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Estado de Minas

As perguntas essenciais sobre o conflito na Líbia


postado em 19/01/2020 16:13

Vários países se reúniram neste domingo (19) em Berlim para consolidar o cessar-fogo e tentar pôr fim à interferência estrangeira na Líbia, um rico Estado petroleiro mergulhado no caos desde 2011. Seguem abaixo os elementos centrais por trás da insegurança e anarquia política na Líbia, e as motivações dos protagonistas:

- Por que a guerra? -

As milícias e os grupos armados lutaram pelo território e o controle dos recursos petroleiros da Líbia a partir da revolta que derrubou e matou o ditador Muamar Khadafi. Mas duras autoridades rivais estão travadas na disputa pelo poder.

O Governo de União Nacional (GNA), com sede em Trípoli, liderado por Fayez Al-Sarraj e formado em 2016, após um acordo mediado pela ONU, opõe-se à liderança baseada no leste do país, liderada pelo militar Khalifa Haftar.

Haftar reivindica sua legitimidade do parlamento eleito em 2014, que se refugiou no leste da Líbia depois que uma coalizão da milícia ocidental tomou o controle da capital, Trípoli.

Vários países, incluindo os vizinhos Egito, Emirados Árabes e França, elogiam Haftar por sua campanha militar contra o islã, e alguns oferecem apoio militar e logístico.

Depois de expulsar os islamitas da cidade oriental de Benghazi, Haftar se voltou, em janeiro de 2019, para as regiões desérticas do sul da Líbia, capturando-as rapidamente depois de reunir as tribos locais. Em abril passado, suas forças lançaram uma ofensiva para expulsar o GNA de Trípoli.

- Por que atacar Trípoli? -

Mesmo antes da campanha de Trípoli, o poder de Haftar havia se expandido, até cobrir a maior parte do território líbio, incluindo uma série de centros de exportação de petróleo ao longo da costa nordeste. A receita do petróleo vai para o GNA, reconhecido pela ONU, e, então, é distribuída pelo país.

Segundo uma fonte diplomática ocidental, o objetivo de Haftar era conseguir uma vitória rápida e apresentar à comunidade internacional um fato consumado. Mas apesar dos avanços iniciais na periferia sul de Trípoli, a batalha pela capital está há meses estancada.

Ao que tudo indica, Haftar não levou em conta a mobilização de milícias ocidentais poderosas, que o classificam como novo ditador da Líbia.

- Que países estão envolvidos? -

Além de Egito, Emirados Árabes, e Arábia Saudita, França e Rússia, pelo menos, ofereceram apoio diplomático a Haftar, embora Moscou negue ter financiado mercenários russos.

Os Estados Unidos pareceram mostrar de que lado estão quando o presidente Donald Trump elogiou Haftar em telefonema após o lançamento de sua campanha de Trípoli. Mas os americanos permaneceram ambíguos, apesar de expressarem sua oposição ao papel crescente da Rússia, que patrocinou com a Turquia o último cessar-fogo. A trégua se manteve desde que o acordo entrou em vigor, em 12 de janeiro.

A Turquia, por sua vez, enviou um número limitado de tropas à Líbia, em virtude de um acordo militar com o GNA, que também conta com o apoio do Catar.

A Anistia Internacional disse que observa "um desprezo sistemático pelo direito internacional, impulsionado pelo fornecimento contínuo de armas a ambas as partes, em violação do embargo de armas da ONU", em vigor desde 2011.

"A comunidade internacional deve defender o embargo de armas da ONU, que Turquia, Emirados Árabes, Jordânia e outros países violaram de forma flagrante", disse em outubro o investigador da Anistia Brian Castner.

- O que a Turquia quer? -

Analistas dizem que a participação turca é motivada pela geopolítica e ideologia. Seu objetivo é minimizar a influência dos rivais regionais Egito e Emirados Árabes. O país também tem interesses econômicos, já que selou com o GNA um acordo marítimo para apoiar suas reivindicações sobre reservas de hidrocarbonetos no Mediterrâneo oriental, em que enfrenta a oposição de Grécia, Egito, Israel e Chipre.

- O que a Rússia faz na Líbia? -

A Rússia considera a Líbia uma oportunidade "comercial, mas também geoestratégica e simbólica", segundo Jalel Harchaoui, do Instituto Clingendael, em Haia. O especialista diz que a presença da Rússia na Líbia permitiu a Moscou minimizar a influência da Otan e União Europeia no norte da África e mostrar que poderia ter êxito onde o Ocidente - com a rebelião de 2011, que Moscou alertou que provocaria o caos - havia falhado.

- E os europeus? -

Os europeus temem que a internacionalização crescente do conflito possa converter a Líbia em uma "segunda Síria". Eles querem reduzir a pressão migratória que emana da costa líbia e as ameaças jihadistas.


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