial, precisou esconder suas origens judaicas de seus colegas.

Mas em março de 1944, foi enviado para um campo de trabalhos forçados com milhares de outros judeus depois que a Alemanha nazista ocupou a Hungria.

Em seu bolso, carregava "duas latas de conservas e dois livros didáticos".

Ele conseguiu escapar em dezembro do mesmo ano e se refugiou em Budapeste, onde conseguiu evitar a deportação para um campo de extermínio.

Movido por sua paixão, foi em auxílio de um soldado alemão ferido, que descobriu sangrando na rua.

"Não me ocorreu por um segundo que ele era o inimigo e que provavelmente teria me matado se soubesse que eu era judeu", contou.

- O tempo que for possível -

Atualmente, Istvan Kormendi ainda tem cerca de 300 pacientes em seus registros. Entre eles, uma avó septuagenária de quem cuida desde criança.

"Agora ela vem acompanhada do neto em um carrinho de bebê", diz o médico, que tem dois netos e cuja filha também é médica.

A pandemia de covid-19, cuja terceira onda está causando estragos na Hungria, transformou sua profissão, lamenta ele, pois as consultas remotas substituíram o contato regular que tinha com seus pacientes.

"Não gosto" dessa evolução, confidencia Kormendi, destacando "a importância do face a face na relação entre médico e paciente".

Ele diz que espera que esse negócio "remoto" não se torne a norma.

Apesar de tudo, não tem intenção de parar o que faz.

"É minha paixão, quero continuar tratando os pacientes o maior tempo possível", finaliza.


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