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Estado de Minas

Ex-guarda de campo de concentração é julgado na Alemanha


postado em 06/11/2018 15:31

Um ex-guarda de 94 anos do campo de concentração nazista de Stutthof, na Polônia, chorou após ouvir os depoimentos das vítimas no primeiro dia de seu julgamento em Münster, na Alemanha, pela cumplicidade em centenas de assassinatos.

O alemão, residente em Münster, é acusado de ter servido entre junho de 1942 e setembro de 1944 nesse campo, situado a 40 quilômetros de Gdansk. No momento dos acontecimentos tinha entre 18 e 20 anos, e, por isso, é julgado como menor.

A Procuradoria não divulgou a identidade do acusado, que, segundo o jornal Die Welt, seria um paisagista aposentado chamado Johann.

O homem chegou ao tribunal em cadeira de rodas, com um chapéu e uma bengala na mão, e não falou nada. Diante dele havia 17 partes civis.

O acusado não conseguiu conter as lágrimas, segundo a imprensa alemã, após os dois primeiros depoimentos.

Uma sobrevivente do campo, Marga Griesbach, contou como viu seu irmão de seis anos pela última vez em Stutthof, antes de ser transferido ao campo de extermínio de Auschwitz, onde morreu em uma câmara de gás.

- 'Todas as maneiras de matar' -

O acusado "ajudou a matar minha mãe, esta mãe adorada que tanto senti falta por toda a minha vida", declarou outra testemunha, que hoje mora em Indianápolis, nos Estados Unidos, e cujo nome não foi publicado pela imprensa.

"Em Stutthof foram usadas todas, ou quase todas, as maneiras de matar", disse à imprensa o procurador de Dortmund, Andreas Brendel.

Segundo a ata de acusação, ele "sabia de todos os métodos para matar" e, por isso, foi cúmplice no "assassinato de centenas de pessoas".

Em agosto de 2017, o homem negou à polícia ter estado a par das atrocidades cometidas no campo, e afirmou que os soldados também sofriam com a escassez de alimentos, indicou o Die Welt.

Em Stutthof, primeiro campo de concentração nazista estabelecido fora do território alemão no final de 1939, 65.000 dos cerca de 110.000 deportados morreram.

Controlado pelas SS e auxiliares ucranianos, primeiro serviu para a detenção de prisioneiros de guerra e opositores poloneses, noruegueses e dinamarqueses, antes de que os judeus dos países bálticos e da Polônia, sobretudo mulheres, fossem deportados a partir de 1944 no contexto da "solução final" nazista.

"Estou muito grato pela realização desse julgamento. Ninguém na minha família achou que fosse possível uma ação judicial. Para mim, que sou da terceira geração, é muito importante", assinalou Ben Cohen, neto de Judy Meisel, uma deportada do campo.

As 14 audiências previstas até janeiro se limitarão a duas horas de duração cada uma para que o acusado possa estar "em boa condição física", segundo o procurador. Na quinta-feira haverá uma segunda audiência.

Um segundo ex-guarda das SS, de 93 anos, pode ser julgado, mas ainda está sendo avaliado se ele é apto para comparecer ou não aos tribunais.

O acusado enfrenta uma pena máxima de 15 anos de prisão, embora uma condenação assim seja pouco provável.

- 'Nunca mais' -

A Justiça alemã é criticada por tratar tarde demais os crimes do III Reich.

Nos últimos anos, a Justiça alemã condenou vários antigos integrantes da SS por cumplicidade em assassinatos: John Demjanjuk, Reinhold Hanning, Hubert Zafke e Oskar Gröning.

Desde 2011, uma nova jurisprudência permite abrir diligências por "cumplicidade em assassinato" contra aqueles que participaram no funcionamento dos campos.

Até então, somente eram processados suspeitos diretamente envolvidos nos assassinatos dos deportados.

Todos os acusados eram muito idosos e ocupavam cargos subalternos durante a guerra. Nenhum foi à prisão devido ao seu estado de saúde. Gröning morreu logo antes de ser preso.

O processo, que começou nesta terça, é "um gesto para dizer 'nunca mais'", considerou o historiador especialista em nazismo Peter Schöttler. "Se deixarmos esse caso passar, sempre haverá uma desculpa para deixar outros passarem".

"A Alemanha deve aos familiares e às vítimas dos crimes do nacional-socialismo que investiguem, ainda hoje, os atos e persigam esses criminosos", sustentou o procurador Brendel.

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