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Estado de Minas

Indianos que combatem o coronavírus sofrem marginalização e agressões


postado em 27/03/2020 08:19

Na Índia, as autoridades e a imprensa elogiam médicos, enfermeiros, entregadores ou funcionários de companhias aéreas, "heróis" da luta contra a pandemia. Mas a população mais paranoica os ataca e até os expulsa de suas casas.

Nos últimos dias foram registradas muitas agressões contra pessoas que trabalham em setores essenciais do país de 1,3 bilhão de habitantes, que na quarta-feira entrou em confinamento.

O fenômeno aumentou tanto que até os políticos estão alarmados. O primeiro-ministro Narendra Modi abordou o "enorme problema" do assédio ao pessoal da saúde.

Alguns sites de vendas on-line interromperam os negócios devido, em parte, à hostilidade contra suas equipes. Em pelo menos um caso, a polícia foi acusada de bater em um entregador que entregava remédios.

Sanjibani Panigrahi, uma médica da cidade de Surate (Gujarat, oeste), foi abordada em seu retorno para casa após um longo dia de trabalho em um hospital que trata pacientes infectados com coronavírus.

Seus vizinhos a bloquearam na entrada do apartamento e a ameaçaram com "consequências" se ela continuasse trabalhando, disse à AFP.

"São as mesmas pessoas que se relacionavam muito bem comigo. Quando tinham um problema, eu as ajudava", lamenta a mulher de 36 anos.

"As pessoas têm medo. Eu entendo. Mas é como se de repente eu me tornasse intocável", declara.

Esta semana, os médicos do All India Institute of Medical Sciences de Nova Delhi, o hospital público mais famoso do país, pediram ajuda ao governo depois que alguns funcionários foram expulsos de suas casas pelos proprietários ou pelo condomínio.

"Muitos médicos estão na rua com suas malas, sem ter para onde ir, em todo o país", escreveram em carta aberta.

- Párias -

Depois de se encontrar com médicos e enfermeiras, Narendra Modi pediu aos indianos que parassem de tratá-los como párias.

"Essas são as pessoas que atualmente estão nos salvando da morte, que estão colocando suas vidas em perigo", disse ele.

Mas o pessoal da saúde não é o único marginalizado nesse clima de suspeita onde proliferam rumores e informações falsas. Outros afetados são os funcionários de companhias aéreas ou aeroportos, mobilizados para trazer os cidadãos indianos bloqueados no exterior ou para lidar com remessas de carga.

Duas das principais companhias aéreas do país, Air India e Indigo, divulgaram declarações condenando os ataques às suas equipes.

Os vizinhos de uma comissária de bordo da Air India, que deveria ir para os Estados Unidos, ameaçaram expulsá-la do apartamento e disseram que ela iria "infectar todo mundo".

"Naquela noite, não consegui dormir", disse a aeromoça, que pediu anonimato. "Fiquei com medo de chegar em casa e alguém arrombar a porta ou chamar pessoas para me expulsar".

Seu marido teve que ligar para a delegacia para acalmar os ânimos.

Mas outros não tiveram tanta sorte, diz a aeromoça. Uma de suas colegas, que não quis falar com a AFP, foi expulsa de sua casa e teve que morar com os pais.

"Com todas as informações falsas e mensagens no WhatsApp, as pessoas não sabem o que está acontecendo, então surge uma paranoia que as faz se comportar dessa maneira", explica a aeromoça.


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