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Estado de Minas FÓRMULA EM DEBATE

Estrada contra pobreza na China enriquece alguns e deixa outros para trás

China afirma que tirou 800 milhões de pessoas da pobreza desde o lançamento de suas reformas econômicas no final dos anos 1970


24/02/2021 07:11 - atualizado 24/02/2021 09:05

Fazendeiro chinês caminha em área de cultivo de laranjas(foto: NOEL CELIS / AFP)
Fazendeiro chinês caminha em área de cultivo de laranjas (foto: NOEL CELIS / AFP)


No vilarejo de Liu Qingyou, na província de Hunan, passa uma "estrada de redução da pobreza". O agricultor mostra o cartão, no qual o Estado detalha como retirou da miséria sua família e outros 100 milhões de chineses.

No documento, figuram as causas de suas dificuldades - "doença" e "escolaridade" - e uma lista que enumera como o Estado os ajudou, que vai dos subsídios para a compra de cereais até o melhor rendimento da produção de laranjas.

Sua família entrou oficialmente na categoria "pobre" em 2014, quando o presidente Xi Jinping estabeleceu uma estratégia de ajuda seletiva contra a pobreza e enviou funcionários de porta em porta para avaliar as residências mais desfavorecidas.

Nos anos seguintes, Liu recebeu um novo estímulo: uma nova estrada que atravessa as colinas de Hunan e permite que ele transporte os produtos ao mercado na metade do tempo e facilita o acesso a cidades próximas.

Mas não foi nada fácil.

Liu afirma que suas colheitas não melhoraram apesar dos esforços das autoridades locais para ajudá-lo a diversificar os cultivos.

E ele passa frio em sua casa de madeira no inverno, quando a temperatura se aproxima de zero grau.

Liu e sua família de cinco membros ainda vivem de maneira modesta. Ele se preocupa com o futuro, apesar de agora serem considerados fora da linha da pobreza.

"Podemos sobreviver", afirma. "Mas nossa casa é ruim".

Ele gostaria de obter o que outros receberam do Estado: um reassentamento, ou fundos suficientes para construir uma casa de tijolos.

Ele não sabe a razão de não ter sido qualificado. "Por que não podemos ter o mesmo?", questiona.

Guerra contra a pobreza 


As décadas de guerra contra a miséria na China apresentaram resultados significativos.

"Durante os últimos 40 anos, o crescimento econômico da China permitiu que mais de 800 milhões de chineses saíssem da pobreza extrema (...) É uma conquista extraordinária", afirma o diretor do Banco Mundial para a China, Martin Raiser.

Em 2015, Xi Jinping prometeu erradicar a pobreza extrema até 2020, um objetivo para ajudar a alcançar a principal meta do Partido Comunista: construir uma "sociedade moderadamente próspera".

Xi declarou que o objetivo foi alcançado no ano passado e o chamou de "grande vitória".

A realidade não é tão simples, porém, e os analistas advertem que o aumento da renda deixou a linha de pobreza da China obsoleta.

Os critérios para decidir quem recebe ajuda também geram descontentamento.

A família de Liu saiu oficialmente da pobreza quatro anos depois de ter sido designada, resultado de uma mudança de política de Pequim, que deixou de depender do crescimento vertiginoso que retirou quase um bilhão de pessoas da miséria.

As autoridades fixaram uma linha de pobreza baseada em por volta de US$ 2,30 de renda por dia e ofereceram ajuda aos que não recebiam esta quantia.

Mas a China é agora um país de renda média-alta e o Banco Mundial sugere uma linha que dobre o valor atual.

"A atual linha de pobreza rural, unidimensional, não reflete mais o que significa ser pobre em uma sociedade que evolui rapidamente", afirma Terry Sicular, da Universidade de Western Ontario.

Entrevistar os agricultores é complicado. Quando a equipe da AFP trabalhava em Hunan apareceram seis carros com funcionários públicos.

As autoridades fizeram perguntas à AFP e insistiram em acompanhar os jornalistas depois de solicitar detalhes, como o histórico de viagens para a prevenção da covid-19.

Um policial apareceu em uma das entrevistas para observar, alegando que eram temas "sensíveis".

Resultados irregulares 


O Partido Comunista baseia sua legitimidade em um crescimento contínuo.

Antes da data-limite de 2020, os dirigentes do partido identificaram as residências pobres, distribuíram recursos e construíram infraestruturas como a estrada Qianqing próxima da casa de Liu.

Mas, por trás da campanha contra a pobreza, há pelo menos US$ 1 trilhão em empréstimos durante cinco anos e os custos recaem cada vez mais sobre os governos locais.

Em um primeiro momento em Hunan, a falta de dinheiro atrasou a construção da estrada de 63 quilômetros, que foi concluída somente depois que uma reportagem da televisão nacional aumentou a pressão sobre as autoridades locais.

"Agora o transporte é mais fácil (...) aumentou a renda das pessoas em pelo menos 30%", afirma Liu.

Apesar de ter recebido subsídios, Liu afirma que os negócios estão fracos.

A decoração de sua casa é espartana: uma mesa pequena, ao lado de um fogão, onde seu filho prepara um almoço com bacon curado, especialidade de Hunan.

