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Estado de Minas FINANÇAS

Diferença entre Biden e chefe do BID ameaça recursos para América Latina

Mauricio Claver-Carone era o candidato de Trump à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento


08/03/2021 12:00 - atualizado 08/03/2021 12:25

(foto: Reprodução)
(foto: Reprodução)
Quando Mauricio Claver-Carone se lançou à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em 2020, ele já sabia o que o time do então candidato democrata Joe Biden pensava sobre ele: uma figura ideológica e pouco qualificada. Carone, então parte do governo de Donald Trump, manteve a candidatura - e foi eleito. Biden também. Agora, para ampliar empréstimos e influência do banco na região, ele precisa do apoio dos democratas.

Para pedir um aumento de capital de US$ 80 bilhões para ajudar os países atingidos pela covid, Carone afirma que o banco terá de cortar empréstimos em meio à pandemia - e o espaço seria ocupado por atores como a China. Como os EUA são o maior acionista do BID, com 30% de participação, ele precisa de um acordo com Biden. O Brasil tem 11,4% de participação. Se aprovado, será o primeiro aumento de capital desde 2010.

"O governo Biden terá de decidir. A crise da COVID é sem precedentes? O BID é o melhor veículo para uma ação coletiva para a região? Se o governo achar que o banco é o melhor veículo para essa resposta coletiva para América Latina, então, precisará apoiar o aumento de capital", afirma Daniel Runde, vice-presidente do Center for Strategic and International Studies (CSIS), de Washington.

No comando do banco, Carone adaptou seu discurso para buscar convergência com Biden. Do governo Trump, ele importou o eixo de política externa compartilhado por republicanos e democratas: a ideia de reduzir a presença da China na região aumentando a influência dos EUA.

Para se aproximar da pauta de Biden, defende o aumento de capital de forma sustentável, com criação de um fundo para investimentos climáticos e iniciativa de preservação da Amazônia. Ele afirma que não há resistência por parte da Casa Branca, mas aliados do próprio presidente do BID afirmam: ele sabe que a oposição ao seu nome pode atrapalhá-lo. "Se os acionistas não conseguem colocar uma candidatura alternativa de consenso para retirar Mauricio, então precisam parar com as intrigas internas", diz Runde.

Carone não foi apenas um integrante do governo Trump, mas um lobista pró-embargo a Cuba e um dos principais articuladores de uma política e retórica antissocialismo. Seu nome é malvisto na ala de esquerda do Partido Democrata - e entre muitos técnicos do governo.

Carone foi eleito em um momento de desorganização dos países da região. Pelo rodízio, seria a vez de Brasil ou Argentina chefiarem o BID. Por já serem os maiores acionistas, os EUA costumam ficar de fora da presidência. Mas Trump não apoiaria uma candidatura do governo de esquerda de Alberto Fernández. Restaria ao Brasil, portanto, fazer campanha pelo apoio de Washington. O nome apresentado pelo ministro Paulo Guedes, o economista Rodrigo Xavier, no entanto, era considerado desconhecido para a maioria dos países da região, o que abriu caminho para Carone.

Plano

Semana passada, um grupo de senadores americanos propôs o projeto de lei que autoriza o aumento de capital de US$ 80 bilhões do BID. O texto fala em ampliar o poder da instituição em "um momento em que a região sofre o impacto econômico da pandemia e de furacões devastadores", além da crise migratória de venezuelanos. O texto foi proposto por cinco senadores, sendo três democratas, incluindo o presidente da Comissão de Relações Exteriores, Bob Menendez.

O apoio bipartidário, comemorado por Carone, ainda é visto com ceticismo por quem acompanha as negociações. Primeiro, porque foi proposto no comitê que debate política externa, e não pelos responsáveis pelo orçamento. Segundo, porque Menendez é visto como um dos democratas "mais conservadores" no Senado, o que indica que a sua bênção ao projeto de Carone não significa apoio da ala progressista do partido.

Ao anunciar o projeto, Menendez disse que o aumento de capital garantirá que o BID esteja "mais bem preparado para enfrentar os desafios crescentes da mudança climática nas Américas, apelando para o estabelecimento de seu primeiro fundo ambiental", um aceno a uma das principais prioridades do governo Biden. Já o republicano Marco Rubio, vê a medida como uma estratégia para "conter o avanço da China na região".

O banco tem uma reunião, entre 17 e 21 março, na Colômbia, e Carone precisa chegar com uma agenda conjunta, já em concordância com os acionistas. Mas, se não há barreiras colocadas pelo governo Biden, no mínimo há um atraso na discussão. Até agora, os EUA não indicaram o diretor que representará o país no BID. Sem representante formal, não se sabe qual a posição do governo americano.

Não é só o BID que não tem representante formal do governo Biden. A cadeira americana na Organização dos Estados Americanos (OEA) tem um interino. A instituição foi usada por Trump para pressionar o regime de Nicolás Maduro. Ou seja, as duas organizações regionais (BID e OEA) são comandadas por trumpistas hostis ao governo Biden.

Na OEA, o atual o secretário-geral, Luis Almagro, foi reeleito no ano passado com apoio de Trump, Bolsonaro e outros 22 países da região. Almagro promoveu uma guinada à direita, suspendendo a Venezuela e reconhecendo os diplomatas do antichavista Juan Guaidó como representantes oficiais - o que não foi seguido na ONU, por exemplo.


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