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Estado de Minas

Irã reforça seu poder no Iraque apesar de revolta popular contra sua influência


postado em 29/11/2019 10:37

Em plena revolta popular no Iraque, consulados do vizinho Irã foram atacados e retratos de seus líderes acabaram rasgados em praça pública. Apesar disso, a influência da República Islâmica no poder iraquiano foi reforçada, segundo especialistas.

Em Nayaf, uma cidade sagrada xiita simbólica localizada ao sul de Bagdá, que vive em grande parte do turismo religioso de peregrinos iranianos, centenas de manifestantes gritaram na quarta-feira "Fora, Irã!" ou "Vitória do Iraque!", enquanto as chamas devoravam o consulado da República Islâmica na localidade.

"A ingerência do Irã, mesmo que discreta, irritou muitos iraquianos", disse Ali Husein, um manifestante em Nayaf. O ataque ao consulado, diz ele, "é uma mensagem clara ao Irã para rever seu papel no Iraque".

No início de novembro, um mês após o início de um movimento de protesto contra o poder iraquiano - que deixou cerca de 400 mortos - outros manifestantes já tentaram colocar uma bandeira iraquiana no consulado iraniano em Kerbala, outra cidade sagrada xiita de país.

- Minoria sunita -

Com uma audácia até agora exibida apenas nas regiões sunitas - minoritárias no país, onde dois terços dos habitantes são xiitas - os manifestantes queimaram os quartéis generais das facções armadas pró-Irã, que formam o segundo bloco do parlamento iraquiano. Eles também expressaram sua rejeição às repetidas visitas do todo-poderoso general iraniano Qasem Soleimani, encarregado das operações externas dos Guardiães da Revolução.

Esse general conseguiu unir os partidos no Iraque em torno do primeiro-ministro Adel Abdel Mahdi, que renunciará no parlamento após ter ficado enfraquecido com as manifestações.

Os manifestantes iraquianos também acusam seu grande vizinho de destruir a indústria do Iraque ao inundar o mercado com produtos como carros ou tomates, no valor de 6 bilhões de euros por ano.

"O sentimento anti-Irã não é novo, mas, sim, é o modo como é expresso", diz Fanar Haddad. "A raiva está concentrada no sistema político iraquiano e naturalmente se estende ao Irã, porque é impossível dissociá-las", explica esse especialista sobre o Iraque.

Sob Saddam Hussein, o Irã já cultivou uma importante rede de oponentes do ditador sunita, apoiadores da causa xiita ou curda e até mesmo entre algumas tribos sunitas. Agora Teerã se compromete com esses setores que estão no poder hoje no Iraque.

Além disso, o Irã se tornou um elemento indispensável para o fornecimento de eletricidade e gás ao Iraque por bilhões de euros.

Quando o protesto começou em 1º de outubro, exigindo serviços públicos eficazes, fornecimento confiável de eletricidade e empregos em um país onde várias fábricas permanecem fechadas após a invasão dos EUA em 2003, os manifestantes rapidamente direcionaram sua raiva contra o Irã.

- "Panela fervendo" -

A prosperidade prometida após a vitória de dois anos atrás sobre os jihadistas do grupo Estado Islâmico (EI) ainda não chegou, avalia Maria Fantappie, do think tank International Crisis Group (ICG).

E, acima de tudo, a classe política não foi renovada neste país, a décima segunda mais corrupta do mundo.

"A revolta levantou a tampa de uma panela que já estava fervendo", diz a especialista. Disso "emergiu" o sentimento anti-Irã.

Os especialistas alertam, contudo, que as crescentes críticas ao Irã no Iraque podem provocar como reação mais violência na repressão.

"O incêndio do consulado (em Nayaf) obviamente abala o Irã, mas também pode ser usado como pretexto para endurecer a resposta das forças de segurança", diz Haddad.

O dia seguinte a este ataque foi um dos mais violentos nos dois meses de protestos, com mais de 40 manifestantes mortos na repressão das forças de segurança.

É verdade que "a reputação do Irã foi prejudicada para público iraquiano", admite Fantappie. Mas sua "reação natural foi fortalecer seu poder nos aspectos políticos e de segurança", indica.


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