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Estado de Minas

Primeiras declarações na justiça por escândalo de subornos na Argentina


postado em 02/08/2018 21:24

Empresários e ex-funcionários começaram a depor à Justiça nesta quinta-feira, em Buenos Aires, por um novo escândalo de subornos, batizado de "cadernos da corrupção", que atinge a ex-presidente Cristina Kirchner e uma empresa vinculada à família do presidente Mauricio Macri.

A Justiça analisa o conteúdo de oito cadernos escolares, nos quais o motorista de um ex-funcionário teria registrado o que seriam retiradas e entregas de dinheiro entre 2005 e 2015, anos dos governos do já falecido Néstor Kirchner (2003-2007) e de sua mulher, Cristina Kirchner (2007-2015).

Segundo os cadernos - que detalham meticulosamente valores, pontos de recolhimento e de entrega de maletas com dólares em espécie -, os subornos foram utilizados para obter a concessão de obras públicas.

O motorista Oscar Centeno está entre os processados. Nesta quinta, ele depôs diante do juiz Claudio Bonadío em um caso que corre sob segredo de Justiça.

Segundo a Procuradoria, os supostos subornos teriam alcançado cerca de 160 milhões de dólares.

Até agora, foram realizadas 34 buscas, com apreensão de 14 automóveis, aproximadamente 50.000 dólares em espécie e dispositivos de informática.

- Lava Jato na Argentina? -

Para Leandro Despouy, que foi auditor-geral da Nação entre 2002 e 2016, os chamados cadernos da corrupção vão abrir "uma porta que não se havia aberto na Argentina".

"Envolve um grande número de empresários, não somente funcionários. Pode ser o início de uma 'Lava Jato' na Argentina", disse Despouy à AFP.

Para Despouy, o mais provável é que os empresários colaborem com a justiça e se declarem vítimas de extorsão por parte do Estado.

As detenções realizadas na madrugada de quarta-feira incluem Roberto Baratta, ex-vice-ministro de Planejamento e para quem Centeno trabalhava.

Também foram detidos os empresários Gerardo Ferreyra, da construtora Electroingeniería, e Javier Sánchez Caballero, ex-gerente-geral da IECSA, a construtora que pertencia a Ángelo Calcaterra, primo do presidente Macri.

"Nunca paguei propina. Isso é um circo midiático", defendeu-se Ferreyra nesta quinta-feira, quando foi levado algemado para prestar declaração diante do juiz.

Outro detido à disposição da Justiça é o ex-subsecretário legal de Planejamento Federal, Rafael Llorens, e o ex-presidente da Câmara Argentina da Construção, o empresário Carlos Wagner.

- Os cadernos publicados -

Os cadernos que deram origem ao processo foram entregues por uma fonte não revelada a um repórter do jornal "La Nación", que os encaminhou para a Justiça.

O jornal publicou nesta quinta trechos de várias páginas do conteúdo das anotações, com endereços relacionados às maletas de dinheiro.

A ex-presidente e atual senadora Cristina Kirchner foi convocada a depor no próximo dia 13 de agosto pelo juiz Bonadío.

Kirchner, que pode ser julgada, mas não presa devido ao foro privilegiado, não falou com os jornalistas até o momento.

Os apoiadores da ex-presidente, um dos maiores expoentes da oposição, consideram a operação uma ação política.

Nas ruas, as opiniões também estão divididas. "Parece que estão todos envolvidos. Não sei se os empresários têm a mesma responsabilidade dos políticos, mas é impressionante. Já estamos fartos", disse à AFP Judith Buchbinder, uma mulher de classe média no centro de Buenos Aires.

Perto dela, outra mulher, Elisa Loria, disse precisar de tempo "para separar o joio do trigo" na denúncia. "O governo está usando isso para esconder tudo o que faz de ruim", acrescentou.

A residência do casal Kirchner em Buenos Aires é um dos destinos nas anotações do motorista, assim como a Casa Rosada (sede do governo) e a residência presidencial de Olivos, nos arredores da capital.

A justiça investiga a hipótese de associação ilícita em um caso do qual se esperam mais prisões.

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