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Estado de Minas

Indústria automotiva argentina sofre com desaceleração


postado em 25/04/2019 14:04

Vender um automóvel na Argentina é mais difícil que fabricá-lo. Os vendedores de uma concessionária em Buenos Aires matam o tempo no celular ou tomando café até a chegada de algum cliente - que será recebido com toda pompa possível.

A última estatística da câmara de concessionárias revela que as vendas acumularam queda de 54,5% em 12 meses em março. No primeiro trimestre, a redução foi de 49,5% em relação ao mesmo período do ano anterior.

"Cada um de nós vendia entre 25 e 30 veículos por mês, em média. Agora, se chegamos a 10 é uma festa. Eu vendi seis e faltam dois para eu cumprir o mínimo que exigem", comenta à AFP Matías Conde, dentro do negócio de uma marca francesa.

A crise se reflete na produção. A indústria automotiva argentina é a mais castigada pela recessão há um ano. Só são usados 15,7% da capacidade instalada, o menor nível desde 2003, segundo o instituto oficial de estatísticas Indec.

"A ausência de financiamento razoável e os tributos completam um panorama alarmante", declara Dante Álvarez, presidente da câmara de concessionárias.

O poder aquisitivo dos salários virou pó com uma inflação acumulada de 54,7%, segundo o Indec. Com foco na compra de alimentos e medicamentos, a população deixa os bens duráveis para tempos melhores.

"Cerca de 7.000 dos quase 25.000 operários da indústria estão suspensos", revela à AFP um delegado do Sindicato de Mecânicos. Os suspensos recebem 70% do salário.

- Classe média apertada -

A classe média está apertando os cintos diante da recessão.

"Diariamente, 25 pequenas e médias empresas fecham", informa à AFP o dirigente empresarial do setor Pyme Eduardo Fernández. Além de profissionais desempregados, esses dois setores são historicamente clientes de veículos.

O que aconteceria em uma hipotética reativação? "A produção local se retrai e opta-se pela importação", afirma Hernán Letcher, do Centro de Economia Política.

O peso dos importados é de fato grande na Argentina, pois representa 69% dos veículos emplacados, segundo a câmara, porque o mercado está articulado em escala com o Brasil no Mercosul.

"Um exemplo paradigmático é a fábrica de motos Corven (de Rosário, no norte), que, diante da paralisação de vendas, demitiu funcionários e agora importa da China", cita Letcher.

Ex-diretor-executiva da aliança Sevel (Peugeot-Fiat), dissolvida em 1996, o presidente Mauricio Macri lançou em 2017 um ambicioso plano para chegar a "1 milhão de veículos". Mas, com a recessão, esse sonho não passa de uma utopia.

- Sem consolo -

Não há consolo sequer com as exportações - cujo principal destino é o Brasil, com 65%. No primeiro trimestre, foram exportados ao todo 47.919 veículos, com uma queda de 16,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a câmara.

"As altas taxas de juros deixam as empresas no limite. A Metalpar, líder em carrocerias de ônibus, mandou 600 trabalhadores para a rua", ilustra Letcher.

O carro médio mais barato na Argentina custa o equivalente a cerca de 15.000 dólares. O salário médio, segundo o Indec, é de em torno de 465 dólares. A taxa básica de juros é de 67%, a mais alta do mundo.

E os funcionários continuam apenas tomando café.

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