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Estado de Minas

Apesar das divisões, xiitas devem se manter no poder no Iraque


postado em 10/05/2018 17:48

As primeiras eleições legislativas no Iraque desde a derrota do grupo Estado Islâmico (EI) acontecerão no sábado (12) em uma situação inédita, com os xiitas divididos, mas favoritos, os curdos com risco de perder seu papel fundamental e os sunitas marginalizados.

O país, rico em petróleo, conta com infraestruturas deficientes devido às destruições da guerra e aos altos índices de corrupção, que dificultam as obras de reconstrução.

Nenhum dirigente conseguiu acabar com a corrupção apesar das promessas e manifestações semanais contra este problema.

Diferentemente das três eleições anteriores, organizadas após a queda de Saddam Hussein, em 2003, a campanha eleitoral não teve casos de violência, apesar das ameaças dos extremistas do EI, muito enfraquecido militarmente.

Para evitar qualquer infiltração ou incidentes, as autoridades anunciaram o fechamento das fronteiras e do espaço aéreo no dia da votação.

As eleições acontecerão, não obstante, em um contexto de tensões entre as duas potências influentes no país, Irã e Estados Unidos, depois que o presidente americano, Donald Trump, anunciou a saída do acordo sobre o programa nuclear iraniano.

Pela primeira vez, os partidos xiitas, que dominam a cena política há 15 anos, não se apresentam em uma lista comum devido a uma inflamada luta pelo poder entre os homens fortes desta comunidade, majoritária no Iraque.

Ao menos cinco listas xiitas estarão na disputa: a do primeiro-ministro em fim de mandato, Haider al-Abadi; a de seu antecessor, Nuri al-Maliki, que não dirigiu a sua derrota de 2014; e a de Hadi al-Amiri, na qual se incluem os veteranos das Forças de Mobilização Popular, fundamentais na luta contra o EI.

Também destacam-se listas de representantes de duas estirpes de altos dignatários religiosos: Ammar al-Hakim, à frente da Hikma, e o líder populista Moqtada Sadr, que fez uma aliança inédia com os comunistas dentro da "Marcha pelas reformas".

A fragmentação dos xiitas não deve alterar o equilíbrio de forças intercomunitárias em um sistema político pensado para que nenhuma formação tenha uma posição dominante e, assim, evitem a volta da ditadura.

- Não renovar 'corruptos' no cargo -

Para o especialista jordaniano Adel Mahmud, "existe uma disputa entre as principais listas pelo cargo de primeiro-ministro, mas isso não terá nenhum impacto no sistema, que faz com que os xiitas administrem o Iraque".

Outra novidade: os curdos podem deixar de ter a chave do governo devido às medidas de retorsão tomadas pelo poder central após o referendo de independência de setembro de 2017.

O Exército retomou a província petroleira de Kirkuk e os territórios que os curdos controlavam fora dos limites oficiais de sua região autônoma.

Agora podem perder ao menos 10 das 62 cadeiras que alcançaram na legislatura anterior.

"O papel dos curdos talvez se veja fortemente reduzido e a fragmentação das forças dentro do grupo curdo se acentuará", acrescentou Mahmud.

Sobre os sunitas, que se apresentam em quatro listas, não têm nenhuma chance de voltar ao poder, mas devem ter um papel determinante na formação do governo.

Além disso, a mais alta autoridade religiosa xiita, o grande aiatolá Ali al-Sistani, não pediu aos eleitores que compareçam em massa nas urnas, como fez em convocações anteriores.

Se limitou a pedir que não votem novamente nos "corruptos" e "incapazes", em um país classificado entre os mais corruptos do mundo.

- Influências iraniana e americana -

Entretanto, tem poucas chances de ser ouvido, posto que apenas 20% dos quase 7.000 candidatos são novos na política.

A votação será realizada em um clima delicado, já que o Iraque é um ponto de encontro de dois inimigos, Irã e Estados Unidos.

O primeiro tem uma forte influência política por meio dos partidos xiitas, mas também em outras comunidades, enquanto o segundo teve um papel militar crucial na vitória contra o EI.

Entretanto, para os especialistas, a nenhum dos protagonistas interessa colocar mais lenha na fogueira.

"Estados Unidos e Irã têm interesse em continuar na mesma sintonia. Os dois apoiaram os governos de maioria xiita e Abadi", destacou Renad Mansur, pesquisador associado no programa Oriente Médio e África do Norte da Chatham House.

O cientista político iraquiano Essam al-Fili concorda. "É claro que o Irã terá uma influência direta na situação do Iraque. A situação é sensível e as partes leais ao Irã com certeza irão querer se aliar a uma personalidade xiita moderada capaz de obter o aval dos americanos".

Para ele, "a saída dos americanos do Iraque em 2011 foi um erro e o seu primeiro beneficiário foi o Irã. É por isso que os Estados Unidos não querem entrar em confronto direto com o Irã e, ao contrário, negociarão".

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