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Estado de Minas

'Estamos em perigo' no Brasil, afirma irmã de Marielle Franco


postado em 30/10/2018 16:11

"Sei que como mulher, negra, tendo uma irmã homossexual, hoje eu estou em perigo" no Brasil, declara à AFP Anielle Franco, de 34 anos, durante a Cúpula Mundial de Defensores dos Direitos Humanos que acontece em Paris.

Sua irmã, Marielle Franco, vereadora do Partido Socialismo e Liberdade (Psol) que denunciava o racismo e a violência policial e lutava pelos direitos das mulheres e da comunidade LGBT foi assassinada a tiros aos 38 anos, em 14 de março deste ano, dentro de um carro no bairro do Estácio, no centro do Rio de Janeiro.

Pergunta: Qual é a sua reação depois da eleição de Jair Bolsonaro como presidente do seu país?

Resposta: Eu estou muito assustada com que o que ele vai fazer, mas também tenho medo da atitude das pessoas que votaram nele. Desde domingo houve muitos incidentes de violência no Rio, pessoas xingando, brigando.

Bolsonaro disse que ia "limpar" - foi a palavra que ele usou - do país os homossexuais, os pobres e os negros. Então, sim, eu estou com medo dele, mas também do que os militares acham que terão direito de fazer. Tenho medo das pessoas "normais", que acham que agora terão a permissão de portar armas, que pensam que a família tradicional é superior a qualquer outro tipo de família e que as famílias homossexuais não têm direito de existir.

Eu acho que as pessoas se escondiam atrás das suas opiniões e Bolsonaro lhes deu direito de gritar suas loucuras. Então, sim, estamos muito assustados e em perigo.

Acho que uma parte da população estava cansada do PT, de Lula e todos os outros. Você pode ficar cansado da corrupção, mas não pode perder a democracia. Os seus partidários dizem que votaram em Bolsonaro para acabar com a corrupção, mas não se dão conta de que votaram em alguém que espalha o ódio entre as pessoas, e que isso restringirá os seus direitos e liberdades.

Eu gostaria de fazer um pedido às ONGs e organizações de defesa dos direitos humanos para que vigiem a situação no Brasil e continuem nos ajudando apesar da chegada de Bolsonaro ao poder.

P - A sua família está ameaçada?

R - Nós recebemos diferentes tipos de ameaça: cara a cara e on-line. Há aproximadamente três semanas, por duas vezes, eu estava com a minha filha em um shopping no Rio e algumas pessoas com camisas do Bolsonaro começaram a gritar, assustando a milha filha que só tem dois anos. Gritavam: "Bolsonaro está chegando e você não vai ter lugar aqui", "Você deveria calar a boca e parar de falar da sua irmã", "Você pode ser a próxima morta". E nas redes sociais, nossa família é muitas vezes ameaçada, como, por exemplo, quando disseram "cala a boca e volta para a escravidão".

Não sabemos como reagir, enviamos cópias dessas ameaças para os nossos advogados. A nossa família não está sob nenhuma medida especial de segurança desde que mataram Marielle. O que é estranho é que temos amigos que nos dizem "Amamos você, estamos com você, sentimos muito por Marielle", mas que votaram em Bolsonaro.

Sei que como mulher, negra, tendo uma irmã homossexual, eu estou em perigo.

Mas tenho certeza que as organizações de defesa dos direitos LGBT no Brasil não vão se esconder, vão continuar lutando.

P - A investigação sobre a morte de sua irmã avançou?

R - Não temos nenhuma pista até agora. E estou muito triste por ter que dizer isso, mas hoje, com Bolsonaro e seu séquito à frente do Brasil, não sei se algum dia chegaremos a saber quem a matou. Não acho que Bolsonaro se importe com quem matou Marielle. Infelizmente, parece um "crime perfeito". Sem câmeras de segurança, sem testemunhas, a polícia não nos diz nada há quase oito meses.

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