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Estado de Minas

'Se tiver coronavírus, não vou contar', dizem migrantes presos nos EUA


postado em 23/04/2020 14:07

Marcos e sua mulher fugiram da Venezuela em busca de refúgio nos Estados Unidos, mas, desde agosto de 2019, ele aguarda em uma prisão para imigrantes. Com o avanço da COVID-19 nos centros de detenção, ambos temem por sua vida, já que ele é imunodeprimido.

"Se tiver coronavírus, não vou contar", disse Marcos por telefone à AFP, de uma prisão no sul do Texas, de onde denunciou que vive em um espaço comum com cerca de 100 pessoas.

Segundo sua advogada, o centro tem duas pessoas contaminadas pelo coronavírus.

"Vai comer minhas defesas", disse Marcos, um ex-policial de 47 anos que fugiu de seu país por discordar de seus chefes da prática de tortura e por ter-se negado a entregar armas aos chamados "coletivos" - civis pró-governo, acusados pela oposição de formarem "grupos armados paramilitares".

"Estou muito assustado. Já quero que me isolem", continuou, relatando que o ar-condicionado está ligado constantemente, o que lhe dá problemas na garganta e na pele.

"Não tem ideia de como estamos fracos. Parecemos uma radiografia", desabafou Marcos, relatando que o avanço do coronavírus acabou com a saída para um campo que acontecia uma vez por mês.

"Vão nos matar, aqui, trancados", denunciou.

Embora tenha pedido asilo político, Marcos continua detido porque, há 23 anos, morou nos Estados Unidos e mentiu em um formulário, dizendo que era cidadão.

Enquanto ele está no centro de detenção, sua mulher e seus dois filhos gêmeos estão na casa da cunhada, na Flórida.

"Não quero morrer com essa doença", disse à AFP sua mulher, Osmary, de 42 anos.

"Quero que, no mundo inteiro, se saiba o que está acontecendo com os imigrantes nos Estados Unidos", acrescentou.

Nestes centros, o coronavírus avança exponencialmente e, em todo país, já são pelo menos 46.583 mortos por coronavírus.

Nas prisões para imigrantes, administradas pelo ICE (o Serviço de Imigração e Controle Alfandegário), há 287 casos oficialmente. Associações de defesa dos direitos humanos denunciam, porém, que o número de infectados é bem maior, devido à subnotificação.

- Barril de pólvora

O médico Jody Rich - epidemiologista da Brown University - disse à AFP que, em qualquer centro de detenção, é impossível manter o "distanciamento social" para prevenir a doença.

Rich e outro médico, dr. Scott Allen, que trabalharam como especialistas para o Escritório de Direitos Civis e Liberdades do Departamento de Segurança Interna, alertaram o Congresso sobre a ameaça, para imigrantes, funcionários e população local, do surto de COVID-19 nos centros do ICE.

Em uma carta enviada em março passado para o Congresso, eles advertiram que a situação é um "barril de pólvora".

À AFP, o ICE declarou que, devido à natureza "sem precedentes" da pandemia atual, estão revisando a situação, "caso a caso".


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