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Estado de Minas

'Carmen y Lola', o amor impossível entre duas jovens ciganas


postado em 15/05/2018 18:42

"Carmen y Lola" foi apresentado nesta terça-feira (15) em Cannes com todos os ingredientes para triunfar: delicado e sensível, o filme da espanhola Arantxa Echevarría relata a história de duas adolescentes lésbicas que lutam para viver seu amor na fechada comunidade cigana.

A obra-prima desta cineasta foi exibida na Quinzena dos Realizadores. Mas chegar até lá foi um caminho cheio de obstáculos.

Echevarría quis contar com atrizes não profissionais ciganas, o que lhe tomou anos, e gravar no centro desta comunidade, o que fez com que fosse chamada de "endiabrada" pelas ruas.

Em uma comunidade sem tradição cinematográfica, onde a homossexualidade é um tabu e espera-se que as jovens não estudem e se casem o quanto antes, seu projeto caiu como uma bomba no bairro cigano onde foi rodada, na periferia de Madri.

- Pergunta: A ideia do filme surgiu com o primeiro casamento entre mulheres ciganas na Espanha, em 2009. Elas se apresentaram ante a imprensa ocultando sua identidade porque eram rejeitadas por sua comunidade. Por que se sentiu atraída por esta história?

- Resposta: Por ser mulher e cineasta. Tenho a capacidade de contar histórias e de ser o alto-falante de certas coisas que me parecem que não estão bem. Tenho que ser solidária com nosso gênero. Meus curtas também são assim: "Yo, presidenta" ou "De noche y de pronto", indicado ao Goya, sobre os medos femininos.

- P: Como encontrou Zaira Romero (Lola) e Rosy Rodríguez (Carmen)?

- R: Foi muito complicado. Busquei em associações ciganas, LGBT... Depois procurei na internet, em chats de lésbicas. Fiquei um mês em chats como "Cigana bonita". Dois anos depois, consegui um círculo de confiança com cerca de 15 meninas, mas quando propus que participassem do filme me disseram que não (por medo das repercussões, ndlr). No fim das contas fizemos um teste de elenco com 1.000 ciganas e encontramos elas, embora sejam heterossexuais.

- P: Como acha que o filme vai ser recebido no círculo das duas protagonistas?

- R: Não sei, tenho certo medo em relação à comunidade. Seus pais estão cientes, eu lhes pedi autorização e falei muito com eles. Mas é que até mesmo vê-las fumando nas gravações era terrível para os ciganos presentes no local.

- P: Depois de ser exibido em Cannes, seu filme foi comparado imediatamente com o francês "Azul é a Cor Mais Quente", Palma de Ouro de 2013, também sobre um casal de jovens lésbicas.

- R: Não tem nada a ver! Por exemplo, em "Carmen y Lola" quase não há cenas de sexo. Falando do primeiro amor e de romantismo, o sexo estava sobrando. Não ia criar algo mórbido. Queria dar visibilidade a mulheres que vivem se escondendo e não têm voz.

- P: O filme destaca a história humana, acima de qualquer mensagem ativista.

- R: Minha intenção era ser equilibrada. Os ciganos são uma comunidade minoritária oprimida pelos 'payos' (não ciganos). Queria tratar o tema com respeito e pudor, mostrar, para que o espectador fizesse suas conjeturas. Queria evitar que me tratassem como uma paya arrogante.

- P: Qual é seu segredo para ter contado uma história de forma tão delicada?

- R: Foi feito com todas as minhas lembranças do meu primeiro amor, das sensações que experimentei. Quando falavam com você e suas pernas tremiam. Todos sentimos a mesma coisa. Embora eu não tenha tido nenhum problema em meu entorno.

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