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Estado de Minas

Manifestantes sudaneses rejeitam plano do Exército após repressão


postado em 04/06/2019 12:30

O movimento de protesto no Sudão convocou novas manifestações nesta terça-feira (4) e rejeitou o plano dos governantes militares de convocar eleições após a morte de mais de 35 pessoas na sangrenta repressão das forças de segurança em Cartum.

Após o anúncio dos militares, os líderes do protesto convocaram a "desobediência civil total" à junta, depois da dispersão de um acampamento em frente ao quartel-general das Forças Armadas. No ato, os manifestantes pediam a instauração de um governo civil.

"O número de pessoas mortas pela repressão do Conselho Militar diante da sede militar supera 35. Centenas de pessoas ficaram feridas", afirmou o Comitê Central de Médicos Sudaneses, uma organização próxima aos manifestantes, no balanço mais recente divulgado nesta terça.

O acampamento foi criado em 6 de abril para exigir a renúncia do presidente Omar al-Bashir, que foi destituído pelo Exército em 11 de abril. Os manifestantes mantiveram o protesto, porém, para exigir a transferência do poder para os civis.

Em mensagem à Nação, o chefe do Conselho Militar do Sudão, Abdel Fatah al-Burhan, disse que o Conselho Militar "decidiu cessar as negociações com a Aliança pela Liberdade e a Mudança, cancelar o acertado e realizar eleições gerais dentro de nove meses".

Segundo Burhan, as eleições serão realizadas sob "supervisão regional e internacional".

A Associação de Profissionais Sudaneses (SPA), que liderou os protestos contra Bashir, rejeitou a convocação eleitoral.

"Não é o conselho golpista, nem suas milícias, nem seus líderes que decidirão o destino do povo, nem como se fará a transição para um governo civil", declarou a associação.

A SPA pediu à população que volte às ruas novamente nesta terça, dia do fim do Ramadã, para "orar pelos mártires" e "se manifestar pacificamente".

"Nos reuníamos na nossa praça, como todos os anos, mas as Forças de Apoio Rápido e a polícia atiraram, com gás lacrimogêneo e bombas e, depois das orações, os jovens fecharam a rua principal, erguendo barricadas", disse à AFP um morador da zona de Bahri.

Outras ruas ao redor do centro da cidade estavam quase desertas nesta terça, com muitos estabelecimentos fechados e quase nenhum carro circulando pelas estradas. Os voos para Cartum foram interrompidos, enquanto as companhias aéreas acompanham a evolução da situação no terreno.

Na segunda-feira, os militares dispersaram à força o acampamento popular montado há várias semanas diante de seu QG em Cartum. Membros das forças de segurança fortemente armados e em veículos com metralhadoras se deslocaram por toda capital. Tiros foram ouvidos na área do acampamento.

Na mensagem desta terça-feira, Burhan garantiu que o "Conselho Militar fará uma investigação sobre os eventos" da véspera e convidou o procurador-geral a "se encarregar do caso". Também disse "lamentar" os fatos e que se tratou de uma "operação de limpeza" que terminou mal.

- Reações da comunidade internacional

Estados Unidos e Reino Unido pediram o fim imediato da repressão dos manifestantes, que primeiro exigiram a queda de Omar al-Bashir e, agora, desejam a saída do poder dos militares que assumiram o governo em substituição ao presidente destituído.

Alemanha e Reino Unido solicitaram uma reunião do Conselho de Segurança para discutir a crise, o que deve ocorrer já nesta terça-feira, segundo fontes diplomáticas.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou o uso excessivo da força e pediu uma investigação independente que leve os responsáveis à Justiça. Em um comunicado, Guterres disse estar "alarmado" com as informações de que as forças de segurança sudanesas teriam aberto fogo dentro de um hospital.

Em um comunicado separado, a alta comissária para os Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, também condenou o "uso excessivo da força", especialmente a utilização de "balas reais", contra os manifestantes.

O Conselho Militar de Transição negou, porém, ter dispersado à força o acampamento de opositores.

"Não dispersamos o acampamento à força", declarou ontem o porta-voz do Conselho, o general Shamsedin Kabashi, ao canal Sky News Arabia, que sede nos Emirados Árabes Unidos.

"As barracas continuam no local, e os jovens podem circular livremente", afirmou o general.

- "Matança" -

A relação entre militares e manifestantes ficou tensa no mês passado após o fracasso das negociações, que gerou diversas advertências dos generais que governam o país desde 11 de abril, quando destituíram Al-Bashir por pressão popular.

A oposição anunciou a interrupção dos contatos com o Conselho Militar de Transição e convocou manifestações.

"Anunciamos o fim de qualquer contato político e de negociação com o Conselho golpista", afirmou em um comunicado a Aliança pela Liberdade e a Mudança (ALC), líder dos protestos.

A ALC convocou uma "greve e a desobediência civil total e indefinida a partir de hoje (segunda-feira)".

"No momento, não resta ninguém diante do quartel-general das Forças Armadas, apenas os cadáveres dos nossos mártires, que não conseguimos retirar", completou a ALC.

A Anistia Internacional pediu que se considere "todas as formas de pressão pacífica, incluindo sanções específicas aos membros da autoridade transitória sudanesa responsáveis pelos violentos ataques desta manhã".

Depois de governar o Sudão por quase 30 anos, Omar al-Bashir foi deposto e detido pelo Exército em 11 de abril. Al-Bashir foi pressionado por um movimento sem precedentes, que teve início em 19 de dezembro após a decisão do governo de triplicar o preço do pão em um país abalado por uma grave crise econômica.


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