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Estado de Minas

Islândia, dez anos depois da crise


postado em 09/09/2018 14:30

Bancos arruinados, moeda em queda livre, pedido de resgate ao Fundo Monetário Internacional (FMI): há dez anos, a Islândia caía na pior crise financeira de sua história, uma traumática lembrança que ela ainda tenta esquecer.

Outrora dependente da pesca, essa ilha vulcânica isolada nos confins do Ártico se tornou um país de banqueiros com um sistema financeiro muito dinâmico. Os islandeses tinham o mais alto índice de qualidade de vida no mundo, e o crescimento de sua economia estava perto de 5% ao ano desde 2000, estimulada por um sistema financeiro muito ativo no exterior.

O balanço combinado dos três grandes bancos islandeses - Kaupthing, Landsbanki e Glitnir - equivalia, antes da crise, a quase dez vezes o PIB da Islândia, um dos menores países do planeta.

Apelidado de "vikings das finanças", o trio operava tanto no exterior, quanto no mercado interno, estimulando o pedido de empréstimos. Nesse país de apenas 320.000 habitantes, cerca de 70.000 famílias tinham contratado um crédito na época.

Em 15 de setembro de 2008, porém, quando o banco de negócios americano Lehman Brother quebrou, os mercados mundiais de crédito se congelaram do dia para a noite.

Os três grandes bancos islandeses se viram rapidamente ameaçados. Esses estabelecimentos, que haviam financiado sua expansão internacional desenfreada com empréstimos, precisavam desses mercados. A bolha especulativa explodiu, e o sistema veio abaixo.

- Quebra evitada -

A coroa islandesa perdeu metade de seu valor em meses, a inflação chegou a 18%, e a taxa de desemprego alcançou quase 9% no segundo trimestre de 2009.

Para evitar a falência, as autoridades islandesas proibiram qualquer movimento de capitais para fora do país e assumiram o controle dos três bancos, sem que o Estado assumisse as perdas.

"A Islândia estaria quebrada atualmente, se tivéssemos feito isso (nacionalizar as perdas)", alega o governador do Banco Central da Islândia, Mar Gudmundsson.

O país deixou seus bancos quebrarem para permitir refundar o sistema financeiro sobre bases saudáveis e criou três novas entidades: Islandsbanki, herdeira do braço islandês do Glitnir, Arion Banki e New Landsbanki. Suas carteiras se simplificaram e operavam apenas no mercado nacional.

Milhares de manifestantes reivindicaram, porém, a saída do governo de centro direita. Um quarto da população perdeu suas economias, e muitos tinham em aberto parcelas de empréstimos que, em alguns casos, chegaram a duplicar de valor.

O país nomeou um procurador especial que estudou cerca de 200 casos, dos quais 24 deram lugar a condenações por fraude, malversação, manipulação do mercado e abuso de confiança. Seis desses casos continuam nos tribunais.

- Crescimento e advertência -

Desde então, a pequena ilha viveu uma recuperação espetacular, ainda que, depois da crise, tenha sofrido sua maior onda emigratória desde o final do século XIX.

Às custas de medidas de austeridade e do endividamento das famílias, a economia da Islândia, o primeiro país ocidental a receber ajuda do FMI, voltou a crescer a partir de 2011.

Em 2016, o país teve um crescimento de 7,2%, o maior dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), alimentado pelo consumo privado, pelo retorno dos investimentos, pela explosão do turismo e por uma política orçamentária expansiva.

A confiança dos poupadores ainda não recuperou, contudo, seu nível de antes da crise.

"A reputação da indústria bancária na Islândia é bastante frágil", disse o diretor financeiro do Arion Banki, Stefán Pétursson.

O tamanho do sistema bancário representa agora 1,5 vez o PIB, e a maioria das operações é local.

Segundo o diretor-geral adjunto da autoridade de vigilância financeira, Thór Sturluson, as inúmeras barreiras criadas no setor tornam quase impossível uma nova crise como a de 2008. Ele avalia, porém, que mais medidas sejam necessárias.

"O objetivo é criar um sistema suficientemente resistente para poder sobreviver às dificuldades de um único banco. Ainda não conseguimos isso", considerou Sturluson.

Para o professor de Economia Thórólfur Matthiasson, da Universidade da Islândia, uma nova crise é possível.

"Somos muito bons para encontrar remédios para as crises passadas, mas as coisas nunca se repetem exatamente da mesma forma", lembrou.

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