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Estado de Minas TEORIA DA CONSPIRAÇÃO

QAnon: por que os seguidores da teoria conspiratória racharam com a saída de Trump do poder

Seguidores da teoria da conspiração infundada acreditavam que Donald Trump permaneceria como presidente para punir seus inimigos no 'estado profundo'


22/01/2021 10:36 - atualizado 22/01/2021 12:36

Figuras influentes do QAnon estavam entre aqueles que invadiram o Capitólio(foto: Getty Images)
Figuras influentes do QAnon estavam entre aqueles que invadiram o Capitólio (foto: Getty Images)

Seguidores da teoria da conspiração infundada QAnon estão divididos depois que a posse de Joe Biden foi contra as previsões do grupo de que Donald Trump permaneceria como presidente para punir seus inimigos na "máquina estatal" (ou deep state, na expressão em inglês).


Muitos reagiram com choque e desespero quando Joe Biden foi empossado como 46º presidente dos Estados Unidos.

"Eu só quero vomitar", disse um deles em um bate-papo popular no aplicativo de mensagens Telegram. "Estou tão farto de toda a desinformação e de falsas esperanças."

Outros insistiram que "o plano" não falhou, encontrando novas teorias às quais se apoiar.

O QAnon é uma teoria ampla e completamente sem comprovação que diz que o presidente Trump está travando uma guerra secreta contra os pedófilos adoradores de Satanás do alto escalão do governo, do mundo empresarial e da imprensa.

Durante semanas, os seguidores do QAnon promoveram o dia 20 de janeiro como um dia de ajuste de contas, quando democratas proeminentes e outros "pedófilos satânicos" da elite seriam presos e executados por ordem do presidente Trump.

No entanto, como Biden fez seu juramento e nenhuma prisão foi feita, alguns membros da comunidade QAnon tiveram um encontro desconfortável com a realidade.

"Está feito e fomos enganados", escreveu outro.


A posse de Joe Biden transcorreu sem grandes incidentes, frustrando as esperanças dos seguidores do QAnon(foto: Reuters)
A posse de Joe Biden transcorreu sem grandes incidentes, frustrando as esperanças dos seguidores do QAnon (foto: Reuters)

Nas horas seguintes, apareceram milhares de outros comentários semelhantes em plataformas como Gab, Telegram e outros fóruns online onde esses seguidores vão para discutir a conspiração, depois de serem expulsos de redes sociais tradicionais na esteira do ataque ao Capitólio.

A dúvida chegou até mesmo às postagens de alguns dos maiores influenciadores do movimento, quando alguns começaram a questionar a frase "Confie no plano", um slogan chave do QAnon usado por "Q", uma figura anônima que os seguidores acreditam ser um influente membro do governo.

"Este é um dia muito difícil para todos nós", disse um influenciador cuja conta no Twitter com 200 mil seguidores foi recentemente suspensa.

"A cerimônia de hoje não faz sentido para os patriotas cristãos e pensamos que 'o plano' era a maneira como pegaríamos este país de volta."

Uma mulher cujo marido é um seguidor do QAnon disse à BBC que o dia da posse foi "o mais decepcionante" da vida dele.

Ela está esperançosa de que os eventos de quarta-feira (20) possam ter abalado sua fé na conspiração, mas teme o que vem a seguir.

"Não sou o tipo de pessoa que diz 'eu te avisei' e nunca procuro depreciar ou humilhar", disse ela, acrescentando que as crenças dele afetaram o casamento nos últimos meses.

A comunidade QAnon "corre o risco de se fragmentar", disse outro influenciador do Gab, uma plataforma de mídia social de direita. Ele acrescentou que "amizades reais podem ser irreparavelmente danificadas porque as pessoas estão com raiva".

A crença amplamente aceita dentro do movimento era que em algum momento antes de Joe Biden subir ao palco para fazer o juramento presidencial, membros do exército, sob as ordens de Trump, interviriam para prender Biden e sua esposa junto com Kamala Harris , Nancy Pelosi, Chuck Schumer, Barack e Michelle Obama, Hillary e Bill Clinton, George e Laura Bush e outros membros do "estado profundo".

