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Estado de Minas BERLIM

A difícil situação das mulheres sem casa em Berlim na pandemia


23/03/2021 13:07

"Nunca pensei que passaria por isso". Petra, de Berlim, ficou sem casa no início da pandemia de coronavírus, que aumentou a vulnerabilidade dos mais pobres - especialmente das mulheres.

São seis da tarde, no início de março, no abrigo "Evas Obdach" de Neukölln, um bairro carente de Berlim. Depois de um dia frio, começam a chegar mulheres carregando pesadas bolsas, ou arrastando volumosos carrinhos de supermercado, visivelmente cansadas.

Neste lugar, elas poderão ter acesso a uma comida quente, banho e uma cama para passar a noite.

- "Corona me empurrou para as ruas" -

Petra (nome fictício), de 60 anos, é uma das poucas mulheres que compartilham parte de sua história, e de forma anônima. Há um ano, no começo do confinamento, ela chegou a Berlim para se estabelecer.

No hotel, no qual pensava em se alojar temporariamente, teve um quarto negado, porque não tinha "qualquer razão profissional para se hospedar lá", contou.

Desde então, luta de um albergue para o outro. Por que se mudou para a capital? Com que recursos contava quando chegou? Ela deixa muitas perguntas sem resposta, mas tem certeza de uma coisa: "O Corona (coronavírus) me empurrou para as ruas".

"Sou química de formação, trabalhei no setor da gastronomia, tive uma carreira (...) Nunca pensei que passaria por isso", desabafa.

O impacto da pandemia no número total de pessoas sem casa ainda é incerto.

"Até o momento, não há indícios de que se tenha produzido um forte aumento", diz Werena Rosenke, diretora da Wohnungslosenhilfe ("Ajuda aos sem-teto"), que agrupa várias organizações de apoio.

"Mas isso pode acontecer depois da pandemia, quando forem executadas as rescisões dos contratos de aluguel por falta de pagamento, atualmente suspensas", acrescentou.

Outra dificuldade é a falta de estatísticas confiáveis. Em Berlim, um censo voluntário feito no início de 2020 contabilizou em torno de 2.000 pessoas sem teto. As organizações beneficentes estimam, no entanto, que haja entre 6.000 e 9.000 pessoas, incluindo 2.500 mulheres.

- Vergonha -

A contagem destas últimas é ainda mais complicada, explica Natalie Kulik, fundadora da "Evas Obdach".

As mulheres tentam evitar as ruas o máximo possível, ainda que isso signifique suportar a violência em uma relação, ou se prostituir para pagar o aluguel.

Acabam indo para a rua, escondem sua situação, "cuidando especialmente de sua aparência", diz, referindo-se a "um sentimento de vergonha".

"A rua é perigosa para elas", explica.

Seja em um lar misto ou em grupo, a proteção costuma ser paga com favores sexuais. "A maioria das nossas visitantes aqui nunca admitiriam ser pessoas sem lar", completa.

- Estratégia de sobrevivência -

"A pandemia está exercendo uma grande pressão sobre o já frágil estado mental das mulheres", afirma Kulik.

"Você pode ver que algumas começam a criar seu próprio mundo, uma estratégia de sobrevivência", o que as torna menos receptivas à ajuda.

As restrições vigentes pioraram as já precárias condições de vida de todas as pessoas sem teto, segundo as associações.

As fontes de "renda", como a coleta de material reciclável, se esgotaram, já que as pessoas ficam em casa. Além disso, os abrigos foram reduzidos à metade, devido às regras sanitárias de combate à covid-19.

Para o inverno boreal (verão no Brasil), o governo de Berlim tomou medidas para alojar essa população, "alugando hotéis vazios", comenta o porta-voz Steffan Strauss.

E logo começarão a ser vacinados contra o coronavírus.

Com a chegada da primavera (outono no Brasil), "toda esta ajuda extra vai desaparecer", adverte Anett Leach, da associação Klik, para jovens sem lar na União Europeia (UE).


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