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Estado de Minas

Coronavírus: Brasil tem uma das maiores taxas de letalidade do mundo

O país ocupa a sétima posição entre os 20 países que mais registraram mortes em decorrência da COVID-19, ficando à frente dos Estados Unidos


postado em 05/05/2020 04:00 / atualizado em 05/05/2020 09:15

No Chipre, ainda há vagas no CTI: o país que consegue controlar o número de doentes aumenta a chance de não faltar leitos nos hospitais(foto: Iakovos Hatzistavrou/AFP)
No Chipre, ainda há vagas no CTI: o país que consegue controlar o número de doentes aumenta a chance de não faltar leitos nos hospitais (foto: Iakovos Hatzistavrou/AFP)
 
A técnica de enfermagem Danielle Costa alertou para a gravidade da COVID-19 com lágrimas nos olhos. Carregado de sofrimento, o vídeo gravado por ela sensibilizou todo o país. Dias depois da gravação, ela morreu pelas complicações da doença, em 27 de abril, no Rio de Janeiro, após relatar a saga para conseguir atendimento na rede pública, mesmo ela sendo uma profissional de saúde. Danielle é um dos rostos das mais de 7 mil mortes que ocorreram no Brasil em decorrência do novo coronavírus, que colocam o país nas primeiras posições no que se refere a óbitos.
 
Já expressivo, o número de mortos tende a aumentar nos próximos dias, isso porque o Brasil tem uma das maiores taxas de letalidade do mundo.  Na lista dos 20 países, onde foram registradas 86% de todas as mortes no mundo pela COVID-19, o Brasil ocupa a sétima posição, com taxa de letalidade de 7%. O índice é maior inclusive que o dos Estados Unidos, que concentram 33% de todas as mortes mundiais.
 
No início do surto da COVID-19, em Wuhan, os dados daquela cidade chinesa mostraram uma letalidade de apenas 2,3%. “Com a disseminação do vírus pelo mundo, com a ocorrência de tantos casos, por alguma razão que pode ser mesmo mutações do vírus, a sua letalidade aumentou muito, apresentando-se de formas diferentes entre os países”, afirma o professor do UNI-BH Bráulio Roberto Gonçalves Marinho Couto.
 

"Com a disseminação do vírus pelo mundo, a sua letalidade aumentou muito, apresentando-se de formas diferentes entre os países"

Bráulio Roberto Gonçalves Marinho Couto, professor do UNI-BH

 
 
O grupo de pesquisa do curso de medicina do qual faz parte tem elaborado estatísticas para o comitê de enfrentamento da doença formado no estado. O levantamento das taxas de letalidade no mundo foi feito por ele a partir de dados informados pelo Centro Europeu para Prevenção de Controle de Doenças (ECDC), com informações registradas oficialmente pelos países com dados válidos até 30 de abril de 2020. Nesse ranking, chama a atenção a taxa de letalidade em países europeus (França, Reino Unido, Bélgica, Itália, Holanda e Espanha), que apresentaram percentual acima de 1
0%. No Brasil, o risco de um paciente com COVID-19 vir a morrer por causa do vírus é de 7%.
A pandemia do novo coronavírus assusta à medida que avança e mata mais de 230 mil pessoas em todo o mundo. A população mundial contaminada ultrapassa os 3 milhões de pessoas em 207 países. De cada três registros de COVID-19 no mundo, um ocorre nos Estados Unidos, que representam 33% de todos os casos diagnosticados até o momento. Somente 20 países apresentaram 86% dos casos registrados no mundo e 93% dessas mortes  ocorreram nessas nações.
 
 
 
A taxa de letalidade é um parâmetro usado para medir a gravidade. Ela é representada pelo percentual de pacientes com a doença que evoluem para óbito em decorrência dela. Em outras palavras, a letalidade mede a chance de uma pessoa morrer em consequência de uma intercorrência, neste caso pelo novo coronavírus. “A taxa de letalidade é bem diferente da taxa de mortalidade. Enquanto a letalidade mede a chance da pessoa com a doença vir a morrer em consequência dela, a mortalidade mede a chance de uma pessoa sem a doença vir a tê-la e, em seguida, morrer. Para se ter uma ideia melhor desta diferença, enquanto a mortalidade por raiva humana é próxima de zero, a sua letalidade é de 100%”, explica o professor Bráulio.
 
O professor Unaí Tupinambás, chefe do serviço de infectologia do Hospital das Clínicas, lembra que a letalidade da COVID-19 varia de 1,5% a 11%. O professor acredita que o aumento da taxa no Brasil se deve à incidência elevada em algumas cidades, como Manaus e Fortaleza. A letalidade está relacionada tanto à severidade do vírus quanto às condições de atendimento na rede de saúde.
“Uma coisa é atender 100 pessoas numa semana e outra é atender 100 pessoas em oito se- manas. Com mais tempo, o atendimento é melhor. Não vão faltar leitos nos hospitais, leitos no CTI, leitos com respirador”, destaca. Ele lembra que se a pessoa chega à unidade de saúde para ser atendida e fica horas na fila, corre mais riscos de morrer. É bem diferente de quando ela tem um atendimento imediato, fazendo com que as chances de melhora sejam maiores.
 
Para o presidente da Sociedade Mineira de Infectologia, Estêvão Urbano, é preciso levar em consideração a subnotificação para entender a taxa de letalidade. “A taxa está relacionada à subnotificação. Nossa subnotificação é maior do que a de outros países. Isso, obviamente, joga a taxa para cima”, diz. O especialista explica que, com a subnotificação, as autoridades de saúde detectam menos casos, o que impacta na taxa de letalidade, a razão entre casos detectados (confirmados) e número de óbitos.
 
Ele sugere pensar a partir de uma equação: o número de óbitos em relação ao número de casos confirmados. Se houver alteração na quantidade de casos confirmados e for mantido o número de óbitos, a taxa de letalidade se altera: a taxa será maior quanto menos casos forem confirmados. Estêvão lembra que, quando há muitos casos diagnosticados, a razão se dilui e fica mais baixa. Ele diz que também deve-se levar em conta ao analisar a taxa de letalidade a qualidade do atendimento médico que o paciente com a COVID-19 recebe.
 
fazendo 
a conta 
 
Para se calcular a mortalidade, divide-se o total de óbitos pela doença pela população total exposta à mesma. Já na letalidade, divide-se o total de óbitos pela doença pelo total de pessoas infectadas pela mesma. Um exemplo: no caso da doença da raiva humana, a mortalidade é o total de óbitos por raiva humana dividido pela população brasileira. 

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