Vários canais extremistas e neonazistas do Telegram já tentaram capitalizar o caos na comunidade QAnon, pedindo a seus membros que procurassem e convertessem seguidores.


Alguns influenciadores do QAnon recusaram-se a desistir depois que o prometido de ajuste de contas não se materializou. Mensagem diz:
Alguns influenciadores do QAnon recusaram-se a desistir depois que o prometido de ajuste de contas não se materializou. Mensagem diz: "Vou continuar falando a verdade. Não desisti. Ainda tenho fé. Ainda sei que Deus vence" (foto: Gab)

Alguns perfis influentes do QAnon disseram aos seguidores para manter a fé e não desistir tão facilmente.

Um canal popular do Telegram assegurou a seus 130 mil assinantes que Trump e a equipe "Q" ainda estavam no controle dos bastidores, e que as "más ações" da máquina estatal seriam expostas "nos próximos quatro anos".

Outros reafirmaram suas apostas, criticando aqueles que, em sua opinião, correram para julgar. Um deles afirmou que Biden dirigia sua administração como prisioneiro dentro de um complexo militar, mas ele "ainda não sabe".

No final do dia, Ron Watkins, uma das figuras mais influentes da comunidade QAnon, convocou seus seguidores a seguir em frente, para a surpresa de muitos observadores.

Filho de Jim Watkins, o homem por trás do 8chan e do 8kun (fóruns repletos de linguagem e opiniões extremas, violência e conteúdo sexual extremo em que "Q" posta), Ron tem sido um dos principais fornecedores de conspirações eleitorais e teve um papel central em encorajar alguns apoiadores QAnon a se reunir em Washington D.C. em 6 de janeiro.

"Demos tudo de nós", disse ele a seus 120 mil assinantes no Telegram. "Agora precisamos manter a cabeça erguida e retomar nossas vidas da melhor maneira que pudermos."


Ron Watkins, um importante influenciador de QAnon, pareceu jogar a toalha após a posse. Na mensagem em inglês, ele diz aos seguidores que eles têm a responsabilidade de respeitar a Constituição e diz para se lembrarem de todos os amigos e lembranças felizes que fizeram juntos(foto: Telegram)
Ron Watkins, um importante influenciador de QAnon, pareceu jogar a toalha após a posse. Na mensagem em inglês, ele diz aos seguidores que eles têm a responsabilidade de respeitar a Constituição e diz para se lembrarem de todos os amigos e lembranças felizes que fizeram juntos (foto: Telegram)

Quando o dia da posse chegou ao fim, as comunidades QAnon ainda estavam bastante confusas. Alguns disseram que estavam esperando "Q", que tem estado em silêncio desde o dia das eleições, para postar, pois tinham muitas perguntas sem resposta.

E alguns expressaram esperança de que Trump se comunicaria diretamente com eles em breve.

Uma parte considerável da comunidade permanece firme em sua crença, incentivando uns aos outros a permanecerem pacientes e a manterem a fé.

É difícil prever para onde o movimento vai a partir daqui. Mas alguns especialistas e pesquisadores apontam que o QAnon, que conseguiu enganar centenas de milhares de seguidores fazendo-os pensar que sozinhos poderiam impedir uma cabala global de criminosos que governam o mundo, não irá simplesmente desaparecer da noite para o dia.

Os seguidores "provavelmente continuarão sendo uma ameaça até que possam sair do espaço QAnon", tuitou o pesquisador de extremismo Marc-Andre Argentino.

"Mesmo sem QAnon, sem 'Q', sem Trump, os elementos centrais que levam esses indivíduos a acreditar no QAnon ainda permanecerão e eles precisarão encontrar saídas para suas mentalidades conspiratórias e seus ideais antidemocráticos", acrescentou.

*Com reportagem adicional de Marianna Spring


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