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Estado de Minas MANOBRA POLíTICA

Cai populismo italiano

M5E rompe com a ultradireitista Liga e tende a formar coalizão com a centro-esquerda, mas pode haver novas eleições. Crise gera preocupação com a estabilidade econômica


postado em 21/08/2019 04:00 / atualizado em 20/08/2019 20:27

Com troca de farpas, o primeiro-ministro Conte (D) renunciou e culpou Salvini (E) pela instabilidade política(foto: ANDREAS SOLARO/AFP)
Com troca de farpas, o primeiro-ministro Conte (D) renunciou e culpou Salvini (E) pela instabilidade política (foto: ANDREAS SOLARO/AFP)

 
 
O primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, anunciou ontem sua renúncia e o fim do primeiro governo populista, ruptura da aliança entre a ultradireitista Liga, de Matteo Salvini, e o Movimento 5 Estrelas (antissistema), que abre muitos desdobramentos na crise política local. Conte acusou Salvini, de ser "irresponsável" ao romper a coalizão governamental em 8 de agosto.
"Este governo acabou. Apresentarei minha renúncia ao presidente da República, Sergio Mattarella", declarou, em discurso no Senado em tom enérgico, interrompido por aplausos e por gritos de protesto.
 
A gestão durou 14 meses e seu fim foi abreviado pela posição de Salvini, ministro do Interior, ao pedir eleições antecipadas. É possível que se forme um novo governo com outra coalizão, da qual fariam parte o M5E, vencedor das eleições de 2018 com 32%, e o Partido Democrático (centro-esquerda), que ficou em segundo, com 18%. Há ainda a hipótese de convocação de novas eleições, o que será definido por Mattarella, caso não se forme nova maioria governista no Parlamento.
A crise desencadeada não apenas gerou preocupação pela estabilidade econômica, como também acabou aproximando duas legendas até então rivais. Esta aliança pode conter o impressionante avanço de Salvini e de sua política de extrema direita.
 
O líder ultradireitista mudou sua atitude nos últimos dias, porém, tentando se reconciliar com o M5E. "Meu celular está sempre ligado", disse ele, confiando nas divisões entre a ala esquerda do M5E e a ala direita liderada por Luigi di Maio, atual líder e também vice-primeiro-ministro.
 
Com divergências cada vez maiores, Conte, ex-advogado próximo à esquerda, resistia à política anti-imigração de Salvini e ao fechamento de portos para navios humanitários. Vários líderes históricos da centro-esquerda de diferentes correntes consideram que a oportunidade deve ser aproveitada para formar um governo sólido e progressista, com o apoio da União Europeia, que ofereça uma resposta ao fenômeno da migração, ao desemprego dos jovens e à dívida pública.
 
No pronunciamento de ontem ao Senado, Conte criticou duramente Salvini. Segundo ele, Salvini "perseguiu apenas seus próprios interesses e os interesses de seu partido", ao tentar tirar proveito das pesquisas que lhes davam uma grande maioria no Parlamento, na sequência dos resultados recordes nas eleições europeias (34%). Ele tachou o político de extrema direita de "oportunista".
Em seu discurso contra Salvini, Conte acusou o vice-primeiro-ministro de causar "sérios riscos ao nosso país" e evocou o perigo de uma espiral econômica negativa para a terceira economia da zona do euro. Acusou ainda o líder da Liga de "falta de respeito pelas regras e instituições", repreendendo-o por exigir eleições o mais rápido possível para obter "plenos poderes".
 
Também responsabilizou o agora ex-aliado de sempre ter remado contra o governo pactuado entre a Liga e o antissistema Movimento 5 Estrelas. "Em muitas ocasiões, invadiu o campo de outros ministros, criticou-os e rompeu a união da equipe de governo", resumiu o primeiro-ministro.

REAÇÃO Ainda no cargo de ministro do Interior, Salvini respondeu com um discurso em tom de propaganda, falando na bancada do partido. Foi várias vezes interrompido. "Não me arrependo de nada", declarou, após gritar que representa "um povo soberano", que "não teme nada" e é "livre". Provocou a irritação de boa parte dos senadores. "Há semanas, creio que meses, já pensavam em mudar a aliança", rebateu Salvini, se referindo à possibilidade de que nasça um novo governo com outra coalizão, desta vez entre o M5E e o Partido Democrático.


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