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Estado de Minas

Quando a extrema direita alemã recorre à Primeira Guerra Mundial


postado em 09/11/2018 10:44

A extrema direita alemã tenta melhorar a imagem do Império Alemão e de seu papel na Primeira Guerra Mundial, retomando um debate iniciado há décadas, enquanto se comemora o centenário do Armistício.

A revista Compact, aliada do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) publicou uma edição especial dedicada ao Tratado de Versalhes de 1919, que atribui a responsabilidade do conflito ao Reich e obrigou a Alemanha a pagar reparações colossais.

O título da revista lembra a retórica revanchista utilizada nos anos 1920 pelos nostálgicos do Império e os nazistas: "A Vergonha de Versalhes: como as potências vitoriosas dominaram a Alemanha".

A ideia da revista é mudar a opinião sobre o Império Alemão (1971-1918), que a consciência coletiva alemã considerava há décadas como a primeira das potências destrutivas do século XXI.

- Controvérsia de Fischer -

Essas opiniões distintas sobre o Reich não são novas e estavam na raiz de um debate que agitou a esfera pública a partir dos anos 1960 com o nome de "controvérsia de Fischer".

Em seu livro "Os objetivos de guerra da Alemanha Imperial 1914-18", Fritz Fischer, professor da Universidade de Hamburgo, tentou demonstrar que a Alemanha de Guilherme II foi a primeira a buscar o conflito a partir de julho de 1914 para saciar sua ânsia de poder em escala mundial.

Segundo o autor, as origens da ascensão ao poder dos nazistas se encontram na ambição jamais satisfeita.

"Essa interpretação de Fischer, que é compartilhada principalmente pela esquerda, se apoia em uma crítica viral contra o Império Alemão, o militarismo e o imperialismo, e considera que apenas uma democracia forte pode compensar" o dano feito antes de 1945, explica Jörn Leonhard, professor da Universidade de Friburgo em Brisgóvia.

O AfD acredita que essa interpretação é a dos vencedores da guerra, e defende que o Império é um modelo positivo.

O partido de extrema direita quer "revalorizar o Império (...) porque [representa um Estado] por sua vez moderno, por seu forte desenvolvimento industrial, e muito conservador", diz o historiador Klaus-Peter Sick.

"Os valores do Reich alemão correspondem" aos do AfD: "Disciplina e Ordem", acrescenta.

Os representantes da extrema direita salpicam em seus discursos referências ao chanceler imperial Otto von Bismarck (1815-1898) e à "era dos castelos prussianos", verdadeiros "orgulhos germânicos".

O líder do AfD, Alexander Gauland, classificou o regime nazista de "cocô de pássaro" em "1.000 anos de uma gloriosa história alemã".

O objetivo da extrema direita é "que os alemães estejam orgulhosos da história e da nação alemã e que não vejam em todas as partes o fantasma do nazismo", explica Sick.

E também aproveitar o fato de que as gerações que viveram os dois conflitos mundiais estão desaparecendo.

- Velhas feridas -

Os alemães voltaram a se interessar pela Primeira Guerra Mundial com a publicação em 2013 do campeão de vendas do historiador australiano Christopher Clark "Os sonâmbulos: como a Europa entrou em guerra em 1914".

O autor explica que a Alemanha e o Império Austro-Húngaro tiveram uma grande responsabilidade no início do conflito, mas a Rússia, a França e o Reino Unido também foram culpados, já que alimentaram a escalada militar.

O sucesso desse livro "mostra uma necessidade arraigada de se livrar de reprovações e da culpa", segundo o jornal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung.

Para os poderes públicos, os horrores da primeira metade do século XX continuam sendo um tema muito espinhoso.

Mesmo nesse ano do centenário, as comemorações foram mínimas. Em Berlim, em meados de outubro foi realizada uma conferência chamada "Ganhar a paz", fechada para o público.

Não aconteceram grandes cerimônias, em um país que tem poucos monumentos aos mortos da Primeira Guerra Mundial.

"Os políticos alemães consideram muito importante não abrir velhas feridas", diz Leonhard. "E é também essa a visão de Angela Merkel (...) Isso faz parte de sua personalidade, muito reservada".

Merkel só prevê participar de uma cerimônia, junto com o presidente francês Emmanuel Macron, em 10 de novembre em Rethondes, local da assinatura do armistício, em 11 de novembro de 1918.

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