A decisão do governo local de diversificar a economia com plantações de chá e novas variedades de laranja afetou os lucros, explica o agricultor.

"Antes da retirada das árvores, nossa família ganhava entre 20.000 e 30.000 iuanes (entre US$ 3.100 e US$ 4.700) por ano", conta Liu. Agora, muito menos.

O lado positivo 


A região tem, no entanto, muitos sinais de crescimento da riqueza.

A renda per capita das casas afetadas pela pobreza em Hunan subiu de 2.300 iuanes para 12.200 iuanes em cinco anos, de acordo com os dados oficiais.

A estrada de Qianqing é uma demonstração dos avanços.

O agricultor Xiang Xiuli, de 53 anos, afirma que agora os moradores não precisam mais transportar os produtos por terrenos difíceis até as estradas mais próximas para vender.

"O tamanho do nosso negócio de laranjas dobrou. Nossos filhos podem frequentar escolas melhores", afirma.

Para Mi Jiazhi, que saiu oficialmente da pobreza em 2017, tudo melhorou.

"Temos todo tipo de recursos", conta o homem de 71 anos.

"Agora as coisas estão bem... Posso chegar a entre 30.000 e 40.000 iuanes de renda (por ano)", relata.

Com o aumento da renda e com a ajuda dos filhos, ele se mudará em breve para uma casa maior. "Estou muito feliz".

A recaída

 
Com o aumento da linha da pobreza, muitos habitantes das cidades também se tornarão pobres, advertiu Raiser.

Pequim alerta para o perigo de retrocesso, e os agricultores reconhecem que a pandemia da covid-19 afetou sua renda.

Ou Qingping, funcionário do departamento de luta contra a pobreza, advertiu em dezembro que os recursos de algumas pessoas que ainda dependem da ajuda são "insuficientes" para ganhar mais.

"Quando as políticas de ajuda forem suspensas, é provável que retornem à pobreza", disse.

Isto sem falar nas consequências das doenças, do desemprego, ou das pandemias.

"A eliminação da pobreza em um momento determinado não elimina a pobreza", afirma Sicular.

 

 
A receita chinesa contra a pobreza 


A China "erradicou oficialmente a pobreza absoluta no ano passado", o que é "uma grande vitória" - afirma o presidente Xi Jinping, que havia exigido que a meta estabelecida em 2015 fosse alcançada até 2021, ano do centenário do Partido Comunista da China (PCC).

Quem é pobre? 


O limiar de pobreza se define como uma renda abaixo de US$ 2,30 por dia e por pessoa, ou seja, um pouco mais que o limite do Banco Mundial (US$ 1,90).

A definição não se baseia, porém, apenas na renda.

Em todo país, as autoridades foram de porta em porta avaliar o status social dos habitantes de acordo com diferentes critérios: saúde ou moradia, cobertura de doenças, escolaridade dos filhos, etc.

Famílias que possuíam carro, ou trator, foram retiradas da lista de famílias pobres.

Que resultados? 


A China afirma que tirou 800 milhões de pessoas da pobreza desde o lançamento de suas reformas econômicas no final dos anos 1970.

A taxa de pobreza absoluta caiu de 88,3% da população em 1981 para 0,3% em 2018.

Praticamente todas as crianças completam a escolaridade obrigatória (15 anos) sem ter de trabalhar para ajudar os pais.

A taxa de mortalidade infantil caiu drasticamente nos últimos 20 anos, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), enquanto a taxa de posse de automóveis aumentou para 20% da população.

"Para a grande maioria dos chineses, a vida melhorou consideravelmente em uma geração", observa o diretor do Banco Mundial para a China, Martin Raiser.

Resultados confiáveis? 


As estatísticas chinesas são questionadas e revelam apenas um aspecto da realidade.

Centenas de milhares de casos de corrupção estão relacionados com a luta contra a pobreza. Líderes locais não hesitaram em incluir seus parentes, ou amigos, na categoria de "pobres" para desviar fundos.

O limite oficial de US$ 2,30 por dia é baixo em comparação com os US$ 5,50 recomendados pelo Banco Mundial para países de renda média como a China. Se esse critério for seguido, então, cerca de 25% da população chinesa vive na pobreza, de acordo com Raiser.

Resultados sustentáveis? 


Os fundos destinados à luta contra a pobreza, "embora importantes em valor absoluto, representam apenas uma pequena parte da receita do Estado", destaca Terry Sicular, economista especializada em China da Universidade Western Ontario (Canadá). Sicular menciona um valor de 1% do total em 2015.

Embora o crescimento econômico fenomenal da China tenha alimentado grande parte do declínio da pobreza nas últimas décadas, sua redução forçará o poder a exercitar a imaginação, porém, para apoiar o padrão de vida das pessoas que se encontrarão logo abaixo desse limiar.

Em muitas regiões, as comunidades locais, que contribuíram amplamente para a luta contra a pobreza, agora têm recursos fiscais limitados e enfrentam um forte endividamento, depois de, às vezes, investirem somas colossais em projetos de infraestrutura.

"No futuro, reduzir a vulnerabilidade econômica (dos mais fracos) pode implicar que se atue na formação e em ajudar as pessoas a buscarem empregos mais produtivos nas cidades", disse Raiser.

 


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