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Estado de Minas

Líder checheno enfrenta pandemia com medo e ameaças


postado em 24/04/2020 10:01

A jornalista Elena Milashina já havia recebido ameaças de morte antes, mas nunca tão diretamente quanto as do líder da Chechênia, Ramzan Kadyrov, que incitou a violência contra ela nas redes sociais por seus artigos sobre o novo coronavírus.

Ramzan Kadyrov "foi direto ao dizer o que faria comigo, e como. Foi a primeira vez que ele falou assim, tão concretamente", disse Milashina, de 42 anos, à AFP.

"Se a ameaça for real, não posso garantir minha vida", acrescentou.

A resposta de Kadyrov à pandemia de coronavírus fortalece sua reputação como um homem intolerante com a dissidência, ou com críticas, com novas acusações de uso de intimidação policial e censura à imprensa.

"Depois de entender a gravidade do vírus, decidiu combatê-lo com força excessiva característica, como sempre, usando medidas duras e intimidação", disse Ekaterina Sokirianskaia, diretora do Centro de Análise e Prevenção de Conflitos e observadora de longa data da Chechênia.

"Isso é algo que ele sabe fazer", apontou, referindo-se a Kadyrov.

Kadyrov emergiu como o número um incontestável da Chechênia após o assassinato de seu pai, Akhmad, em um ataque a bomba em 2004 na capital chechena, Grozny.

O governo russo atribui a esse homem a capacidade de trazer estabilidade à região após uma insurgência islamita que se seguiu a duas guerras. Grupos de direitos humanos dizem que isso é feito recorrendo a todo o tipo de abusos, como assassinatos e sequestros.

- Assumir o "fardo" -

Quando a pandemia atingiu a Rússia, circularam vídeos que mostravam a polícia chechena patrulhando as ruas e impondo um toque de recolher com cassetetes.

Imediatamente soaram alertas nas mesquitas da república, de maioria muçulmana, sobre punições por romper a quarentena e por não usar equipamentos de proteção em locais públicos.

A república registrou 347 casos de coronavírus e seis mortes, mas os observadores temem que o número seja maior. A Rússia contabiliza mais de 60.000 casos e mais de 550 mortes.

Algumas das respostas de Kadyrov à crise refletem seu estilo habitual e imprevisível. Quando os chechenos reclamaram que os cabeleireiros estavam fechados, ele apareceu com a cabeça raspada e disse: "Todos os nossos salões de beleza estão fechados. Assim como nossos ancestrais, decidi raspar a cabeça!".

Mas a bravata veio acompanhada de ameaça. Kadyrov afirmou que as pessoas que descumprissem a quarentena deveriam ser "mortas" e comparou os chechenos que não mantêm o isolamento e infectam outros a "terroristas" que devem ser enterrados em poços.

Em um artigo de 12 de abril intitulado "Morrer pelo coronavírus é um mal menor", Milashina relatou que os chechenos estão combatendo o vírus em suas casas, em vez de procurar assistência hospitalar, por medo de punição.

As autoridades "pensam que a principal ameaça são os críticos, não o vírus. Podem parar a informação, mas não o problema", declarou à AFP.

Um dia após a publicação do artigo, Kadyrov ridicularizou seu jornal, o Novaya Gazeta, como "fantoche do Ocidente" e convocou o Kremlin a "deter os desumanos que escrevem e provocam nosso povo".

"Se quer que cometamos um crime e nos tornemos criminosos, apenas diga. Um (de nós) arcará com esse fardo, essa responsabilidade, e será punido de acordo com a lei... Não faça de nós bandidos e assassinos", disse.

Quando perguntado sobre os comentários de Kadyrov, o porta-voz do presidente Vladimir Putin, Dmitry Peskov, disse que a resposta do líder checheno "não foi nada fora do comum".

Em um golpe final, o procurador-geral ordenou a remoção do artigo e considerou que representava uma ameaça à saúde pública.

A resposta morna do Kremlin à ameaça levou à condenação em casa e no exterior.

Mais de 100 figuras da sociedade civil na Rússia pediram a proteção do Estado para Milashina e uma investigação.

"O Kremlin está usando a crise da COVID-19 como uma desculpa para responsabilizar Kadyrov por uma óbvia ameaça de morte", disse a diretora associada da Human Rights Watch para a Europa e a Ásia Central, Tanya Lokshina.

Milashina não tem, porém, esperança de uma investigação.

Depois que ela e um advogado de defesa dos direitos humanos foram agredidos em um hotel em Grozny em fevereiro deste ano, uma investigação policial sobre o incidente foi arquivada sem prisões e após a perda das imagens das câmeras de segurança.


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