Publicidade

Estado de Minas

Ciberataques dos EUA contra o Irã são difíceis de verificar


postado em 26/06/2019 17:43

Autoridades americanas alegaram que um ataque cibernético ordenado pela Casa Branca havia neutralizado os sistemas de mísseis iranianos, mas, como sempre acontece com os conflitos cibernéticos, será muito difícil saber o que realmente aconteceu, estimam os especialistas.

Fontes oficiais, que pediram anonimato, asseguraram à mídia norte-americana que uma ofensiva do Comando Cibernético do Exército dos EUA tirou de serviço os sistemas de informática da unidade aeroespacial da Guarda Revolucionária Iraniana, responsável pelo bombardeio de mísseis.

Precisamente um dispositivo de ar-terra desta unidade tinha, em 20 de junho, abatido um drone de vigilância da Marinha dos EUA no Mar de Omã, aumentando as tensões no Golfo.

O ministro das Telecomunicações do Irã, Mohamad Javad Azari Jahromi, apressou-se a dizer que "nenhum" ataque cibernético retaliatório foi bem-sucedido por parte dos Estados Unidos.

- 'Todos mentem' -

"O problema é que, nesse tipo de história, todo mundo mente", disse à AFP Julien Nocetti, do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI). "É a característica em questões cibernéticas: a ambiguidade é permanente".

Ele acrescenta que, em termos de conflito cibernético, a "névoa da guerra", expressão do teórico militar Carl von Clausewitz, é ainda mais espessa.

O fato de as autoridades americanas terem decidido revelar tão rapidamente essa ofensiva cibernética mostra que o governo de Donald Trump quer mostrar que ele não está inativo. E isso apesar do fato de que os aviões que receberam a ordem de bombardear o Irã após a destruição do drone terem sua missão cancelada no último minuto.

Mas a realidade deste ciberataque, suas modalidades, seus objetivos exatos e sua eficácia permanecerão ocultos para sempre na neblina do conflito, diz o especialista em segurança cibernética, Nicolas Arpagian.

"Só os iranianos podem saber se sua infraestrutura foi atacada" e qual foi "a realidade do ataque e seu alcance", explica.

"A arma digital permite que o presidente Trump mostre ao mundo e especialmente aos seus apoiadores que ele está respondendo", conclui.

"Mas o fato de o alvo ser militar significa que apenas os iranianos poderiam dizer se sofreram danos, algo que não dirão, naturalmente."

- Precedente conhecido -

Há um precedente famoso: em 2010, uma série estranha de falhas afetou as centrífugas iranianas usadas para enriquecer urânio. Teerã acusou os Estados Unidos e Israel de tê-los infectado com um poderoso vírus de computador.

No entanto, levou anos para esta neblina se dissipar, e os contornos da famosa operação Stuxnet apareceram. Até hoje, israelenses e americanos se recusam a reconhecer.

Quase uma década se passou e o Cyber Command (Cyber Command) se tornou o décimo elemento de combate do Exército dos EUA em maio. O ataque contra os sistemas de mísseis dos Guardiões da Revolução é o primeiro ataque cibernético atribuído a ele, ainda que de forma semioficial, e via vazamentos para a imprensa.

"Isso faz parte da dimensão cibernética", disse à AFP Loïc Guezo, vice-secretário-geral do CLUSIF, o clube francês de segurança da informação. "É a vontade de mostrar que você tem os recursos e o controle técnico suficientes para neutralizar um sistema inimigo, tão logo a decisão política seja tomada".

"Isso estabelece uma relação de força, equivalente no cenário de guerras a um desfile na Praça Vermelha com centenas de ogivas nucleares".

Para Julien Nocetti, "é um sinal enviado aos iranianos, mas também ao resto do mundo, Moscou e Pequim estão observando isso de perto".

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade