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Estado de Minas

Negociadoras da paz no Afeganistão prontas para o Talibã


31/08/2020 09:31

Elas conheceram o pior do Talibã, mas logo terão que enfrentar aqueles que roubaram sua liberdade. A AFP entrevistou três das cinco negociadoras responsáveis, junto com 37 homens, por alcançar uma paz duradoura entre o governo e os insurgentes, após quatro décadas de guerra no Afeganistão.

"Teremos que enfrentar as pessoas que não acreditam na presença das mulheres", afirma Fawzia Koofi, de 44 anos, eminente defensora de seus direitos e parte dos 21 membros da delegação executiva de Cabul, que se sentará diante de 21 talibãs, todos homens.

Esta ex-deputada se orgulha de estar envolvida nas negociações, embora tenha motivos para duvidar: durante os cinco anos de poder do Talibã, seu marido foi preso e ela própria foi ameaçada de apedrejamento por usar esmalte.

Em meados de agosto, Fawzia Koofi sobreviveu a uma tentativa de assassinato, a segunda, quando homens armados abriram fogo contra ela perto de Cabul. O Talibã negou estar envolvido no ataque.

Os direitos das mulheres serão uma questão "muito difícil" de lidar com os insurgentes, que permanecem insondáveis sobre o assunto. Sob seu regime, derrubado por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos em 2001, as mulheres afegãs praticamente não tinham direitos.

De acordo com Fawzia Koofi, as negociadoras serão julgadas com muito mais severidade do que seus colegas.

"As pessoas vão olhar o que você veste, se o tamanho do seu véu está correto ou não", explica.

"Não seremos julgadas por nossos argumentos".

Os direitos das mulheres progrediram nas grandes cidades do Afeganistão, embora nas áreas rurais elas continuem a ser tratadas como cidadãs de segunda classe.

- Acordo e concessões -

Apesar de sua queda em 2001, foi impossível derrotar militarmente o Talibã, que desde então reconquistou grande parte do país.

Em fevereiro, os insurgentes assinaram um acordo com os Estados Unidos, que confirmaram a saída das tropas estrangeiras antes de meados de 2021 em troca de várias concessões, incluindo negociações de paz com o governo de Cabul, que foram adiadas por meses devido a divergências sobre uma troca de prisioneiros.

Para as mulheres, trata-se de preservar os direitos restaurados ou adquiridos desde 2001.

"O Talibã deve aceitar um novo Afeganistão, com o qual deve ser capaz de conviver", diz Fawzia Koofi.

Habiba Sarabi, de 62 anos, outra negociadora da equipe, lembra dos "tempos horríveis" sob o Talibã, antes de fugir para o vizinho Paquistão.

Sarabi, médica e ícone política, foi a primeira governadora mulher, além de ministra da Mulher e da Cultura e Educação.

Para Habiba Sarabi, a prioridade durante as negociações será a manutenção de uma República, esse "regime do qual sou cidadã", mas que pode ser perdido se o Talibã estabelecer seu tão esperado Emirado.

Para Fátima Gailani, de 66 anos, outra integrante da equipe, será preciso começar com um cessar-fogo. Tendo sido presidente do Crescente Vermelho Afegão por 12 anos, ela enfrentou o Talibã, a quem sua organização também socorria.

"Aprendi a ser neutra, a deixar de lado minhas opiniões políticas", diz Fatima Gailani.

Essa experiência vai ajudar, pois terá que iniciar as negociações sem preconceitos, insiste.

"O mais importante é encontrar valores comuns", acredita.

Para Fatima Gailani, "é obviamente o Islã".

Uma nova constituição será definida assim que o Afeganistão estiver em paz. E deve proteger as mulheres e as minorias.

"Espero ver um Afeganistão onde cada pessoa possa se sentir em seu próprio país (...), um Afeganistão onde nos sintamos seguros", explica Gailani. "Se não conseguirmos agora, nunca conseguiremos".


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