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Estado de Minas

Detidos no Rio dois suspeitos do assassinato de Marielle Franco


postado em 12/03/2019 21:15

A investigação sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes, deu um passo definitivo nesta terça-feira (12), com a detenção de dois supostos executores, mas sem esclarecer as motivações nem dissipar as dúvidas sobre o crime.

O anúncio das prisões ocorre faltando dois dias para o primeiro aniversário de um assassinato que chocou o país.

Os suspeitos do duplo homicídio, cometido em 14 de março de 2018 na zona central da cidade, são o policial militar reformado Ronnie Lessa, de 48 anos, que teria sido o autor dos 13 disparos efetuados contra o carro em que viajava o motorista, a vereadora e uma assessora, e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz, expulso da corporação por razões não informadas, que dirigia o Chevrolet Cobalt prata de onde foram feitos os disparos.

Tratou-se de um homicídio "sofisticado", no qual a vítima sofreu emboscada. Os assassinos a aguardaram por mais de duras horas enquanto ela participava de um evento com mulheres negras na Lapa e a seguiram por várias quadras até executá-la em um cruzamento onde as câmeras de segurança estavam desativadas, detalhou o delegado Giniton Lages, responsável pelas investigações.

As autoridades ainda não determinaram se Lessa - que teria planejado o assassinato durante três meses - agiu por conta própria ou por encomenda, o que será investigado em uma segunda etapa.

A vereadora negra e bissexual do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), originária da comunidade da Maré, se destacava pela defesa das minorias e pelas denúncias contra a violência policial em regiões pobres, onde vive um quarto da população da cidade.

Segundo seus correligionários, Marielle não sofria ameaças que despertassem preocupação com a sua segurança.

Seu assassinato motivou manifestações maciças e convocações de marchas para a próxima quinta-feira, quando o crime completa um ano.

Sua memória foi homenageada no carnaval deste ano por várias escolas de samba, com destaque para a Mangueira, campeã do grupo especial.

"Evidentemente que a vereadora era inimiga das milícias, mas o que gerou o crime? Por que calar essa mulher? (...) Deve ter alguma coisa mais forte", disse à AFP o jurista Walter Maierovitch, ex-secretário nacional antidrogas (1999), presidente do Instituto de Ciências Criminalísticas Giovanni Falcone.

"As investigações até agora não convenceram e a cobrança da sociedade e a repercussão internacional eram muito fortes", acrescentou Maierovitch, que não descarta que os anúncios desta terça-feira tenham sido "uma cortina de fumaça".

A operação policial cumpriu 34 batidas, uma das quais - na casa de um amigo de Lessa - foram encontrados 117 fuzis M-16, a maior apreensão deste tipo de armamento na história do Rio de Janeiro.

Esta apreensão abriu uma nova linha de investigação sobre a possibilidade de Lessa ser um traficante de armas, disse um porta-voz da Polícia Civil.

- Motivações 'políticas' -

Os promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado consideraram "inconteste que Marielle Francisco da Silva foi sumariamente executada em razão da atuação política das causas que defendia" e afirmaram que "a barbárie praticada na noite de 14 de março de 2018 foi um golpe ao Estado Democrático de Direito".

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, afirmou em mensagem no Twitter que as detenções desta terça devem ser "mais um passo para a elucidação completa deste grave crime e para que todos os responsáveis sejam levados à Justiça".

A figura de Marielle foi difamada por grupos de extrema direita. Em agosto, ganhou notoriedade um vídeo em que três políticos aparecem quebrando uma placa comemorativa com o nome da vereadora assassinada, entre eles Rodrigo Amorim, eleito em outubro deputado estadual no Rio de Janeiro pelo Partido Social Liberal (PSL), ao qual pertence o presidente Jair Bolsonaro.

Lessa, suposto autor dos disparos, foi detido em uma casa luxuosa em um condomínio de frente para o mar na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio), o mesmo onde Bolsonaro morava antes de se mudar para Brasília, em janeiro.

O delegado Lages, perguntado a respeito, disse que a vizinhança "não diz muita coisa em relação ao caso de Marielle" e que nas investigações "não detectamos relação direta com a família Bolsonaro".

Por outro lado, veículos de comunicação publicaram uma foto em que supostamente Bolsonaro aparece ao lado de Élcio Vieira de Queiroz, um dos suspeitos.

A equipe de fact-checking da AFP não conseguiu verificar se a pessoa que aparece ao lado de Vieira é de fato Bolsonaro. Perguntado a respeito em Brasília, o presidente respondeu: "Tenho foto com milhares de militares no Brasil todo".

Bolsonaro disse esperar que as investigações permitam elucidar o mais importante: quem foi o mandante do crime.

A prisão dos suspeitos "é um passo importante nas investigações, sem dúvida (...) Mas mais importante que a prisão de 'ratos' mercenários é responder à questão mais urgente e necessária de todas: Quem mandou matar Marielle?", disse a viúva da vereadora, Monica Benício.

"Espero não ter que aguardar mais um ano para saber quem foi o mandante disso tudo", acrescentou.


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