Publicidade

Estado de Minas

Ministro da Justiça Sergio Moro renuncia por 'interferências políticas' de Bolsonaro


postado em 24/04/2020 16:26

O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro, símbolo da luta contra a corrupção, anunciou sua demissão nesta sexta-feira (24), após denunciar uma tentativa de "interferência política" por parte do presidente Jair Bolsonaro, mergulhando o governo em uma nova crise em meio à pandemia do novo coronavírus.

A gota d'água para a sua decisão, segundo Moro, foi a destituição do diretor-geral da Polícia Federal (PF), órgão independente de investigação subordinado ao ministério da Justiça, publicada de madrugada no Diário Oficial.

"O presidente me disse mais de uma vez que ele queria ter uma pessoa do contato pessoal dele [na Polícia Federal], que ele pudesse ligar, colher relatórios de Inteligência. Realmente não é o papel da Polícia Federal prestar esse tipo de informação. As investigações devem ser preservadas", denunciou Moro em coletiva de imprensa em Brasília.

Também afirmou que Bolsonaro disse estar "preocupado" com algumas investigações em andamento e que esta foi uma das razões pelas quais queria mudar o chefe da PF, Maurício Valeixo, nomeado por Moro.

O agora ex-ministro alertou o presidente de que se tratava de uma mudança injustificada e que implicaria uma "interferência política" na instituição, mas Bolsonaro seguiu adiante com seu plano.

"Este ato foi um sinal de que o presidente me quer fora do cargo", acrescentou Moro, que esperava que Bolsonaro cumprisse sua promessa de lhe dar total liberdade para nomear seus assessores, incluindo o diretor-geral da PF.

A renúncia de Moro, o ministro mais popular de todo o gabinete, derrubou a Bolsa de São Paulo em 8% e fez a cotação do dólar disparar, chegando a estratosféricos 5,70 reais.

Também gerou críticas no meio político, entre elas a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), que afirmou no Twitter que Bolsonaro "está cavando sua fossa" e chegou a pedir sua renúncia.

No mesmo Twitter, Bolsonaro anunciou que fará um pronunciamento às 17h para "restabelecer a verdade" sobre a renúncia de Moro.

Moro é o segundo ministro-chave que sai do governo nas últimas semanas. O ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, foi demitido após insistir na necessidade de manter medidas de distanciamento social horizontal para enfrentar a pandemia do novo coronavírus, contrariando o parecer de Bolsonaro.

- Discurso anticorrupção debilitado -

Nos bastidores, a mudança do diretor da Polícia Federal é vista como uma tentativa de controlar investigações que cercam a família do presidente e aliados políticos.

"Bolsonaro quer se proteger. Cabe à PF investigar suspeitas de vários crimes que rondam o presidente, sua família e seus aliados", afirma Sylvio Costa, fundador do site especializado em cobertura política Congresso em Foco.

Em seu discurso de renúncia, Moro não se referiu a nenhum caso em específico, mas destacou que não foram registradas tentativas de interferência semelhantes nem mesmo no auge da operação Lava Jato, que teve início em 2014, sob o governo do Partido dos Trabalhadores (PT).

A Lava Jato revelou um gigantesco esquema de corrupção entre políticos, empresários e funcionários da Petrobras e levou à prisão importantes figuras empresariais e políticas, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Analistas apontam que a saída de Moro coroa um processo de "politização" de organismos governamentais que combatem a corrupção, apesar do discurso de transparência e honestidade que Bolsonaro defendeu durante a campanha eleitoral de 2018.

"Desde que assumiu o governo [em janeiro de 2019], Bolsonaro tentou intervir em uma série de órgãos anticorrupção com o objetivo de aumentar seu controle sobre futuras investigações", aponta o analista Thomaz Favaro, da consultora Control Risks.

Favaro destaca como exemplo a nomeação do procurador-geral, Augusto Aras, escolhido pelo presidente por fora da lista sugerida pelos promotores brasileiros, uma tradição que era respeitada por todos os presidentes pelo menos desde 2003.

A saída de Moro "é um sinal de uma nova e perigosa fase para o Brasil", porque "a autonomia da Polícia Federal (e o império da lei) é um fundamento essencial da governança democrática", alerta Ilona Szabó, diretora-executiva do instituto de pesquisas Igarapé, do Rio de Janeiro.

Moro, que abandonou uma carreira de juiz de mais de duas décadas para assumir um cargo no governo, afirmou que além de querer preservar a autonomia das instituições, renunciou para "preservar sua biografia".

Embora ainda tenha alta popularidade, Moro sofreu um duro golpe em sua reputação, depois que o portal The Intercept Brasil revelou, em junho de 2019, supostas mensagens privadas trocadas entre ele e os procuradores da 'Lava Jato', que sugerem certa intimidade entre as partes e questionam sua imparcialidade como juiz no processo.


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade