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Estado de Minas

Delegada afegã na ONU quer incluir juventude talibã na paz


postado em 29/10/2019 17:49

A delegada da juventude do Afeganistão na ONU, Aisha Khurram, pretende ouvir a voz dos jovens de seu país, incluindo os talibãs, para pôr fim à guerra que devasta o país há quase 40 anos.

"Durante décadas e inclusive séculos, nossos medos e nosso futuro foram decididos por aqueles que fazem guerra", afirmou à AFP a estudante de Relações Internacionais da Universidade de Cabul.

"Uma verdadeira paz somente pode chegar se incluir toda a população", assegura Khurram, de 20 anos, cuja história pessoal coincide com a de seu país.

Nascida no Paquistão, filha de pai comerciante e mãe dona de casa que haviam fugido da guerra, descobriu o Afeganistão criança, em 2004, três anos depois que a coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos expulsou os talibãs do poder.

No dia 7 de outubro, Khurram foi designada "jovem delegada" nas Nações Unidas por um prestigiado jurado, após uma seleção rigorosa, com 100 candidatos.

A jovem se propõe a levar a voz dos jovens de um país em que os menores de 18 anos, que sofreram com o conflito durante suas vidas inteiras, representam a metade dos 37 milhões de habitantes.

"Eles não são ouvidos nunca, e têm o direito de serem ouvidos", assegura.

A classe política afegã continua estando mais ou menos dominada pelos mesmos atores desde o começo do século. Os líderes de barba branca, acusados das piores atrocidades, ocuparam os mais altos cargos do governo.

É imperativo, portanto, incluir os "jovens", que são "dois terços da população" e se encontram "tanto no seio do exército como nas fileiras dos insurgentes", afirma Khurram.

"O verdadeiro objetivo é chegar aos jovens insurgentes", reconhece, enquanto o governo de Cabul perde a cada dia um pouco mais o controle do território afegão.

"Antes que se unam aos grupos extremistas (...) devemos criar oportunidades para eles. Temos que escutar sua voz, considerar seu direito à educação, as oportunidades profissionais", avalia.

Os talibãs participam de um violento combate desde 2001 com as forças de segurança afegãs, apoiadas por tropas internacionais. O grupo Estados Islâmico também intensificou seus atentados desde 2015.

Chegar aos jovens talibãs se anuncia "difícil", opina Thomas Ruttig, responsável pela Rede de Analistas Afegãos (AAN). "Seus líderes farão de tudo para impedi-lo, por medo de uma divisão em seu movimento", acrescentou.

- "Direito à vida" -

Espera-se que os delegados da juventude façam suas vozes serem ouvidas em diversos fóruns das Nações Unidas sobre temas como o clima ou a paz, que o Afeganistão não conhece desde a invasão soviética de 1979.

De julho a setembro, o Afeganistão teve seu trimestre mais violento em relação aos civis na última década, segundo a ONU. Nos primeiros nove meses de anos, mais de 2.500 morreram.

"O verdadeiro limite, que afeta a todos, é o direito à vida. Os outros direitos vêm depois", destaca Khurram.

Para ela, o movimento on-line #MyredLines "ignora as mulheres que vivem fora da capital", que desejam, antes de tudo, viver seguras.

Esse movimento foi lançado por mulheres que temiam que seus direitos pudessem ser rebaixados nas negociações entre os talibãs e os Estados Unidos.

Os Estados Unidos encerram em setembro essas negociações sobre uma retirada de suas tropas no Afeganistão. O projeto de acordo prévio, entre outras coisas, que foi iniciado com um diálogo com as autoridades afegãs.

O Afeganistão é um dos países mais pobres e mais corruptos do mundo. Mais da metade da população vive com menos de dois dólares por dia, segundo o Banco Mundial.

Para que os jovens de todo o país possam se reunir, deve ser celebrado no país uma primeira "jirga da juventude", nome das assembleias tradicionais afegãs, comemora Aisha Khurram.


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