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Estado de Minas

Jair Bolsonaro entra em campo em um Brasil dividido


postado em 05/10/2018 09:36

Quando o meia do Palmeiras Felipe Melo dedicou um gol ao candidato de extrema direita Jair Bolsonaro, a campanha no Brasil cruzou uma linha que há décadas não ultrapassava: a dos gramados. Em um país cada vez mais dividido, a polarização entrou nos estádios.

"Esse gol vai para o nosso futuro presidente Bolsonaro", declarou Felipe Melo após a partida contra o Bahia há duas semanas.

Naquele momento, o capitão da reserva estava se recuperando de uma facada que levou durante um comício em Juiz de Fora (MG).

O polêmico jogador, que no ano passado já havia desejado que Bolsonaro acabasse com os "vagabundos", não é o primeiro no mundo do futebol a apoiá-lo. Isto já havia sido feito pelos jogadores do Corinthians Roger e Jadson, pelo atacante do Tottenham Lucas Moura, que chegou a entrar em várias discussões no Twitter para defendê-lo, e, recentemente, pelo ex-campeão do mundo Rivaldo.

Mas o meia deu esta declaração na televisão e vestindo a camisa de um clube com milhões de torcedores, entre eles o próprio Bolsonaro.

"Se polarizou demais, a sociedade brasileira está muito dividida e alguns jogadores têm sentido a necessidade de se manifestar, na maior parte deles fruto da ignorância política que os caracteriza. Mas, de toda maneira, é uma manifestação válida dentro do regime democrático", disse à AFP Juca Kfouri, um dos grandes cronistas da Democracia Corinthiana, movimento de luta pelos direitos civis liderado por Sócrates nos últimos anos da ditadura.

Desde então, não lembra de uma divisão igual.

- Excepcional -

Na mesma hora em que Felipe Melo falava, alguns torcedores do Atlético Mineiro, em Belo Horizonte, cantavam, durante um clássico, para seus rivais do Cruzeiro: "Cruzeirense, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar 'viado'".

O clube se apressou em pedir desculpas em um comunicado, sem fazer referência ao candidato do PSL, mas não evitou a multa de 5.000 reais imposta pela Justiça Desportiva.

O Palmeiras, por sua vez, lembrou em nota que a posição de Felipe Melo era estritamente pessoal e que o clube mantém sua "neutralidade em questões políticas".

Mas nem todos no futebol se sentiram confortáveis com essa distância e algumas torcidas organizadas decidiram dar um passo inédito desde a ditadura.

O caminho foi aberto pela Gaviões da Fiel, do Corinthians, que emitiu uma nota lembrando os seus 112.000 sócios que desde o seu nascimento, em 1969, sempre estiveram do lado da democracia, pelo que seria uma "incoerência" apoiar um nostálgico da ditadura.

O mesmo foi feito pela Torcida Jovem do Santos, assim como por outras organizadas progressistas de Palmeiras e Fluminense, presentes nas manifestações contra Bolsonaro que tomaram o país no sábado passado.

Entenderam que a situação era de exceção, embora nem todos tenham enxergado assim.

"Política não se mistura com futebol. Sou do Corinthians e nenhum presidente de torcida organizada vai se intrometer no candidato em quem vou votar. Voto no Bolsonaro com muito orgulho!!!", protestou um internauta entre os mais 4.000 comentários suscitados pelo comunicado da Gaviões no Facebook.

- De outro planeta? -

A agitação causada pelas declarações de Felipe Melo alertou o procurador da Justiça Desportiva, Felipe Bevilacqua.

Embora não tenha sido aberto nenhum processo, o sindicato de jogadores exigiu respeito à liberdade de expressão e Felipe Melo encontrou defensores inclusive entre figuras opostas, como a do ex-jogador e impulsionador junto com Sócrates da Democracia Corinthiana, Walter Casagrande.

"Eu vi um ato de democracia nesse sentido. Fiquei até muito orgulhoso por um jogador de futebol se posicionar. Porque os jogadores sumiram, não falam uma linha de nada. Acontecem milhões de coisas no Brasil e não tem um jogador (...) que se manifeste, parece que são de outro planeta", assegurou em entrevista ao Estado de S. Paulo.

Embora tenha pedido para que não caiam em equívocos.

"A Democracia Corinthiana foi um processo de várias pessoas pela redemocratização do país(...) Por isso é uma ofensa pra nós comparar o que o Felipe Melo fez, com a Democracia Corinthiana", detalhou.

Muitos analistas consideram aquele movimento como uma exceção no conservador futebol brasileiro, pouco amigo da mudança e com uma histórica, e promíscua, relação com a política, que - entre outros - fez de Pelé ministro e agora tem Romário disputando o governo do Rio de Janeiro.

"Acho que (os dirigentes) olham (Bolsonaro) com simpatia porque a superestrutura do esporte brasileiro é profundamente reacionária", avaliou Kfouri.

A resposta começará a ser definida no próximo domingo, 7 de outubro, quando o país estará tão atento à política que não haverá nem futebol.

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