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Estado de Minas

No Reino Unido, coronavírus atinge mais as minorias


postado em 16/04/2020 09:37

"Quando meu pai morreu de coronavírus, amigos que não usavam máscara nem luvas queriam nos abraçar", conta à AFP Amer Awan, um promotor imobiliário britânico, ainda emocionado com a difícil decisão que teve de tomar.

Awan, que vive em Birmingham (centro), resolveu na semana passada desconectar o respirador que mantinha vivo seu pai Nazir, de 68, que chegou ao Reino Unido procedente do Paquistão há 56 anos.

Para Amer, de 44, as tradições e a cultura de certas minorias as tornam mais vulneráveis à pandemia que está atingindo o país com força.

Isso não é suficiente, porém, para explicar por que as comunidades negras, asiáticas, ou de outras minorias étnicas, compõem um terço dos pacientes mais afetados pelo coronavírus nos hospitais, de acordo com um estudo do Centro Nacional de Pesquisa e Auditoria de Cuidados Intensivos (ICNARC) britânico.

E isso apesar do fato de que essas minorias representam apenas 14% da população da Inglaterra e do País de Gales.

Para o dr. Chaand Nagpaul, que chefia a Associação Médica Britânica, isso é "extremamente perturbador e preocupante".

"Somos informados de que o vírus não discrimina indivíduos, mas pessoas de minorias étnicas, especialmente negros e asiáticos, estão super-representadas entre os casos mais graves", informou este médico em entrevista recente ao jornal "The Guardian".

O mesmo ocorre entre os profissionais da saúde. Alfa Sa'adu, Jitendra Rathod, Mohamed Sami Shousha, Syed Haider: os dez primeiros médicos mortos por coronavírus no Reino Unido eram todos imigrantes, ou filhos de imigrantes.

"A morte desses dez médicos não é uma coincidência", denunciaram vários membros da oposição trabalhista em uma carta ao ministro da Saúde, Matt Hancock, na qual exigem "urgentemente" uma investigação do governo.

- "Vistos como estrangeiros" -

"Tragicamente, as pessoas que vieram fazer sua vida aqui constituem um número desproporcional de mortes (do coronavírus) no NHS", o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, admitiu Hancock no domingo (12).

Isso é explicado por sua forte presença entre o pessoal médico. As duas enfermeiras elogiadas no domingo pelo primeiro-ministro Boris Johnson ao deixar o hospital onde foi tratado pela COVID-19 são imigrantes - uma, de Portugal, e outra, da Nova Zelândia.

Como elas, 12% dos profissionais da saúde no Reino Unido são imigrantes, de acordo com o Serviço Nacional de Estatísticas. Em Londres, uma das áreas mais afetadas pela epidemia, essa proporção chega a 23%.

"Os médicos das minorias frequentemente lutam por tratamento igual e ainda são vistos como estrangeiros por seus chefes, dos quais não recebem o apoio necessário", dizem os deputados trabalhistas em sua carta, apoiando-se em um estudo do NHS, no qual se constata que são "duas vezes menos propensos a reclamar", especialmente na ausência de material.

Entre os pacientes, essas estatísticas alarmantes resultam de uma mistura de predisposições genéticas e fatores socioculturais.

Pessoas do sudeste da Ásia "geralmente vivem em lugares mais desfavorecidos e são mais predispostas a diabetes, ou a doenças cardiovasculares", explica o dr. Kamlesh Khunti, que liderou o estudo do ICNARC.

Para a dra. Zubaida Haque, porém, há um forte componente socioeconômico. Segundo ela, integrantes das minorias têm, acima de tudo, "maior probabilidade de ocupar empregos mal remunerados e de serem trabalhadores essenciais" (entrega, transporte, pessoal de saúde, limpeza, etc.).

Isso "os coloca mais em contato com o coronavírus e aumenta o risco de doenças graves e morte", explicou à BBC.

Somado a isso está o fato de que costumam viver em "grandes famílias".

"Às vezes, você pode ter até quatro gerações vivendo sob o mesmo teto", acrescenta Amer Awan, para quem "algumas pessoas em nossas comunidades não levam a sério as medidas de distanciamento social".

Amer, arrasado por não poder "abraçar" sua mãe após a morte de seu pai, está pronto para dar o exemplo: "Precisamos agir, fazer a coisa certa, ou então veremos os números aumentarem".

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