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Estado de Minas

Os desafios ao Brasil com o governo Biden

Multilateralismo e meio ambiente voltam à agenda dos EUA e colocam em xeque política externa de Jair Bolsonaro


21/01/2021 04:00 - atualizado 21/01/2021 00:00

A posse do democrata Joe Biden como presidente dos Estados Unidos, ontem, marca uma nova página não só na história política da maior economia do planeta, mas também da diplomacia e do comércio globais, que voltarão ao multilateralismo e serão mais pautados por preocupações ambientais. Na avaliação de analistas ouvidos pelo Estado de Minas, essa guinada afetará o Brasil se o governo Jair Bolsonaro não reverter os retrocessos na agenda ambiental e de relações externas, que atrapalharam a importação de vacinas contra a COVID-19 e de insumos da Índia e da China. Segundo eles, os primeiros três meses de governo Biden serão decisivos para a relação bilateral deslanchar ou travar.
 
“A presença de Biden é mais positiva para o comércio global e para o multilateralismo, porque ele vai buscar um reposicionamento não apenas para os Estados Unidos, mas para o mundo em relação ao meio ambiente. É um cenário melhor, mas o Brasil precisará ter, minimamente, disposição política de se alinhar aos novos ventos”, avaliou o economista Mauro Rochlin, professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV).
 
Rochlin lembrou que o governo tomou medidas equivocadas para o país apenas para tentar se alinhar aos EUA na Organização Mundial do Comércio (OMC), como no caso da quebra de patentes farmacêuticas, colocando-se contra a Índia e a África do Sul, contrariando posições anteriores. “O governo tem uma oportunidade para fazer uma inflexão no discurso radical, repensar alguns conceitos, mas não sei até que ponto estará disposto a isso”, afirmou. “O Brasil não poderá apostar na política isolacionista na área diplomática. Seria até ingênuo”, acrescentou.
 
O diplomata Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos EUA, avaliou que as questões políticas não vão interferir na área comercial entre os dois países. “Há espaço para a expansão comercial, há muitos interesses. O comércio tem tudo para crescer, de forma independente”, destacou. Contudo, ele reconheceu que há complicações na área ambiental e “poderá haver consequências econômicas”. “Mas eu acho que não vão ocorrer”, apostou.
 
De acordo com Barbosa, se as relações comerciais entre China e os EUA melhorarem, o efeito para o Brasil “será negativo”. “A questão é que o Brasil não pode tomar partido nesta luta pela supremacia comercial e tecnológica. Ele precisa ficar independente e decidir de acordo com o próprio interesse, tanto em relação à China quanto em relação aos EUA”, explicou.
 
Durante a campanha, Biden cogitou a possibilidade de aplicar sanções ao Brasil se não houver melhora nos indicadores ambientais. “Eu não descartaria esse risco, mas ele será maior ou menor dependendo do posicionamento do governo brasileiro nos próximos meses”, destacou Rochlin.

Tropeços Um consenso entre analistas é que as gestões do ministro Eduardo Araújo, das Relações Exteriores, e do ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, foram desastrosas, a exemplo do que vem ocorrendo com Eduardo Pazuello à frente do Ministério da Saúde. Com a volta do multilateralismo, o Brasil corre o risco de ficar ainda mais isolado. Procurado, o Ministério das Relações Exteriores não comentou a posse de Biden, nem as críticas à política externa.
 
“O Brasil sempre foi reconhecido por ter um bom corpo diplomático. Se o país se isolar e não rever as estratégias, será muito ruim para a economia interna”, comentou o especialista em relações internacionais Wagner Parente, CEO da BMJ Consultores Associados.
 
O economista Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, está preocupado com o recado que Biden dará ao Brasil nos próximos dias, caso cite o país. Em seu discurso no Senado, na terça-feira, a nova secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, confirmou que a parte ambiental será uma das prioridades do governo Biden. “Neste começo de ano, com o caso das vacinas atrasadas, estamos vendo como a postura ideológica do governo, que ficava tuitando e criticando governos estratégicos, está tendo consequências na economia”, destacou. “O desgaste com os chineses está afetando as importações de insumos. O Brasil corre o risco de ficar isolado”, alertou.
 
Bruce Ackerman, professor de direito na Universidade Yale, lembrou ainda que outra prioridade de Biden será trabalhar com a União Europeia para construir as bases democráticas para a aliança transatlântica, que foi abandonada por Trump. “Mas outra prioridade será repudiar a colaboração de Trump com o seu companheiro autocrata Bolsonaro e deixar claro que ele assumirá um compromisso com a democracia na América Latina, recusando-se a fazer qualquer coisa significativa que poderá dar qualquer reforço autoritário a Bolsonaro”, afirmou. (Com Nahima Maciel)

Uma balança desfavorável


A balança comercial entre o Brasil e os Estados Unidos é tradicionalmente desfavorável para o lado brasileiro, que, desde 2009, registrou apenas um superavit, em 2017. Nos dois primeiros anos do governo Jair Bolsonaro não houve melhora nas relações bilaterais. Especialistas e fontes do governo reconhecem que os acordos anunciados no ano passado, que foram comemorados pelas autoridades brasileiras, tiveram pouco impacto no comércio brasileiro e não garantiram aumento de exportações.
Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China, maior importador global de commodities. No ano passado, as exportações para os EUA desabaram 27,8% em relação a 2019, em grande parte devido à crise provocada pela pandemia, mas, mesmo com recuo de quase 20% nas importações, o déficit comercial disparou quase 6.000%, para US$ 2,7 bilhões.
 
De acordo com os analistas, apesar de o presidente e de seus filhos serem “amigos” do republicano Donald Trump, isso não refletiu em ganhos para o país. Pelo contrário. Eles lembram que o Brasil cedeu na questão do etanol, ampliando a cota de importação sem contrapartidas, enquanto perdia espaço no mercado norte-americano de produtos manufaturados.
Exportar para os EUA, o cliente mais exigente do mundo, é obter um selo de qualidade, e o Brasil está perdendo esse diferencial. “O país já foi o maior exportador de calçados para os EUA, mas, hoje, não aparece na lista dos 10 maiores”, lamentou José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). “As exportações de commodities do Brasil para os Estados Unidos estão aumentando, enquanto as de produtos manufaturados encolhem. A pauta era rica, mas está ficando pobre”, lamentou.

Risco Castro lembrou que é arriscado deixar a balança comercial cada vez mais dependente de commodities, um mercado em que o país disputa com a maior potência global. “O Brasil compete com os EUA nas exportações de commodities como soja, etanol, milho, açúcar e suco de laranja. Os dois países disputam a liderança mundial como maiores produtores desses itens”, acrescentou.
 
Wagner Parente, CEO da BMJ Consultores Associados, lembrou que o recente fechamento das fábricas da Ford no Brasil é emblemático. Para ele, é um erro achar que as exportações de produtos agrícolas vão continuar garantindo superávit comercial, e o emprego de qualidade não está no campo. “O governo tem demonstrado interesse em priorizar mais as exportações de produtos agrícolas do que industrializados. Mas é na indústria que estão os empregos com os melhores salários”, destacou. (RH)


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