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Estado de Minas

Após China e EUA, Europa busca seu espaço no mundo digital


15/12/2020 08:55

A Europa não conseguiu criar um grande mercado unificado digital, uma desvantagem que explica a ausência de gigantes europeus como Google e Facebook (Estados Unidos), ou Tencent e Alibaba (China).

Mas o continente não é um deserto digital, e os novos projetos de regulamentação (DSA/DMA) anunciados em 15 de dezembro pela Comissão Europeia podem favorecer seu avanço, desde que sejam apoiados por uma política industrial ambiciosa.

- Atraso europeu -

Cinco gigantes digitais nasceram nos Estados Unidos: Google (ferramenta de busca), Apple (informática e telefonia móvel), Facebook (rede social), Amazon (comércio eletrônico) e Microsoft (informática), reunidos sob o acrônimo "Gafam". Cada empresa tem um peso de centenas de milhões de dólares na Bolsa.

A China também criou seus equivalentes com o Baidu (ferramenta de busca), Alibaba (comércio eletrônico), Tencent (jogos e rede social) e Xiaomi (telefonia móvel).

Mas a Europa está ausente na categoria dos pesos pesados.

Na Inteligência Artificial, a UE apresenta três vezes menos patentes que a China e 3,4 vezes menos que os Estados Unidos, segundo a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI).

Neste campo, em escala mundial, mais da metade das 51 empresas "unicórnio", startups não cotadas na Bolsa que valem mais de um bilhão de dólares, são americanas, e 25%, chinesas. A UE tem apenas uma.

- Razões do fracasso -

"Na Europa, não há um grande mercado digital (...), temos um mosaico de regras", constata Alexandre de Streel, professor de Direito da Universidade de Namur e especialista em regulamentação digital.

"Mesmo quando adotamos regras comuns, como a Regulamentação Geral sobre Proteção de Dados (RGPD), são aplicadas de maneira diferente", explica.

"A agência reguladora irlandesa de dados privados, por exemplo, é mais flexível que a agência francesa", afirma.

Uma startup europeia enfrenta 27 regulamentações diferentes que freiam seu desenvolvimento e a levam a buscar salvação nos Estados Unidos. A cultura de "capital-risco" está pouco desenvolvida no Velho Continente.

A Europa também sofre com a ausência de uma política industrial comum, já que os recursos públicos estão espalhados em vários projetos nacionais.

"Cada país tenta criar seus próprios hubs", regiões que concentram universidades, startups e grandes empresas em um campo de excelência, "mas nenhum tem peso específico", ao contrário do Vale do Silício, ou das grandes metrópoles chinesas, destaca o diretor do centro de estudos BCG Henderson Institute, François Candelon.

- Motivos para esperança -

"A ideia de que poderia existir um 'Gafam' europeu acabou. Esqueçam", afirma Candelon.

Ele considera que a Europa já perdeu a batalha da Internet para o grande público (redes sociais, ferramentas de busca, etc.) e, agora, o desafio é "a digitalização dos líderes europeus nas diferentes indústrias". Por exemplo, no setor automotivo, onde a informática é decisiva para que as montadoras Volkswagen, Daimler, ou Renault, permaneçam à frente.

Os europeus já conseguiram criar grandes plataformas digitais especializadas, como Spotify (música), Blablacar (transportes), Zalando (roupas) e Booking (turismo).

O investidor Matthieu Lattes, do fundo White Star Capital, afirma que o setor está ganhando peso na Europa: "Observamos o surgimento de novas gerações de empreendedores (...) que dizem 'eu também quero criar um gigante mundial'".

"O valor das empresas de tecnologia europeia quadruplicou nos últimos cinco anos. A Europa tem o maior número de cientistas de alto nível na Inteligência Artificial e mais desenvolvedores de softwares que os Estados Unidos", afirmou recentemente a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.

- Uma Airbus digital? -

Candelon afirma que é necessário "criar associações com as gigantes americanas da tecnologia, mas com nossas condições, de igual para igual", e as novas legislações DSA e DMA "vão neste caminho". Ele defende uma soberania europeia no campo digital.

A Comissão Europeia deve mostrar que pode ser "tão boa em política industrial quanto em regulamentação", diz Streel, que prevê uma Airbus da tecnologia.

"Depois do carvão e do aço, avancemos para a aplicação comum da produção digital", pede o fundador da Blablacar, Frédéric Mazzella.


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