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Estado de Minas

Igreja católica, em plena crise, dedica sínodo aos jovens


postado em 02/10/2018 10:42

Bispos de todo o mundo convergem em Roma para o lançamento na quarta-feira (3) de um sínodo dedicado à juventude, num momento em que a Igreja enfrenta uma crise existencial marcada por novos escândalos de abusos sexuais do clero.

Serão 267 "padres sinodais" (cardeais, bispos, patriarcas cristãos, membros da Cúria, religiosos), 23 especialistas e 34 jovens com entre 18 a 29 anos, ouvidos por 49 auditores, incluindo um punhado de mulheres, a participar do Sínodo sobre "os jovens, a fé e o discernimento vocacional".

Reunida de 3 a 28 de outubro, esta assembleia deve produzir um documento consultivo ao final do encontro.

"A Igreja deve continuar a defender tolerância zero em matéria de abusos sexuais, se quiser aumentar a sua credibilidade com a juventude do mundo inteiro", escreveram em março 300 jovens dos cinco continentes reunidos em Roma para se preparar para este Sínodo, apoiados por 15.000 internautas.

"Queremos dizer à hierarquia da Igreja que ele deve ser transparente, acolhedora e honesta, capaz de admitir seus erros passados e presentes", ressaltaram ao final deste "pré-sínodo".

Foi este trecho que o papa Francisco ressaltou na semana passada aos jovens na Estônia. Os jovens "estão indignados com os escândalos sexuais e econômicas, contra os quais não veem uma clara condenação", constatou na ocasião, observando que muitos "consideram a presença da Igreja dolorosa ou irritante". "Queremos respondê-los", prometeu.

Francisco talvez também estivesse retrucando um cardeal conservador americano que sugeriu, no final de agosto, o cancelamento deste sínodo. O arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput, considerou que o tema da juventude atualmente "não tem credibilidade".

Desde então, o papa convocou para fevereiro de 2019 uma reunião sem precedentes de todos os presidentes de conferências episcopais de todo o mundo para abordar o tema da "proteção dos menores".

Para a organização "Ending Clergy Abuse" (ECA), o sínodo "é uma oportunidade sem precedente e histórica para Francisco e seus bispos para superar a crise, uma vez que vão falar dos jovens, da sexualidade e das vocações".

Mas a ECA lamentou que nem o programa nem o documento de trabalho do sínodo não mencionam "os abusos sexuais cometidos pelo clero, os abusos sofridos por seminaristas e os esforços dos bispos para encobrir" tais crimes por décadas.

- "Fragilidade humana" -

O papa foi pessoalmente atacado no final de agosto por um ex-embaixador da Santa Sé, o arcebispo Carlo Vigano, que acusou o pontífice de ter encoberto por cinco anos o cardeal americano Theodore McCarrick, suspeito de abusos sexuais contra seminaristas e padres.

E os relatórios chocantes se sucederam recentemente: pelo menos mil vítimas e 300 "padres predadores" na Pensilvânia (leste dos Estados Unidos), mais de 3.600 vítimas durante décadas na Alemanha.

Para o cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário-geral do sínodo dos bispos, os escândalos não são um obstáculo. "A Igreja não é representada por alguns que estão errados" e "os jovens podem entender a fragilidade humana", disse ele a repórteres na segunda-feira.

Durante o "pré-sínodo", os jovens fizeram perguntas sobre "sexualidade, dependências, casamentos desfeitos", pedindo aos bispos que também abordassem as questões controversas da "homossexualidade e do gênero". Eles também pediram uma melhor representação das mulheres na Igreja.

Neste contexto, o cardeal canadense Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, afirmou que "mais mulheres" deveriam participar da formação de seminaristas para promover "o equilíbrio da afetividade".

O avanço da laicização também foi mencionado pelos jovens. "Às vezes nos sentimos excluídos porque os cristãos em um ambiente social se opõem à religião", disseram eles. E para o papa, o sínodo também deve permitir um "despertar de vocações sacerdotais e religiosas", em declínio no Ocidente.

Em outubro de 2014 e 2015, os dois sínodos anteriores, dedicados à família, ilustraram as profundas divisões dentro da Igreja em face das mudanças sociais.

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