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Estado de Minas

Indígenas colombianos protestam contra violência com julgamento simbólico do presidente


19/10/2020 22:25

Milhares de indígenas protestaram nesta segunda-feira (19) contra a violência que sofrem em seus territórios mediante um julgamento simbólico do presidente Iván Duque, organizado perto do palácio presidencial, no centro da capital, Bogotá.

O movimento que reúne comunidades originárias do sudoeste do país, uma das áreas que mais sofrem ameaças de grupos armados do narcotráfico, se reuniu na Praça de Bolívar, no centro da cidade, após uma viagem de nove dias a pé e em ônibus.

Ao som de tambores e cornetas, cerca de 7 mil manifestantes usando máscaras se concentraram no local sem confrontos com a força pública, resguardados pela tradicional Guarda Indígena, portando coletes, rádios e cassetetes com fitas multicoloridas.

O presidente, no entanto, não foi ao seu encontro, alegando repúdio às aglomerações em meio à pandemia.

"Ainda que o presidente não tenha dado as caras, hoje lhe dizemos que covardemente se entrincheirou", disse à AFP Hermes Pete, autoridade do Conselho Regional Indígena do Cauca (CRIC).

Os indígenas organizaram um julgamento aberto e de caráter simbólico para denunciar o governo pela violação de seus direitos fundamentais.

Embora suas reivindicações sejam várias, os indígenas fizeram sentir com força seu repúdio à onda de violência que os afeta, e que, segundo seus líderes, deixou 313 mortos em mais de dois anos do governo Duque.

O grupo que chegou no domingo a Bogotá começou dias antes uma manifestação que também contará com a participação de sindicatos e estudantes, que se mobilizarão em uma "greve nacional" convocada para quarta-feira contra o governo Duque, quase um ano depois dos grandes protestos críticos ao governo ocorridos no país.

Após a concentração, eles planejam retornar ao local de descanso e se juntar ao protesto no dia seguinte. Os povos indígenas representam cerca de 4,4% dos 50 milhões de habitantes da Colômbia.

- "Não continuem nos matando" -

Os indígenas se instalaram por algumas horas no centro da cidade, após uma marcha colorida que passou sem contratempos ou confrontos com as forças de ordem.

Acompanhados pela tradicional Guarda Indígena, com jalecos, rádios e bastões com cintas multicoloridas, conseguiram lotar parte da Praça Bolívar em uma de suas maiores demonstrações de força dos últimos anos.

"O medo acabou", disse mais cedo Ferley Quintero, do CRIC.

Segundo o dirigente, os povos originários resolveram cruzar parte do país para fazer ouvir sua voz de repúdio às políticas oficiais e ser ouvidos pelo presidente, diante de sua negativa de se reunir com eles em Cali, a 460 km de Bogotá e perto do Cauca.

Os participantes da minga - como é conhecida o coletivo indígena em Quechua - dormiram no domingo em um centro esportivo que os recebeu por ordem da prefeita de Bogotá, Claudia López, adversária do governo.

Nesta segunda-feira, eles marcharam até a Praça de Bolívar em protesto por suas vidas.

"Queremos paz, igualdade, respeito e não sermos mais assassinados", afirmou Carmen Pito, de 53 anos.

"O governo deve nos ouvir e nos receber, nós merecemos respeito como todos", acrescentou a mulher que caminhava com sua bengala.

Diante da severa crise econômica provocada pela pandemia, Duque expressou aborrecimento com a "aglomeração" dos indígenas em Bogotá em um momento em que o país está perto de atingir um milhão de casos (28.000 mortes) em sete meses da pandemia, embora tenha evitado referir-se ao pedido de encontro cara a cara solicitado pelo grupo.

O governo rejeita o diálogo direto por considerá-lo uma espécie de debate político que, em sua opinião, só pode ocorrer no Congresso.

Nesta segunda, Duque reivindicou seu "espírito aberto ao diálogo, construtivo para avançar em todos os temas", mas "sem ultimatos ou sem ter que apelar a termos como julgamentos".

No poder desde 2018, Duque enfrenta o aumento da violência simultânea em algumas partes do país, após o acordo de paz que desarmou a mais poderosa guerrilha marxista da América, em 2016.

O Estado colombiano é acusado de não ter assumido o controle dos territórios deixados pelos rebeldes, o que facilitou o fortalecimento de novas organizações que disputam o mercado do narcotráfico, entre elas as formadas por dissidentes marginalizados do processo de paz.

"Eles estão nos matando, estão acabando com a juventude. Os indígenas, os negros, nós somos a população mais vulnerável", ressaltou Javier Peña, de 46 anos, um ativista das comunidades negras que aderiram à minga.


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